Infanticídio indígena: Pecado ou apenas fator cultural?

Infanticídio indígena: Pecado ou apenas fator cultural?

Atualizado: Segunda-feira, 28 Fevereiro de 2011 as 3:02

Centenas de crianças indígenas, rejeitadas por suas tribos, são enterradas vivas no Brasil todos os anos. Essa é uma prática antiga, encontrada ainda em mais de 20 povos indígenas diferentes. Muitas dessas crianças são recém-nascidas. Outras são mortas aos 3, 5, e até 11 anos de idade. Centenas delas são condenadas à morte por serem portadoras de deficiências físicas ou mentais, ou por serem gêmeas, ou filhas de mãe solteira. Muitas outras são envenenadas ou abandonadas na floresta porque os índios, por influência de tradições indígenas envolvendo bruxaria, acreditam que tais crianças trazem má sorte para a tribo.

Através do conhecimento dos direitos humanos (do índio em relação ao índio e do índio em relação ao não índio) percebemos positivas e fortes manifestações em defesa do próprio modo de pensar, viver e agir. Esta apresentação dos direitos humanos produz também uma luta pela defesa do respeito às escolhas do índio, o que faz com que este possa se manifestar livremente para dizer sim ou não a qualquer prática que julgue relevante avaliar, seja indígena ou não indígena. A tendência de algumas linhas antropológicas de engessar o índio à sua própria história não lhe dando a permissão de revisar sua vida e costumes (bem como fazer escolhas que julgue necessárias) como, por exemplo, fazer cessar o infanticídio, devem ser questionadas.

A situação trágica dessas crianças vem sendo revelada ao mundo inteiro, que grita: “O que o governo brasileiro está fazendo para acabar com a matança de inocentes crianças?”.

A agência governamental responsável pela supervisão do bem-estar dos índios é a FUNAI, que há décadas conhece bem esse problema, mas prefere permanecer confortavelmente na postura da omissão, com a desculpa de não interferir nos costumes indígenas.

Para sensibilizar a opinião mundial com relação à insensibilidade do governo brasileiro diante do sacrifício de sangue inocente nas tribos, a Jocum divulgou o vídeo “Hakani”, que mostra com imagens chocantes, duas crianças sendo enterradas vivas e, logo após estarem abaixo cobertas de terra, um garoto consegue salvar a menina mais nova, que dá nome ao vídeo. A produção foi condenado pelo ex-presidente da FUNAI, Mércio Pereira Gomes como "criminoso".

Tendo em mente este cenário podemos pensar no ponto de maior controvérsia quando se trata da atuação missionária, que é a exposição do evangelho ao índio. A controvérsia se enraíza nos pressupostos que a teologia e antropologia possuem em relação ao evangelho. Se por um lado a antropologia clássica o vê como um elemento de literatura religiosa especificamente cristã, e promotor de uma cultura cristã (no presente) ocidentalizada; por outro lado os cristãos vêem o evangelho como uma palavra inspirada por Deus e transmitida aos homens, a todos os homens, de forma  a-temporal, ou seja, com a capacidade de comunicar a verdade de Deus a todos os homens em todas as culturas e em todos os tempos. São, desta forma, verdades universais. A forma de transmiti-lo, de maneira inteligível e com padrões culturais de compreensão, chama-se contextualização.

Portanto, dentro do pressuposto cristão o evangelho não acultura o indígena mas vem lhe trazer a verdade universal em sua própria língua e cultura. Igrejas indígenas evangélicas autóctones como os Wai-Wai são um bom exemplo de como o indígena convertido e seguidor de Jesus continua sendo índio, com sua língua, sua cultura e sua compreensão da vida. A conversão interior, porém, provoca efeitos visíveis na interpretação desta vida e escolhas diárias e reside aí, creio eu, a raíz das maiores controvérsias quanto à evangelização indígena. Estas surgem quando o índio, convertido, passa a revisar a vida e evitar, por exemplo, a participação em ritos e atos normalmente admissíveis e vividos em seu povo até então. Seria o caso, por exemplo, de um indígena que descobre o adultério da esposa e, ao contrário da tradição histórica, resolve não matá-la, mas sim perdoá-la. Seria o outro que passa a amar seus inimigos (talvez patrões injustos, exploradores) ao invés de roubá-los e amaldiçoá-los. Seria ainda a mãe que resolve manter sua filhinha viva, ainda que enferma, em lugar de envenená-la como seria o esperado pelo grupo. Ou ainda o rapaz que não toma mais caxiri, o ancião que passa a ver na pajelança elementos ruins para sua vida, a criança que perde o medo do espírito que produz o trovão e assim por diante. Estas mudanças de vida, que geram alterações na própria cosmovisão, são causadoras de desconforto no mundo acadêmico não cristão.

Em outro vídeo, uma mulher indígena testemunha como conseguiu salvar uma garoto da morte, mesmo após ficar enterrado por horas. Confira o relato:

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