Grupo GATI : Evangelização e apoio ao índio

Grupo GATI : Evangelização e apoio ao índio

Atualizado: Quarta-feira, 1 Outubro de 2008 as 12

Por Adriana Amorim

"Evangelizar, auxiliar e proporcionar ao índio condições básicas de saúde, moradia e integração social", esse é o objetivo do GATI - Grupo de apoio às tribos indígenas.

Formado por um grupo de voluntários, o GATI viaja às aldeias geralmente duas vezes ao ano, em ônibus com aproximadamente 38 passageiros, para distribuir alimentos, roupas, produtos de higiene pessoal e Bíblias, além de prestar serviços à população local. O grupo está em sua décima excursão. As aldeias visitadas ficam no Mato Grosso do Sul.

Pedro Mariano, idealizador e organizador das viagens ao lado de sua família, conta que na última visita o grupo entregou 800 cestas básicas para uma aldeia de aproximadamente oito mil índios. Para realizar as atividades ocupam, em geral, uma escola da aldeia e dividem os serviços em salas diferentes. Entre os voluntários estão cabeleireiros, fisioterapeutas, professores infantis e cozinheiras.

O trabalho foi iniciado por Pedro, mas com o tempo toda a família se envolveu. "É um trabalho que Deus colocou em nosso coração, primeiramente no meu e no de minha esposa, Elizabeth. Depois vieram os filhos. Quando voltávamos das viagens, eles queriam saber como tinha sido. Minha filha Nicolly, a caçula, tem 25 anos e fez faculdade de comércio exterior, ela falou: 'papai eu preciso ir nessa viagem com vocês'. A minha filha mais velha desde o começo vai. O meu filho Robert faz faculdade teológica e é evangelista, pensou que as viagens seriam muito boas para o ministério, viajou conosco e isso foi ótimo para ele. Meu outro filho tinha uma banda de rock, mas nunca dava certo, não andava e ele começou a ir para a aldeia. Depois que ele viu a situação dos índios, pensou: 'Meu Deus,quanto tempo eu perdi com a minha banda!"

No período que antecede a viagem, a organização é feita pela família e por voluntários, que arrecadam os produtos que serão distribuídos nas aldeias. "Geralmente viajamos em abril, na semana do índio, e no mês de outubro na semana da criança, quando o povo nos abençoa com muitos brinquedos. Não brinquedos grandes, brinquedos pequenos, porque são até seis mil. São muita crianças. Sabe que Deus multiplica até hoje, ele multiplica as doações. O almoço que fazemos, por exemplo, é para cinco mil pessoas. Nunca nenhum saiu ali e falou: eu não comi. Ele come e come com a benção".

Nicolly, filha de Pedro Gomes e missionária do GATI, conta que o grupo tem buscado parcerias para a construção de casas populares, poços artesianos e formação de cooperativas de trabalho. Ela fala sobre a dificuldade das arrecadações: "A gente não está indo mais vezes por causa das doações".

Pedro Mariano, em entrevista ao portal Guia-me , falou sobre outras dificuldades da população indígena no Brasil e como o GATI trabalha para suprir as necessidades do corpo e do espírito do índio.

Guia-me: Como iniciou o trabalho de apoio e evangelização dos índios?

Pedro Mariano (líder do GATI): Eu nasci em  Lucélia (SP), uma cidadezinha que faz divisa com o rio Panorama (MS), mas eu nunca pensei, nunca sonhei, jamais em trabalhar com índios. Eu precisei vir para São Paulo e depois de muitos anos de evangelho, o Senhor colocou esse povo no meu caminho". Eu estava em um culto de minha igreja, Assembléia de Deus - Bom Retiro, e pedi ao Senhor que me mudasse, porque eu estava me sentindo muito endurecido. Eu sabia que eu não era dessa forma. Eu não estava me importando com o problema de ninguém, não queria me envolver com problema alheio. Eu falei: 'Senhor, quando vai aparecer no meu coração o amor pelo meu próximo? Porque até eu estou me desconhecendo. Naquele dia a Palavra veio em cheio ao meu coração, cheguei em casa diferente. Foi um culto especial para mim, mas a história é muito longa [rs].

Antes do GATI, eu estive em uma aldeia com um grupo de missões e me apaixonei por aquele povo, eu e minha mulher. A aldeia ficava em Mato Grosso do Sul, só que lá perto do Pantanal, na divisa com a Bolívia. Nessa missão, eu me apaixonei por aquele povo, pela manera de vida deles. Totalmente isolados. Passei a conhecer mais o índio. Saí do grupo durante esta viagem e comecei a conversar com um rapaz, com outro jovem, um outro índio mais velho e ouvia deles como eles viviam.

