Pastores da Igreja Batista da Lagoinha relatam sua chegada ao Haiti

Pastores da Igreja Batista da Lagoinha relatam sua chegada ao Haiti

Atualizado: Terça-feira, 9 Fevereiro de 2010 as 12

De malas prontas e muito amor na bagagem, os pastores da Igreja Batista Lagoinha, Leonardo Capochim e Gustavo Poubel desembarcam no país devastado e assolado pela dor do luto, da fome e da sede, e de lá testemunham do trabalho missionário em prol da população.

Com a gloriosa, mas desafiadora missão de oferecer apoio espiritual e logístico à Igreja de Cristo haitiana, após o trágico terremoto que devastou o Haiti, partiram com uma equipe interdenominacional rumo ao país, no dia 1° de fevereiro desse ano, os pastores da Lagoinha, Leonardo Capochim e Gustavo Poubel. De lá, eles narram como se sentem e o que têm visto. A previsão de retorno de ambos ao Brasil é para o próximo dia 12 desse mês (fevereiro). Para que se mantenham as orações em prol dos nossos pastores e também pelos pastores da Igreja de Cristo haitiana e a favor da própria população, o Atos Hoje / Lagoinha.com publica informações acerca dessa experiência missionária.

''Os haitianos precisam de muita oração''.

A chegada dos pastores com a equipe ao país e as primeiras impressões

Segunda-feira - 1/2/2010

Encontramos no aeroporto de Confins, Minas Gerais, às 2h (de segunda-feira, 01/2). Graças a Deus, nenhum problema no check-in. Conseguimos embarcar com todas as malas e doações. O voo saiu às 05h30. Fizemos uma conexão no Panamá, onde nos encontramos com o último integrante da equipe, o pastor Nilton, de São Paulo. Chegamos em Santo Domingo, capital da República Dominicana, fronteira com o Haiti, e fomos recepcionados pelo irmão Elbin, que é pastor já há alguns anos na República Dominicana.

Tivemos um ótimo tempo com ele e sua família. Sua igreja desenvolve um excelente trabalho na comunidade em que está inserida, que por sinal é muito carente. Visitamos a igreja. Eles trabalham com moradores de rua, marginais, viciados. Têm também um trabalho com crianças e um projeto para fornecer água pura para a comunidade. Ele instalou em sua igreja um sistema de tratamento de água e por meio deste, conseguiu baixar o custo da água em $1,00 (um dólar), o que para eles é uma enorme economia. Ele também tem enviado água para alguns campos haitianos. Logo após, fomos às compras dos produtos destinados à doação. Lotamos um ônibus de compras, que ficou no valor $2.000,00 (dois mil dólares), o que é muito barato .

Terça-feira - 2/2/2010

Saímos da República Dominicana às 9h30 em direção ao Haiti. A viagem, graças a Deus, foi muito tranquila. Não tivemos nenhum problema na fronteira, em que a cena parecia a de um filme, com muitas pessoas, repórteres, soldados, uma confusão. Antes da fronteira, tivemos que tomar algumas vacinas para prevenção. A adrenalina a mil por hora, com certeza, na expectativa de chegarmos logo no país, pois não tínhamos nenhuma ideia do que encontraríamos lá.

Ao cruzar a fronteira, tivemos, ao mesmo tempo, uma visão linda e terrível. Uma linda lagoa de um lado, com lindas montanhas por detrás, mas o caminho percorrido é de uma estrada horrível de terra tão clara como se fosse cal, que configurava um cenário de muita destruição. A cidade está uma confusão: caminhões por todo o lado, jipes do Exército, pessoas andando de um lado para o outro. Depois de um tempo dentro do país, já começamos a ver os estragos do terremoto. É realmente um país muito pobre e agora, destruído.

Chegando à casa do irmão Vijonet, já dava pra ouvir o som de vozes e palmas. Por mais incrível que pareça, eles estavam reunidos em um culto, cantando, exaltando a Deus, com muita alegria. Quase que não consegui conter as lágrimas. Eu posso dizer que literalmente vi o que é regozijo diante da adversidade.

Ficamos no culto com esses irmãos. Após o culto, tivemos uma pequena reunião com os líderes e pastores da igreja, e assim fomos dormir. A casa em que estamos está de pé, porém, não podemos dormir dentro dela ou permanecer lá, mesmo durante o dia por muito tempo, por causa dos riscos de novo terremoto. Então, dormimos do lado de fora da casa, com alguns irmãos que aqui estão refugiados. Ah! um pouco antes de dormirmos, fomos surpreendidos, eles nos prepararam comida. Que povo receptivo!

