Pesquisa mostra que poucos brasileiros estão dispostos a fazer caridade

Pesquisa mostra que poucos brasileiros estão dispostos a fazer caridade

Atualizado: Quarta-feira, 12 Janeiro de 2011 as 5:05

Quando foi a última vez que você se dispôs a ajudar alguém sem receber nada em troca? Uma pesquisa realizada pela organização Charities Aid Foundation em 153 países mostrou que o brasileiro anda deixando de lado a generosidade. Apesar do resultado mediano — o Brasil é o septuagésimo sexto colocado no ranking —, especialistas garantem que, ensinando as crianças a serem mais generosas e criando leis que estimulem a doação de tempo e dinheiro, o país deve se tornar uma potência da generosidade.

Na pesquisa, os entrevistados respondiam a perguntas relacionadas a três aspectos ligados à generosidade: disposição para ajudar pessoas desconhecidas, disponibilidade para doar tempo como voluntário e doação de dinheiro para instituições e pessoas necessitadas. O resultado do Brasil, apesar de ser mediano, foi bastante desigual em cada uma das categorias. Por aqui, enquanto apenas 15% dos entrevistados disseram ter feito trabalho voluntário nas últimas semanas, quase metade disse estar disposta a ajudar desconhecidos.

Segundo Márcia Woods, diretora-executiva do Instituto para o Desenvolvimento para o Investimento Social (Idis) — organização que representa a Charities Aid Foundation no Brasil —, esse panorama nacional é fruto do momento histórico em que vivemos. “O fato de as pessoas estarem dispostas a ajudar desconhecidos mostra que a generosidade está na essência da população”, afirma. “Isso mostra que os resultados mais baixos nos outros dois aspectos se devem muito mais às dificuldades de articulação da sociedade civil e à falta de estímulos para quem doa tempo ou dinheiro do que ao desinteresse das pessoas”, afirma.

Portanto, a saída para potencializar essa disposição inata do povo brasileiro, segundo Márcia, seria criar redes de estímulo à doação de tempo e dinheiro. “Esse tipo de ação precisa ser legitimizado. Temos que ter condições mais favoráveis, leis que facilitem a doação de dinheiro e estimulem o trabalho voluntário como as que outros países já adotam”, afirma. Para ela, as organizações não governamentais têm um papel fundamental nesse sentido. “É preciso trabalhar para engajar mais a população nas questões. O terceiro setor começou a trabalhar isso melhor nos últimos anos, mas ainda há muito para ser feito”, completa Márcia.

Sentimento perdido

Para a artesã Darci Pereira, 65 anos, o Brasil é um país bastante diverso e isso se reflete também no nível de generosidade das pessoas. “Percebo que há posicionamentos muito diferentes entre as pessoas quando o assunto é generosidade. Há muita gente que cultiva esse tipo de atitude, mas infelizmente também há quem não esteja nem aí”, acredita. “Já passei por situações em que pedi informações a estranhos na rua e fui totalmente ignorada; outras vezes, encontrei pessoas tão generosas que se dispuseram a alterar seus caminhos para me dar uma carona e me ajudar a chegar ao meu destino”, exemplifica.

Ela acredita que, nos últimos anos, esse valor tem se perdido. “Antigamente, as pessoas se preocupavam mais em ser gentis, em ajudar umas às outras. Hoje, não. Acredito que as pessoas estão cada vez mais focadas no seu próprio eu e se esquecem de que pequenas ações no dia a dia podem ter um efeito muito bom”, afirma Darci, que faz trabalhos voluntários com mães carentes que precisam de enxoval para bebês. “Acho que isso é, de certa forma, fruto dos problemas econômicos que vivemos. As pessoas se empobreceram e passaram a se focar mais nas próprias vidas. Talvez agora, que a economia está melhor, isso melhore um pouco”, opina.

Apesar de trabalhar em lugares onde as pessoas relaxam e se divertem, como parques e praças, o vendedor de sorvete Marcos Ribeiro Nunes, 48 anos, não percebe a mesma generosidade descrita por Darci. “Há bastante tempo as pessoas esqueceram o quanto pode ser bom ajudar os desconhecidos. Mesmo as pequenas gentilezas acabaram sendo deixadas de lado”, afirma. “Acho que estão acabando os valores. As pessoas não ligam mais para o sofrimento e a necessidade dos outros, especialmente os mais pobres”, comenta.

Para ele, o resultado brasileiro na pesquisa britânica poderia ser melhor. A saída estaria numa mudança de postura dos cidadãos. “Para ser generoso, é preciso se botar no lugar do outro, entender o sofrimento e a necessidade de quem precisa de ajuda. Do contrário, não adianta nada só ajudar simplesmente por ajudar”, afirma. “Acredito que essa mudança seja possível, basta as pessoas quererem”, completa Marcos.

