O Nascimento de um Tukano chamado Josias

O Nascimento de um Tukano chamado Josias

Atualizado: Quarta-feira, 30 Janeiro de 2008 as 12

O Nascimento de um Tukano chamado Josias

Paulo César Nascimento

Na madrugada do dia 11 de novembro nasceu o filho do Edmílson (Tukano) e Avaneide (Baniwa), ambos convertidos ao Senhor. Durante o período de gestação eles haviam feito um acordo: se fosse uma menina, ela escolheria o nome: se, porém, fosse um menino, ele escolheria. Sendo assim coube ao Edmílson escolher o nome do seu filho.

Ao saírem do hospital, ficaram hospedados na casa de apoio da JAMI aqui em São Gabriel. Como é natural após o nascimento de uma criança, de pronto perguntamos acerca do nome do bebê. Como ele ainda não havia escolhido começamos a sugerir uma série de nomes: Edivanilson, Edinei, Mateus, Timóteo, Micayani, Ismael, entre outros. As duas primeiras sugestões foram dadas para homenagear o pai, as outras foram dadas pensando na sonoridade, ou seja, pensando no nome que soava mais bonito aos ouvidos.

O Edmílson gostou desses nomes, com exceção de Micayani. Apesar de ter sido o nome de um grande líder guerreiro do povo Waodani, soa em Português como um nome feminino. Mesmo gostando de alguns, adiou a escolha do nome de seu filho.

No dia seguinte perguntamos:

- E aí Edi? Escolheu o nome do seu filho?

- Sim. Já escolhi.

- Que nome você escolheu?

-  Josias.

Ele não havia escolhido nenhum dos nomes sugeridos, mesmo tendo gostado de alguns. Achei bonito o nome que ele havia escolhido e, de imediato, pensei que a sua escolha estava baseada, além de na sonoridade, também na exclusividade. Pois na sua comunidade (aldeia) não tinha ninguém com esse nome. Mesmo assim perguntei-lhe porque havia escolhido esse nome. Para minha surpresa e alegria, a sua escolha não estava relacionada à sonoridade nem muito menos à exclusividade, mas ao que Deus fez na sua vida e ao que ele deseja que Deus faça na vida do seu filho e do seu povo.

Refletindo sobre o nome que daria ao seu filho, lembrou-se do rei Josias (II Reis 22:1-23.30) e da reforma que ele havia feito no meio do seu povo. Após ter tomado conhecimento do que estava escrito no livro da lei o qual havia sido encontrado pelo Sumo Sacerdote Hilquias, Josias se arrependeu, temeu ao Senhor e desencadeou uma série de mudanças na vida religiosa do seu povo. Consultou ao Senhor, purificou o templo, destruiu os altares idólatras, acabou com os cultos a deuses pagãos, fez aliança com o Senhor e começou uma nova vida religiosa em Israel celebrando a páscoa.

Pensando em tudo isso que o rei Josias fizera, Edmílson resolveu chamar o seu filho de Josias.

Desde que conheceu a Palavra de Deus ele rompeu com vários aspectos da sua cultura que o tornava escravo do medo. Ele nascera e crescera num ambiente onde o medo, baseado em crenças infundadas, dominava a sua vida. Após a sua conversão ao Senhor Jesus, entendeu que Deus é o dono da vida, o Senhor de toda a criação e está acima de todo e qualquer poder que possa existir neste mundo. Sendo assim, não há porque continuar debaixo do domínio dos medos e crenças que o atormentaram durante toda a sua vida.

Durante o período de gestação de sua esposa ele teve que enfrentar e confrontar muitas dessas crenças. Seus pais insistiam com ele para que deixasse que sua esposa fosse acompanhada com cerimônias específicas para gestantes, para o bem dela e da criança que nasceria. Mas, por causa da sua fé em Deus e da sua convicção de que Ele é o Senhor da vida, resistiu até o fim.

Deus honrou a sua fé. Sua esposa teve uma gestação tranqüila, teve parto normal e a criança nasceu saudável. Após o nascimento, de acordo com sua cultura, a sua esposa e o seu filho precisariam de benzimentos especiais antes do primeiro banho e antes de ingerir determinadas comidas. Por acreditar no poder e na proteção do Senhor, não permitiu que nada disso fosse feito.

Agora, o seu profundo desejo é que os seus parentes possam olhar para o seu filho e entender que eles não precisam viver presos ao medo com base em crenças sem fundamento.

O Edmílson escolheu o nome Josias para o seu filho porque ele acredita que, a partir dele, esses aspectos negativos de sua cultura irão acabar assim como o rei Josias acabou com os cultos idólatras e as crenças em outros deuses no meio do seu povo.

Oremos para que o Senhor continue honrando a fé do seu servo e atendendo o desejo do seu coração com relação ao seu filho e ao seu povo.

Paulo César Nascimento é pastor e missionário. Serve entre os índios Tukanos, em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, pela JAMI.

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