Missionária Raquel Nápoli: De volta do caminho das Índias

Missionária Raquel Nápoli: De volta do caminho das Índias

Atualizado: Quarta-feira, 27 Janeiro de 2010 as 12

Por Nany de Castro - http://www.guiame.com.br/

Com apenas 22 anos de idade, Raquel Nápoli já tem muita história para contar. Desde os 13 tem o chamado para missões ardendo no coração. Mas, foi somente quatro anos depois que experimentou levar o nome de Jesus aos indianos. Ainda adolescente, renunciou a convivência com seus familiares e amigos no Brasil, para viver imersa em uma outra cultura.

Em entrevista exclusiva ao Guia-me, a jovem missionária conta suas experiências, fala sobre seu chamado, o desafio de pregar em outra nação e suas primeiras impressões sobre a Igreja brasileira ao retornar ao País em 2008.

Guia-me: Quando foi que você se sentiu chamada para missões?

Raquel Nápoli : Alguns missionários foram a minha igreja quando eu tinha 13 anos de idade. A nossa igreja lá em Bragança Paulista não tinha nenhum envolvimento com missões e esse era nosso primeiro contato. Os missionários compartilharam sobre vários países e necessidades, e eu me senti muito desafiada. Apesar de jovem, naquele fim de semana tive a plena convicção que Deus havia me chamado para ser uma missionária. Orei muito este tempo e pedi que Deus confirmasse o chamado e falasse com meus pais. Deus confirmou meu chamado e falou com meus pais de uma forma tremenda, e com 14 anos ingressei no treinamento missionário da Missão Horizontes, em Monte Verde, Minas Gerais.  

Guia-me: Como foi ir tão jovem para a Índia?

Raquel Nápoli   : Foi muito interessante ir para Índia jovem. Cheguei ao país com 17 anos, depois de três anos de treinamento missionário. Precisei terminar meus estudos e na época faltava apenas o último ano do colegial. Por ser nova, tive a oportunidade de compartilhar de Jesus para pessoas da mesma idade e entender o que é ser um jovem na cultura indiana. Foi muito especial! Se não tivesse aquela idade, não estudaria, nem teria a experiência de uma imersão total na cultura como eu tive. Claro que tive algumas dificuldades, principalmente porque meus pais não estavam comigo, mas apesar de estarem longe, sempre me apoiaram e oraram por mim para que Deus direcionasse todas as coisas. Aprendi muita coisa, principalmente a depender de Deus nas mínimas coisas. Hoje, quando olho para trás e vejo que todo esse tempo passou, agradeço a Deus pelo privilégio de poder servi-lo na obra de missões tão jovem.   

Guia-me: Quais foram as principais coisas que marcaram sua estadia na Índia?

Raquel Nápoli : A Índia é um lugar marcante. O povo é muito amoroso e hospitaleiro, e é quase impossível não ser marcada com algo, mesmo que se passe pouco tempo lá. Nestes três anos muita coisa aconteceu. A escola me marcou muito porque a cultura escolar é muito diferente daqui do Brasil. Lá se estuda demais e eu tive que me adaptar para conseguir terminar os estudos lá. Os indianos são muito disciplinados e creio que adquiri um pouco disso! Fiz bons amigos, amigos que se tornaram irmãos para mim e mais que isso, famílias que me acolheram como filha. Esses relacionamentos me marcaram profundamente e sinto a Índia como uma casa pra mim.  A igreja também foi muito marcante. As pessoas não têm medo de servir a Jesus. Não importa o preço que tenham que pagar. Isso é desafiador para nós que vivemos em um país com tanta liberdade religiosa.   

Guia-me: Como é a Igreja indiana?