Quarta-feira - 3/2/2010

Às 5h, levantamos. Esse é o horário em que eles acordam. E a primeira coisa que fazem é cantar e orar por no mínimo uma hora. Mais uma vez, músicas de gratidão e exaltação a Deus.

Logo após a oração, fomos direto visitar as casas dos irmãos da igreja. Eles sobreviveram, pois o filho conseguiu se salvar e salvar a outros. Não dá para contar todas as histórias que ouvimos, pois preciso ser bem breve devido à dificuldade de acesso a internet. Passamos por vários acampamentos. Há um peso espiritual tão grande na cidade, e ao mesmo tempo, chegamos a alguns lugares onde a presença de Deus era tão forte, pois os irmãos estavam reunidos ali.

Logo após o café, voltamos às ruas para visitar os campos, lugares onde se concentram as tendas feitas de saco plástico, lona, lençol, abrigos daqueles que perderam suas casas. As pessoas estão tentando sobreviver com o que têm. “Temos aqui na igreja universitários, trabalhadores que hoje não podem fazer mais nada, nem trabalhar e/ou estudar, pois tudo está destruído. O nível de abuso infantil tem aumentado assustadoramente, pois nos campos dormem todos juntos, tomam banho juntos. Passamos por um campo onde havia um grupo de cerca de 15 pessoas tomando banho juntas, no meio da rua, homens, mulheres, adolescentes, crianças, praticamente nus. A cada passo que damos, ficamos mais perplexos com a situação. Algo interessante: andamos de TapTap, o ônibus deles. Não há como descrever.

À noite, tivemos o culto. Na verdade, o culto começa às 17h e vai até as 20h. Interessante que durante o culto, o pastor gastou um bom tempo orientando a igreja sobre prevenção de várias doenças, sobre a importância do estudo do inglês e outras coisas práticas. Ele investe muito no evangelho integral.

Quinta-feira - 4/2/2010

Mais uma vez, acordamos às cinco da manhã para louvar, adorar e orar. Fizemos ótimas visitas após a oração. Não me contive em um dos pequenos campos que fomos hoje. Após orar e abraçar todos os adultos, fui correndo até as crianças e dei um grande ‘abraço de urso’, aquele abraço de uma só vez a todos. Nessas horas não preocupamos com risco de contaminação e nenhuma dessas coisas. Quem me dera se todos os cristãos abrissem seus olhos para a realidade de que precisamos compartilhar do amor de Deus não somente em palavra, mas em verdade e prática.

Fomos também à casa de um rapaz chamado Jônathas. Sua casa foi totalmente destruída. Ele perdeu um amigo nesse terremoto. Vimos algumas igrejas que foram completamente destruídas também. Fomos a uma grande Igreja Batista que caiu completamente após o terremoto, graças a Deus ninguém morreu ali. Mas também passamos por um lugar onde não entramos, pois parece que ainda há mais de 15 pessoas mortas que não foram tiradas dos escombros. O coração fica apertado o tempo todo.

Os haitianos precisam de muita oração. Um dos haitianos que está refugiado aqui na igreja, chamado Ezequiel, me disse que após o terremoto, a igreja haitiana está experimentando um grande mover de unidade. Um ajudando ao outro. Tudo o que têm é comum. A comunhão tem crescido demais. Perguntei a ele do que eles mais sentem falta. Ele não hesitou em responder: ‘de estudar’. Ele é um universitário, faz o curso de Letras. A igreja aqui incentiva as pessoas à educação. Uma hora antes do culto, às 16h, há aulas de inglês para os membros da igreja. Ministrei tanto a ele como a outros jovens que estavam aqui durante a nossa conversa. Tentei fazê-los compreender que Deus conta com cada um deles para mudar a nação do Haiti. Deus escolheu a eles, pois eles são fortes, já venceram o maligno e têm a Palavra no coração.

Esses jovens aqui são muito fervorosos, servos. Tenho certeza de que eles foram chamados por Deus. No final da conversa, disse para eles: ''Não desistam, pois Deus está com vocês''. Vi nos olhos deles uma alegria muito grande .

Por Pastor Léo Capochim

Adaptação: Marcelo Ferreira

*Relato do pastor Leonardo Capochim, por e-mail, enviado à Redação do Atos Hoje/Lagoinha.com na tarde da quinta-feira última, 04/2/2010. Até o fechamento dessa edição, essas eram as informações acerca do trabalho de nossos pastores no Haiti. Ressaltando, porém, que a comunicação no país é extremamente precária e restrita, dadas as condições do mesmo após a tragédia que se abateu sobre a população haitiana.

veja também