Nilton dedica sua vida aos que não possuem palavras para se expressar

Nilton dedica sua vida aos que não possuem palavras para se expressar

Atualizado: Segunda-feira, 29 Março de 2010 as 12

Em um mundo de silêncio, eis que surge um rapaz para ser o porta-voz de pessoas surdas. Nilton Câmara, o jovem intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), dedica-se à comunidade surda há 12 anos. Foi amor à primeira vista pelos gestos da linguagem. Em um encontro de adolescentes, em Fortaleza, ele viu um grupo que se comunicava de forma diferente daquilo que já tinha visto. Isso despertou nele a curiosidade e sua vocação: ser professor de alunos surdos. Nilton, aos 28 anos, realiza trabalhos sociais com essas pessoas e com todos aqueles que precisam de auxílio para serem inseridos na sociedade. O rapaz trabalha como intérprete para televisão, palestras e é orientador de cursos. Não lhe falta exemplos de sucesso e reconhecimento.

Quem é Nilton Câmara?

Um rapaz que ama viver intensamente, procuro dar o meu melhor em tudo que faço. Sempre estive envolvido em causas sociais, porque acredito que isso seja minha missão. Sou muito organizado, gosto de tudo tabelado e isso me ajuda a traçar metas e cumpri-las. Hoje, tenho sonhos simples como o lançamento do segundo DVD (com músicas e documentários interpretados por mim) e o reconhecimento do meu trabalho. Essa entrevista para mim já é um sonho realizado, pois não mostrará só quem é o Nilton pessoa, mas a causa que defendo e o trabalho feito nos bastidores.

Falando em ação social, qual foi a que mais emocionou você?

Foram dois casos que ocorreram. O primeiro aconteceu em 2007. Vinícius, na época com 8 anos, tem deficiência física e se queimou com uma panela quente que caiu nas suas pernas no recreio da escola. A casa dele não tinha acessibilidade alguma e ele precisava se arrastar pelo chão, prejudicando ainda mais os machucados. Então, comecei a fazer uma campanha pela Internet para ajudá-lo. Consegui arrecadar roupas, fraldas e, o melhor, uma pessoa custeou a reforma do banheiro da casa, adaptando-o às suas necessidades. O outro aconteceu em 2005. Um rapaz surdo, de 24 anos, que não se comunicava porque não sabia Libras, sofrendo de depressão, tentava se enforcar no próprio quarto. A vizinha me chamou para poder ajudá-lo. Fiz gestos para que ele me compreendesse e consegui que desistisse da péssima ideia. Foi um desafio. Pesquisei sobre sua vida e vi que tinha uma família destruída, mãe alcoólica, irmão drogado, enfim, uma difícil situação. Assim, encaminhei-o à escola para aprender a linguagem dos surdos e hoje ele é alfabetizado e trabalha.

Como foi o primeiro contato com a comunidade surda?

Em 1998, estava participando de um culto, quando avistei um grupo de jovens que se comunicava com as mãos. Percebi neles uma sensibilidade que me tocou. Os surdos têm uma certa resistência em aceitar pessoas que não sejam surdas ou do convívio deles, mas procurei demonstrar que começaria um trabalho sério para promover essas pessoas.

Você se profissionalizou na área de intérprete por causa desse momento?

Sempre tive a vocação de lidar com pessoas, por isso havia escolhido como profissão jornalismo. Minha vontade era ser apresentador do Jornal Nacional. Mas, afinal, fiz faculdade de Letras, que me deixou muito satisfeito. Como desde a faculdade já lidava com surdos, foi unir o meu conhecimento de Libras com a vontade de ensinar. Atualmente, estou cursando o mestrado em Linguística Aplicada na Universidade Estadual do Ceará. Sou aprovado em Proficiência em Tradução e Interpretação de LIBRAS. E meu primeiro estágio foi no Instituto de Surdos de Fortaleza. Acho que se eu tivesse seguido qualquer área de comunicação, não seria tão feliz.

No mestrado, qual é sua dissertação?

