O papel social da ABADS na vida dos deficientes intelectuais

O papel social da ABADS na vida dos deficientes intelectuais

Atualizado: Segunda-feira, 9 Maio de 2011 as 10:30

No colorido parquinho da escola onde estuda, uma adolescente de 13 anos nos recepciona com um abraço apertado, e tão forte quanto carinhoso. Os flashes das fotografias, em princípio, assustam a linda loirinha de olhos verdes, que passou a sorrir incontida quando viu sua imagem estampada na máquina. Paloma Araújo  tem sequelas de meningite e autismo, o que a faz ter um contato visual difícil, principalmente quando alguma coisa mais interessante lhe chama atenção. Além disso, possui certa incapacidade de se comunicar por gestos ou palavras.

Desde os primeiros sete dias de vida, a menina, que teve o pai ausente desde que nasceu, foi internada após uma forte febre que se recusava passar. "Ela nasceu bem, estava tudo na perfeita harmonia, mas com sete dias teve uma febre muito forte que não baixava. Minha filha nasceu com mais de três quilos e em um dia ficou somente pele e osso”" lamenta a mãe. Um dia depois da primeira internação, Paloma teve quatro paradas cardíacas, o que fez Teresa Araújo pensar na morte da criança.

O tempo foi passando e Paloma não melhorava. Também não andava, não falava, não subia escada nem descia rampa, usava fralda e sequer conseguia sentar. Fora matriculada em uma escolinha, mas, como não havia estrutura para lidar com crianças como ela, entrava às 7h da manhã e já saía às 9h todos os dias. Para ver como a filha era tratada, Teresa se espremia no muro, escondida, e via os sorrisos maldosos dos outros alunos e até da professora com relação à filha. Um dia, então, Paloma fora convidada a se retirar da escola. Perceberam que a menina era especial demais para poder estudar lá.

Rejeitando a doença Do outro lado do portão, Daniel Dutra (foto abaixo, ao lado da mãe) chega desconfiado. De bermuda e jaqueta, o garoto de 15 anos, alto e forte, abraça a mãe, Luzia Dutra. Até o ano passado, Daniel frequentava escolas normais, porque Luzia acreditava na normalidade do filho. Mesmo Daniel apresentando problemas de comportamento nas escolas por onde passou, a mãe não conseguia ver a deficiência do menino. "Não acreditava que ele tinha algum problema. Achava que era falta de atenção; achava até que tinha hiperatividade, mas jamais rebaixamento intelectual. Imagina! Ele é inteligente, marca todos os caminhos por onde passa, guarda a fisionomia das pessoas. Eu não acreditava mesmo".

Daniel é calmo e não se incomoda com as fotos. Fala pouco e demonstra ânimo com os chamegos da mãe. Luzia fala bem, mas, a todo o momento, suas palavras são interrompidas pelas lágrimas. Principalmente quando lembra o que teve de passar com os problemas do filho. Por não conseguir descobrir e até aceitar a deficiência dele, Luzia passou a sofrer de depressão e pensou em se matar várias vezes.

O sofrimento dela começou quando o isolamento opcional, e ao mesmo tempo forçado, foi a solução ilusória que encontrou para resolver tudo sozinha. "As outras mães começavam a cochichar, os alunos também, e diziam ‘á vem o louquinho, o retardado...'" indigna-se. Devido a isso, ela se negou a falar de suas angústias com o marido ou com qualquer outra pessoa. Os familiares também se afastaram. Em festas de aniversário de parentes, por exemplo, Luzia só fica sabendo depois que a data já passou. Acredita que a vergonha dos familiares em relação à doença de Daniel é o motivo que os separa.

O "filho do coração" de Luzia, desde pequeno apresentou falta de atenção, inquietude e tirava a atenção de outros alunos e professores das escolas por onde passava. Luzia nunca quis acreditar que o filho sofria de algum tipo de deficiência. Quando o adotou, o menino não apresentava nada aparente.  "A ficha só começou a cair quando ele estava na 1ª série. As reclamações tiveram início no colégio. Com sete anos começaram os problemas".

Surge uma esperança A saga de Paloma  e Daniel para conseguir um lugar onde pudessem ser acolhidos e ajudados acabou quando conseguiram uma vaga na Associação Brasileira de Assistência e Desenvolvimento Social (ABADS), antiga Pestalozzi. "Você não imagina a caminhada que a gente dá. Eu caminho todo dia contra um mundo tão grande... a gente pensa que não vai ter mais jeito", desabafa Teresa, que descobriu que esperança existe através de uma voluntária da Instituição.

A partir desse dia, toda terça-feira Teresa aguardava firme na fila, formada à porta da até então Pestalozzi, em busca de uma vaga para a filha. Mas numa manhã, porém, Teresa fincou além dos pés, a certeza de que conseguiria ser chamada. E isso fez toda a diferença. As lágrimas só não foram maiores que a felicidade. Isso porque, antigamente, a triagem era feita por meio de senhas, sendo que os familiares até dormiam na fila para conseguir uma. Hoje, no entanto, as melhoras no atendimento são visíveis. A humanização começa a partir de um simples telefonema que a família faz para marcar uma avaliação, e duas vezes na semana ocorrem as triagens.