Outro aspecto revelado pela pesquisa foi a desconexão entre riqueza econômica e generosidade. Ao contrário do que se poderia imaginar, há países extremamente ricos e pobres tanto no topo quanto no fim do ranking.

Segundo Márcia Woods, os pesquisadores constataram que existe uma conexão muito maior entre a generosidade com o sentimento de felicidade e bem estar da população, do que com a questão econômica. “Percebemos que, de maneira geral, nos países em que as pessoas se diziam mais satisfeitas com suas vidas, independentemente dos problemas sociais enfrentados, a disposição para ajudar era maior do que naqueles em que as pessoas se sentiam mais infelizes, mesmo que fossem regiões mais ricas”, comenta.

Desde cedo

A servidora pública Sandra Alves, 30 anos, e o publicitário Luciano Costa, 38, acreditam que generosidade se aprende desde cedo. Pelo menos é assim que eles tentam criar as duas filhas, Cecília, 2, e Luciana, 8 meses. “Desde pequenininha, a gente pode dar lições no dia a dia sobre compartilhar as coisas, dividir os brinquedos, emprestar as coisas para os coleguinhas”, relata a mãe. “Apesar de pequenas, elas entendem isso, e vão aprendendo que é importante ter esse tipo de atitude”, completa o pai.

Para eles, além de falar, é importante demonstrar. “A melhor maneira de educar é com exemplos. Então, se as duas veem a gente sendo generoso, acabam aprendendo isso”, acreditam os pais. “As pessoas vivem numa correria no cotidiano e acabam deixando de lado esse tipo de atitude, mas se aprenderem desde pequenas, que é o que pretendemos com nossas filhas, a pressa não conseguirá bloquear esse tipo de atitude”, concluem.

A teoria do casal — de que generosidade se aprende desde cedo — foi comprovada pela psicóloga da Universidade Federal de Rondônia (Unir) Vanessa Lima. Em sua dissertação de mestrado defendida na Universidade de São Paulo (USP), Vanessa estudou o conceito de generosidade em crianças de 6, 9 e 12 anos. “Minha pesquisa provou que esse conceito pode ser claramente investigado e comprovado a partir dos 6 anos de idade, mas minha experiência como mãe, tia, madrinha e minhas observações me mostraram que a generosidade está presente desde bem mais cedo”, afirma.

Segundo ela, é aos 4 anos que esse conceito está mais claramente presente na vida dos pequenos. “É quando já se vê uma criança partilhando algo que é seu por generosidade, ou seja, abrindo mão de algo seu em prol de ver o outro feliz”, conta a psicóloga, que explica que esse conceito surge naturalmente, diferentemente de outros valores, como a justiça, que precisam ser aprendidos. “Convencer uma criança de 6 anos de que é dever dela, ou seja, justiça, partilhar seus biscoitos, quarto e brinquedos com seus irmãos é muito mais difícil, enquanto que a generosidade surge espontaneamente”, completa.

O conceito de generosidade se forma muito cedo? Quando é que as crianças adquirem a noção de que é preciso ser generoso?

Sim, minha pesquisa provou que o conceito de generosidade pode ser claramente investigado e comprovado a partir dos 06 anos de idade, mas minha experiência como mãe, tia, madrinha e minhas observações como Supervisora de Estágio em Psicologia Escolar na Universidade Federal de Rondônia – UNIR e trabalhando com consultoria às escolas públicas na discussão da queixa escolar, me mostraram que a generosidade está presente desde bem mais cedo, aproximadamente aos 4 anos de idade, quando já se vê uma criança partilhando algo que é seu por generosidade, ou seja, abrindo mão de algo seu em prol de ver o outro feliz.

Tomemos então o conceito de generosidade na sua origem, que generosidade é dar a outro algo que lhe faz falta, que pode ser algo material, mas a generosidade envolve substancialmente aspectos não materiais, como seu tempo, sua atenção. É difícil perceber a generosidade quando se trata de algo material pois é bastante discutível o quanto algo de material (uma roupa, emprestar seu carro, dinheiro) pode lhe fazer realmente falta. Quanto aos aspectos subjetivos, a dor da perda é bem mais clara, por exemplo do tempo que gostaríamos de dispor para nosso próprio prazer e resolvemos dedicá-lo a outra pessoa.

O que mais impressiona é o fato de que, aos 6 anos a criança ainda tem dificuldade de ser justa, embora os exemplos de justiça e as falas dos pais sobre justiça sejam mais comuns, mais freqüentes. Convencer uma criança de 6 anos de que é dever dela, ou seja, justiça, partilhar seus biscoitos, quarto, brinquedos com seus irmãos é muito mais difícil, enquanto que a generosidade surge espontaneamente.