Voltei mais algumas vezes para aquela região, eu e o pastor local, lá de Miranda (MS), e fizemos batismo nas águas de jovens índias, jovens rapazes, e fui tomando mais simpatia por aquele povo e me apaixonei por ele ainda mais. Aí, um irmão chegou em mim no "Bom Retiro" e disse: 'Irmão Pedro, por que você não monta uma equipe e começa a fazer aquelas viagens?'. Porque fizemos aquela viagem e ninguém mais fez, ninguém falou mais nada. Eu pensei algum tempo e falei tudo bem, começamos a fazer. Só que nós fomos para outro lado, para a região de Dourados.

Um dia eu estava no centro de São Paulo para sair para conhecer uma aldeia e lembrei-me de um amigo, missionário Douradinho, ele é de São Paulo, foi para Ponta Porã (MS) e vive na divisa com Paraguai. Falei com ele por telefone. Visitei com um grupo três aldeias no Paraguai. Uma miséria! Muito mais pobre que o Brasil, mas não tinha como entrar e ficar com um ônibus de viagem. O ônibus é muito grande, são 38, 35 passageiros. Numa dessas três visitas eu estava na rodoviária e vi um senhor sentado numa cadeira e pensei com meus botões: esse senhor é índio. Ele olhou para mim e começamos a conversar. Ele me perguntou: 'O senhor é pastor, missionário?' Eu falei: 'Eu sou diácono na minha igreja e estou indo para Ponta Porã para conhecer as aldeias de lá'. Ele disse: 'O senhor precisa conhecer a minha aldeia, o senhor precisa conhecer meu pastor missionário, ele é uma benção, ele trabalha na usina e lá o diretor da usina nos deu uma sala para fazer culto. Minha aldeia é bonita e Deus tem feito maravilhas na minha aldeia, conversão de almas' . Ele contou para mim sua conversão, eu fui conhecer a aldeia dele e comecei a viajar para as aldeias do Mato Grosso do Sul.

Guia-me: Como é o acesso à educação, saúde e alimentação dos índios nas aldeias?

Pedro Mariano (líder do GATI): É precário. Até a idade escolar, as crianças falam o dialeto da tribo. Depois dessa fase, aprendem o português com professores índios ou com professores da cidade que vão até a aldeia. Com 12, 13 anos, é que o bicho pega. Quando ele vai para a cidade, aí a coisa pega. Entra em choque a cultura deles com a cultura da cidade. O índio começa a olhar a maneira de se vestir dos jovens da cidade e a maneira de vida deles. São rejeitados, as pessoas os medem de alto a baixo, descriminando totalmente. Muitos voltam para a aldeia e se suicidam.

Quem mais sofre com a má alimentação são as crianças, desnutridas. A gente percebe pelo cabelo. Cabelo claro e ralinho é desnutrição. Ele fica fraco, fraco, fraco e começa a mudar de cor. Os dentinhos ficam fracos, elas têm diarréia. Falta até água. 

Guia-me: Como o senhor vê a questão da disputa da terra entre índios e fazendeiros?

Pedro Mariano (líder do GATI): A terra que o rio cruza os fazendeiros tomam posse e são capazes de cercar um rio. Em uma aldeia, eles cercaram o rio. Para o índio tomar banho, ele tem que varar a cerca. Aí dizem que ele está invadindo a propriedade. Os fazendeiros devagarinho vão espremendo o índio, vão tomando a terra e a terra do índio vai diminuindo. Esse conflito que está acontecendo em Roraima é coisa antiga, nunca deram importância. Os fazendeiros vão entrando, tomando posse e os índios vão se defendendo com arco e flecha, da maneira que podem.

Guia-me: Muitas pessoas vêem o índio como um indivíduo agressivo e rebelde. O senhor acha que essa imagem a respeito do índio é verdadeira?