Conceitos de violência da comunidade surda de Fortaleza. Percebo que tem aumentado o número de jovens surdos que sofrem violência, seja ela verbal ou física. Chamar de "mudinho" é uma forma de agressão. E, infelizmente, há uma estatística de mulheres com deficiência auditiva que sofrem estupros, pois os agressores acreditam que a vítima ficará em silêncio ou não conseguirá explicar o que aconteceu.

Quais foram as dificuldades no início do relacionamento com pessoas com deficiência auditiva ?

No início foi bastante complicado, porque a comunidade surda aceita aqueles que são defensores da causa. E duvidam das intenções dos ouvintes, por exemplo, os surdos achavam que eu queria roubar o papel deles com as minhas propostas. Quando você está iniciando em Libras, realmente é difícil de se aproximar em razão dessas barreiras impostas por ela. A minha família acreditava que era um hobby ser intérprete e me tornar professor seria problemático, já que os docentes no Brasil ganham pouco. Para eles, o meu trabalho era voluntariado e não traria retorno financeiro. Logo, eram contra. Mas graças a Deus, o meu trabalho me garante uma vida financeira estável e minhas atitudes, como participar de todos os encontros, estar presente nas famílias, conquistou a confiança das pessoas surdas.

Quais são os trabalhos que está realizando?

Eu sou contratado para interpretar libras em palestras de diversos lugares, como faculdade, eventos do governo. No âmbito de voluntariado, faço cadastro de pessoas com deficiência auditiva do meu bairro, para formar banco de dados particular, que utilizo como um meio para indicá-los em cursos, empregos e outras oportunidades. Em minhas palestras, ministradas em oficinas culturais para os surdos, eu ensino português e procuro dar orientação. Mas tenho trabalhado também com outras deficiências. Procuro fazer uma integração entre pessoas surdas com cegas e cadeirantes, pois acredito que precisamos valorizar a diversidade. Aprendi braile e ensinei a um amigo cego libras. E dou aulas para o Grupo de Dança Surdos Videira.

Explique como é o Grupo de Dança.

O grupo possui cinco integrantes, que ensaiam coreografias e as apresentam em festas particulares ou do governo da cidade. A ideia de formar o grupo surgiu com o intuito de mostrar que a inclusão social é possível através da musicalidade. Antes de qualquer atividade corporal, preparo os alunos para conhecer a letra da música que será dançada, para que compreendam seu significado e aprendam mais a língua portuguesa. O próximo passo é sentir as vibrações do som e daí aplicar o texto a libras, que é quando os participantes "cantam". Isso resulta em musicalidade do corpo. A sala de ensaio é adaptada com espelhos, o aparelho de som com potência para deixar a música em volume altíssimo e o chão de assoalho de madeira, para facilitar o aluno a sentir as vibrações. Eles acabam percebendo os ritmos pela expressão facial e corporal. E são os próprios componentes que criam as coreografias.

Momentos de emoção.

Dois momentos: primeiro, foi a tradução em Libras do Hino Nacional Brasileiro feita por mim juntamente com o saxofonista Bruno Gomes, que é cadeirante, num programa de televisão local; e o segundo, os momentos de superação com os surdos que antes eram marginalizados e que, com a minha ajuda, hoje estão empregados, estudando e construíram famílias.

Momentos de decepções.

Infelizmente, somos bombardeados com críticas, quando algumas pessoas diziam que eu buscava meus minutos de fama, que usava desse trabalho social para me promover. Mas nunca me preocupei com isso, pois o que importa é continuar meu trabalho.

Seus planos futuros.

Planos, nós temos muitos, mas o principal é a produção do meu segundo DVD que trará muita novidade. Será temático, com dez canções em formato de clipes em HD, todos traduzidos em língua de sinais, com participações especiais de cadeirantes. Haverá também alguns making of da minha vida familiar. Terá alguns documentários, dicas de musicalidade, enfim, será um marco na minha carreira.

Postado por: Felipe Pinheiro

veja também