Raquel Nápole : A igreja indiana, pelo menos na região em que eu vivi, possui várias facetas. Algumas igrejas são grandes e bem tradicionais e vivem um evangelho um tanto quanto nominal. Outras igrejas são pequenas, a maioria delas nas casas, e vivem um evangelho verdadeiro, tentando lutar contra a tradição e o nominalismo existente na igreja indiana. Muitas igrejas têm o apoio de estrangeiros e se tornaram até “ocidentalizadas”, e outras são extremamente indianas: senta-se no chão, o louvor é mais tradicional etc. Há uma variedade muito grande, mas ainda assim apenas 30 milhões de pessoas são cristãs, em uma população de um bilhão e cem milhões de pessoas. O desafio é muito grande.

Guia-me: Como funciona a sociedade de castas na Índia? É possível encontrar isso até mesmo em meio aos cristãos?

Raquel Nápoli : A sociedade de castas é uma realidade na Índia. Antigamente existiam algumas castas, mas hoje existem tantas castas que é difícil saber quem é de qual. As pessoas das capitais, principalmente os jovens, não valorizam tanto a casta quanto no passado. A carreira hoje é mais valorizada do que a casta, mas ainda existe sim. A sociedade de castas funciona um pouco como as divisões sociais do Brasil, mas lá é uma questão de destino, isto é, você nasce em uma casta, você morre naquela casta. Na Índia, conheci um conto popular que diz que no passado a sociedade indiana era dividida por tarefas desempenhadas pelo povo. Cada qual tinha sua importância e seu lugar na sociedade. Os grandes sacerdotes dos templos consideravam-se seres superiores e por isso começaram a subjugar o povo, principalmente aqueles que faziam trabalhos “sujos”, como lixeiro etc, alegando que por trabalharem com essas coisas e não compreenderem os livros sagrados se tornavam impuros e, portanto intocáveis. A partir daí, surgiram as castas, chegando às castas dos intocáveis. Existem várias histórias, mas essa faz bastante sentido para mim. Entre os cristãos se vê essa divisão também, infelizmente. Para nós, é difícil entender porque não tem nada a ver com nossa cultura, mas na Índia, as castas já existem há centenas de anos e é parte da vida deles. Quando eles se convertem, entram em choque com a tradição cultural e percebem que precisam mudar. É um processo de transformação.   

Guia-me: O que você notou da Igreja brasileira, logo que voltou?

Raquel Nápoli : Me assustei um pouco com o número de igrejas evangélicas aqui no Brasil. Parecia ter uma igreja nova em cada esquina! Mas creio que o que mais me impressionou foi a dificuldade que nós temos de servir a Jesus aqui no Brasil. Na Índia, as pessoas não se importam com o lugar, com o som, com o tipo de sermão ou com o tipo de pessoa. Elas querem servir a Jesus e ter Jesus é o maior presente.  Não precisam de carros novos ou uma casa, saúde de ferro, ou qualquer coisa assim, para servir a Jesus. Jesus e sua palavra são o suficiente e eles têm um coração muito grato. Precisamos aprender mais com nossos irmãos indianos.

Guia-me: E o homossexualismo, como é visto pela sociedade Indiana?

Raquel Nápoli : O homossexualismo não é bem aceito na sociedade indiana, a não ser que você tenha sido criado para isso (existe uma casta assim). Porém, acontece bastante.

Guia-me: A cultura Indiana mostrada pela novela "Caminho das Índias", exibida pela Rede Globo de Televisão, foi algo próximo ao real?

Raquel Nápoli : Muita coisa foi parecida. Até híndi eles falavam! Mas muita coisa foi fantasiosa. As indianas não estão arrumadas 24 horas por dia, só para festas que andam daquele jeito, e algumas partes foram extremamente exageradas. Claro que muitas coisas foram parecidas, mas não se pode tirar uma novela como base.

Guia-me: Existe perseguição religiosa aos cristãos indianos?  

Raquel Nápoli : Existe sim. No ano de 2008 houve uma perseguição muito forte por parte dos hindus na região de Orissa, um estado do sul da Índia, que depois se espalhou por todo país. A perseguição diminuiu depois de um tempo, mas a Índia não é um país com liberdade religiosa e por isso, a perseguição ocorre.  

veja também