"Fui atendida tão bem. É como você chegar numa igreja, se ajoelhar e pedir a Deus" compara Teresa, vencida pela emoção. Na Instituição há apenas três anos, Paloma já dá evidentes mostras de suas melhoras. "Ela já se desenvolveu muito aqui dentro. Anda sem nenhuma dificuldade, senta direito, está calma (porque antes era muito agitada), consegue segurar as coisas e está mais atenta", orgulha-se toda.

Já Luzia só viu que não tinha mais como negar a doença do filho, depois de uma diretora da escola onde Daniel estudava dizer que lá não era lugar de criança doente e louca estudar. Luzia ficou sem chão. Era mais uma escola que rejeitara seu filho. E ainda ouviu da diretora que lugar para criança louca era na 'Pestalozzi' mas ela não sabia do que se tratava.  Até que, ouvindo uma entrevista pelo rádio, da presidente da Instituição, resolveu procurar ajuda na 'escola dos loucos'. "Estava lá na lama, no meio do poço, me afogando, quando a ABADS me chamou. Agora, o Daniel está no céu", emociona-se.

Aprendendo a enfrentar Por meio de apoio emocional e psicológico, a ABADS abrange o trabalho que faz com crianças e adolescentes até os seus familiares. Isso porque a família também é vítima do mundo particular e invisível dos deficientes intelectuais. Mas, com o papel da Instituição, os grandes muros de obstáculos antes intransponíveis passam a ser valetas miúdas, ultrapassadas dia a dia. Para Teresa e Luzia, a caminhada é lenta, mas sabem que não tem como ser diferente. São conscientes de que no universo de Paloma e Daniel e dos demais 700 alunos, paciência é a lição que todos os pais aprendem.

Teresa também passou a compreender mais depois que a ABADS começou a tratá-la emocional e psicologicamente. E o tratamento a fez perceber que quanto mais ansiedade, menos um passo no desenvolvimento da filha. "Aprendi que não é assim, é com o tempo. Aprendi a ter paciência, a melhorar a ansiedade, e que a melhora na vida da minha filha é gradativa. Antes eu queria tudo pra hoje, pra agora, porque quando você tem um caso desses na família, você muda completamente. Muda seu jeito de agir, seu modo de pensar", avalia.

Já Luzia acredita que se não fosse a ABADS já teria "partido desse mundo".  "depressão era muito grande. É muito difícil. Aos poucos estou mudando. Não dividia nada com ninguém, e isso é muito ruim porque me sentia como uma panela de pressão". Neste sentido, é que entra a função diferenciada da ABADS. Para Grace Pereira , presidente da Instituição, a ABADS trabalha não somente os alunos, mas a família em si, dando apoio psicológico e emocional às mães.

O papel da ABADS O diagnóstico sobre o que de fato Daniel possuía só foi dado na ABADS: rebaixamento intelectual, hiperatividade e déficit de atenção. Luzia diz que mesmo sendo hiperativo, o menino era fechado. Não falava o que sentia, se estava triste, chateado, ou quando era agredido nas escolas.  "Mas hoje ele se comunica bem, se expressa, fala muito agora, até demais", sorri.

A antiga Pestalozzi, durante 55 anos, sempre atendeu ao deficiente intelectual, mas hoje, como ABADS, atende os autistas e está com sucesso absoluto na inclusão social, com mais de 120 jovens, deficientes intelectuais, inseridos no mercado de trabalho. "A filosofia pestaloziana é de integração, ou seja, é  aquela que  acolhe, ampara, mas que é diferente da inclusão social, que dá à pessoa com deficiência o direito de usufruir dos benefícios da cidadania. Por isso, toda a diretoria da Instituição chegou à conclusão de que o novo nome ‘ABADS’ abre as possibilidades de atendimento, podendo incluir os autistas, fazendo com que, de uma forma abrangente, apóie a causa da integração social", afirma a presidente.

E esse sucesso da ABADS se dá não apenas pelo número de voluntários, que apesar de pequeno, contribui para o apoio às crianças, mas também aos 134 funcionários registrados da Associação. Teresa e Luzia, por exemplo, como forma de gratidão pelo que a instituição faz por elas e os filhos, decidiram ajudar voluntariamente, trabalhando na cozinha.

Para Grace, apesar do apoio imprescindível dos voluntários, nem sempre eles podem se doar mais, devido ao tempo. Porém, qualquer pessoa pode colaborar ajudando financeiramente. "Às vezes a pessoa não pode ajudar doando seu tempo, não pode dedicar o dia inteiro aqui, mas seja com o que for que ela possa contribuir de certa forma, está tendo uma atitude voluntária e solidária em prol da nossa causa, nos dando condições de ter uma equipe de funcionários que possam fazer aquilo que ela até poderia, mas que não pode fazer porque não disponibiliza de tempo".

O que une Teresa, Luzia, Paloma e Daniel é a fé de que um dia, talvez perto, talvez longe, os filhos possam ser curados completamente. E, assim, possam ser independentes para uma vida diferente do mundo particular em que vivem. Elas, assim como as outras mães, mantém a esperança e acreditam que um dia os filhos possam saber sair pela porta da frente da deficiência e passar a viver e a enfrentar este mundo tão grande e tão diferente deles e das demais crianças auxiliadas pela ABADS.  

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