Pedro Mariano (líder do GATI): Isso é um equívoco. Eu até gostaria de fazer um livro sobre o que é o índio que conhecemos no Mato Grosso do Sul, o índio do Amazonas [...] Eles tem o coração aberto para o evangelho. É um povo muito necessitado, muito esquecido pela Funai, pela sociedade, muito esquecido pela Funasa, que cuida da saúde deles. Eles são chefes de família, apaixonados pela esposa, pelos filhos, mas não há tem a condição básica de vida, uma moradia decente. Os sem-terra, por exemplo, vizinhos das aldeias, por serem agressivos e os políticos cederem, têm casa de alvenaria com água encanada. O índio, que está lá desde que nasceu, até hoje é miserável. O índio ,então, não é vagabundo, não é burro, o índio é muito inteligente, esforçado. Ele faz tudo que tem com recurso próprio. Caberia muito bem nas aldeias uma cooperativa indígena que emitisse CNPJ. Eles disseram uma vez para mim: 'Irmão Pedro, nós não podemos plantar e colher, porque não temos nota fiscal, não temos empresa. Não podemos emitir, não temos cooperativa'. E eu perguntei: 'Por quê?' Eles responderam: 'Porque nós somos barrados'. Então, se eles são tão discriminados na cidade, deixem que eles vivam lá, nós é que iríamos precisar deles com agricultura, acessórios indígenas. Mas isso não é interessante, né?

Guia-me: Como o GATI evangeliza a população indígena? Há alguma estratégia?

Pedro Mariano (líder do GATI): Você nunca pode dar a comida no primeiro dia, logo que você chega à aldeia. Não diga: 'Pessoal, vocês esperem que vai ter um culto'. Faça o que tem que fazer. Visite os lares. A equipe que vai tem aprendido muito, tem chorado muito, tem visto pessoas humildes que querem orar. E eles oram, o Espírito Santo desce e é um mover de Deus tremendo.

Guia-me: Então, a recepção do evangelho parece ser bem natural?

Pedro Mariano (líder do GATI): Quando você vai às aldeias com boas intenções, a fim de ajudá-los, eles sabem.Tem aldeias que visitamos que têm 70% de evangélicos. Existem igrejas católicas lá que mal abrem no domingo e quando abrem, às vezes não tem membro. As igrejas evangélicas são simples, mas Deus visita tremendamente. Acontecem curas, maravilhas e milagres lá. O povo é muito sofrido, não tem no que se apegar, a não ser em Cristo. Tem testemunhos lindos lá, de ressureição de mortos, de feiticeiros convertidos, de doentes sarados e curados. É uma coisa tremenda. Os cultos nas aldeias duram de cinco a seis horas e ninguém tem pressa.

Guia-me: Conta um pouco sobre esses testemunhos.

Pedro Mariano (líder do GATI): São muitos. Um deles é de um rapaz que perseguia o evangelho nas aldeias e a própria índia pregou para aquele cidadão. Ele voltou para a cidade, foi revisionar a Bíblia, começou a frequentar uma igreja evangélica para sondar como era o Evangelho. Voltou alguns anos depois lá na aldeia e disse para aquela senhora, já velhinha: 'A senhora lembra de mim?' Ela disse: 'Não'. 'Eu estive aqui com uma prancheta perguntando porque vocês estavam deixando os costumes milenares indígenas para se converter à religião dos brancos, que era o evangelho de Cristo'. Ela havia respondido: 'Se o índio deixar de tomar tanta cachaça, deixar de espancar esposa e filhos, nós não deixaremos a nossa milenar religião, mas o evangelho de Cristo transforma a vida. Transformou a minha, transformou a do meu marido e ele passou a não beber mais, passou a não ser mais espancador. Quando a religião indígena deixar de fazer todas essas coisas, nós não a deixaremos. No entanto, o evangelho de Cristo, a religião dos brancos como vocês falam, ela transforma, dá segurança e quando morremos vamos subir lá no céu com Ele'. E o rapaz contou a ela: 'Naquela época as tuas palavras me fizeram vasculhar o evangelho e hoje eu sou crente'.  Aí se abraçaram. Coisa linda! O povo indígena é especial.

Vários motoristas que dirigem os ônibus das viagens, também aceitam Jesus ali.

Eu digo, nunca faça uma má idéia do índio pelo que você ouviu falar, procure conhecer melhor. Quem é o índio? Por que ele vive desse jeito? Deus capacitou todos iguais. Se você ver os índios tocarem na banda da igreja da aldeia, que coisa linda! Ninguém ensina. É o Espírito Santo!

A próxima viagem do GATI está marcada para o Carnaval de 2009. Quem desejar mais sobre o grupo, participar da viagem ou contribuir com doações, pode acessar o site www.gati.org.br ou ligar para o telefone (11) 3442-5896. A conta bancária para doações em dinheiro é do banco Bradesco (237) ag 0312 cc 82874-2.

Foto: GATI - Grupo de Apoio às Tribos Indígenas

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