Missionários declaram a Cristolândia na terra do crack

Missionários declaram a Cristolândia na terra do crack

Atualizado: Quarta-feira, 16 Dezembro de 2009 as 12

Por Felipe Pinheiro - www.guiame.com.br

Manhã de chuva no centro de São Paulo. R., 13 anos, corre eufórico em direção aos irmãos de rua e pula sobre um deles ansioso para presenteá-lo com um par de tênis. Os demais garotos acordam na medida em que notam a presença de tio Virgílio e do iniciante tio Nelson, os missionários imbuídos de levar uma "nova luz" - nome dado pela Prefeitura ao plano de revitalização nas região central da cidade - a Cracolândia, considerada pelo jornalista Dimenstein como o melhor símbolo da degradação paulistana.

Amparados por um viaduto, estimado teto entre moradores de rua, o grupo de adolescentes retorna a realidade pós-entorpecentes com o louvor "Faz um Milagre em Mim", a primeira canção a ser entoada pelo coral infanto-juvenil. Cumprimentados pelos missionários do ministério Jesus Ama o Menor (Jeame), os novatos da Cracolândia são convidados a participar do Papo de Responsa - projeto de auxílio aos moradores em situação de risco social - pouco antes da chegada temida do rapa.

"Primeiro fazemos amizade com eles numa forma pedagógica, criativa, usando as gírias deles. Depois eu vendo o meu peixe: falo do projeto e que sou cristão", afirma Virgílio Vieira que há 18 anos atua junto a uma equipe de missionários pelo Papo de Responsa.

Mantido por doações de igrejas, o projeto que acontece duas vezes por semana compreende aulas bíblicas, momentos de louvor, aconselhamentos e sessões de filmes, além do serviço de almoço e banho. "As vezes achamos que o mais importante é a alimentação e o banho, mas eles mostram que o mais importante é o respeito, o amor não só dito, mas com atitude. Isso faz com que eles voltem e tragam outros", relata Oswaldo da Silva Júnior, coordenador dos evangelistas de rua.

Há 15 anos frequentador do Papo de Responsa, D., ex usuário de crack, disse, emocionado, o motivo que o faz voltar todas semanas ao projeto, mesmo com o estabelecimento de normas entre os participantes. "Você apanha na ruas e aqui você é tratado bem", disse o jovem considerado pela missionária Ana Paula Costa como o "menino mais doce do ministério apesar do tamanho".

Conscientes da intenção do Papo de Responsa, os voluntários compartilham a esperança de que a longo prazo o projeto não mais exista, como um reflexo que exceda a revitalização urbanística da Cracolândia para a transformação pessoal. "Trabalhamos com aquela parte da sociedade que é a mais desprezível, mas sabemos que o Jeame está no centro da vontade de Deus. Aqui não vai ser a terra do crack, e sim a terra de Cristo, a Cristolândia", expõe Marli Marcandali, a presidente do Jeame.

Entre os próximos planos estão previstas parcerias com órgãos públicos e a instalação de um centro de reabilitação para menores num sítio em Juquitiba (SP), cujos beneficiados da Cracolândia passariam antes por uma triagem na casa que abriga o Papo de Responsa.  

Da Cracolândia para a Cristolândia

Entre o trabalho no Papo de Responsa e principalmente na Fundação Casa (ex-Febem), a missionária Ana Paula avalia como insuficiente a cobertura da mídia em relação a Cracolândia e as unidades de detenção para os infratores com idade inferior a 18 anos. "Estava tendo uma rebelião no Tatuapé quando o helicóptero passou para filmar. Os meninos levantaram as bíblias como um sinal de que não estavam fazendo rebelião. Para a nossa surpresa, isso passou rapidamente na TV, mas sem ênfase", relembra Ana Paula que há 13 anos deixou a gerência de uma loja para se dedicar às missões.

"Falta mostrar iniciativas boas. Ninguém faz reportagens na febem, por exemplo, de iniciativas interessantes como grupos de igrejas ou mesmo outras organizações.  Não vemos esse lado. Por isso somos cristãos, porque pregamos as boas novas. As más notícias os jornais cuidam", analisa Marcandali.

Sem acusar o governo pela degradação da Cracolândia, o missionário Virgílio entende a responsabilidade da Igreja como determinante na transformação da região. "Eu acho que hoje parte da Igreja está preocupada em fazer um templo majestoso, mas as vidas estão morrendo. Esse papel é da Igreja, cuidar da partre social. E a Bíblia fala que a Igreja é de dentro para fora. É hora de nos unirmos para falar de Jesus em qualquer lugar", aponta.

" Sem Jesus não há solução. Você pode ter a maior casa de recuperação, se não tiver doutrina bíblica, não vai adiantar", afirma Ana Paula que ressalta a importância de adequação dos missionários a realidade de cada local. "A rua tem a sua cultura e seu linguajar, eu não posso querer impor a religiosidade", explica.

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