O suíço Jean Piaget em sua teoria da Epistemologia Genética, já defendia a existência de estruturas que possibilitavam o surgimento da moralidade, assim como do pensamento e da lógica. Estruturas, claro, que precisam ser estimuladas para que haja a construção do conhecimento, seja acerca da linguagem, do pensamento ou da moralidade. E atualmente, pesquisas de neuropsicologia e psicobiologia tem demonstrado este fato .

As virtudes são parte da moralidade, pois que implicam em resultados para a melhor convivência entre os seres humanos, ou nas palavras de Aristóteles – Ética a Nicômaco, possibilitam a busca da felicidade, não só individual, mas do grupo.

Existem diferenças no conceito de generosidade de acordo com a classe social?

Embora haja certa confusão entre a população do que seja generosidade, muitas pessoas confundem generosidade com solidariedade (que é dar o que lhe sobra, como dinheiro no semáforo ou roupas de frio antigas). Então, a questão não é diferença no conceito de generosidade. Em qualquer classe social fica bem claro quando se está fazendo algo para outra pessoa por justiça, porque isto é um direito da outra pessoa e não faço mais do que minha obrigação em dar a ela o que é seu de direito e quando se faz por outrem (na moralidade other regarding é um princípio essencial, embora hoje já se discuta que há aspectos morais também em atos self regarding), a questão é quando as crianças passam a valorizar mais o ato generoso ou outros atos, como o ato justo . O que minha pesquisa demonstrou é que nas classes menos favorecidas economicamente, o ato generoso só passa a ter mais valor (como um ato nobre) a partir dos 09 anos, sendo até então MAIS valorizando , um ato justo. A ausência da justiça parece ser uma falta grave nas classes menos favorecidas economicamente até os 09 anos de idade. Já nas crianças de classe média e alta, da escola particular, o ato generoso é visto como mais valorizado desde cedo, desde os 6 anos de idade. O reconhecimento da nobreza do ato, pois embora não fosse dever da pessoa fazê-lo, ela foi além de sua obrigação.

Outras virtudes se formam intrinsecamente com o conceito de generosidade?

De minha pesquisa posso afirmar que as virtudes da Amizade e da Fidelidade surgem intrinsecamente relacionadas com a virtude da generosidade. Posteriormente realizei pesquisa com a virtude do perdão com crianças também de 6, 9 e 12 anos, tanto da escola pública quanto particular e novamente podemos afirmar que a virtude do perdão também é compreendida pelas crianças a partir dos 6 anos de idade (com certeza) e que esta virtude, o perdão, também está referenciada/relacionada a outras virtudes, como a amizade e a fidelidade. Algo interessante da virtude do perdão é que é mais fácil perdoar quando há uma perda material do que uma perda sentimental e que é mais fácil perdoar quando não houve uma vergonha pública. E a prova de que a virtude do perdão se relaciona, por exemplo, à virtude da amizade é que as questões do ressentimento e/ou da perda material são relevadas em função de uma amizade e do grau e tempo deste e um único acontecimento não é suficiente para prejudicar uma amizade.

Em sua opinião (de acordo com a pesquisa, e com sua experiência de vida) o brasileiro é um povo generoso?

Como não sou pesquisadora dos aspectos culturais da psicologia e como minhas pesquisas não se estenderam ainda aos adultos no tema das virtudes, não posso afirmar, mas como você pergunta de minha experiência, tenho 40 anos de vida e minhas observações sérias do mundo são dos últimos 20 anos. Temo lhe dizer que concordo com o Dr. Yves de La Taille que em seus últimos livros vem discutindo a crise dos valores de nossa sociedade e a leitura dele é interessante porque parte de muitos exemplos que envolvem os jovens - como revelação do que estão recebendo e como sinalização do que nos espera no futuro. E minha resposta para sua pergunta (baseada em minhas observações e conclusões interdisciplinares) é: não, o brasileiro não é um povo generoso. Aliás, estamos vivendo tempos difíceis, quando até as questões da justiça (seja como virtude seja como princípio universal da moralidade – como acreditavam Jean Piaget e Lawrence Kohlberg, psicólogo, pesquisador da moral, norte americano) na sua perspectiva de preocupação com os outros (other regarding), com a sociedade, em busca de uma sociedade mais harmônica, onde todos pudéssemos viver melhor, está em falta. Mesmo em solidariedade as pesquisas demonstram que o brasileiro é menos solidário que outros povos. Ainda mais agora que as pesquisas demonstram que a solidariedade é self regarding, ou seja, quem faz solidariedade às vezes se beneficia, pelo sentimento de bem estar, às vezes mais do que os beneficiados. Não, o povo brasileiro não é generoso, em minha opinião. Mas não generalizemos, há muitas pessoas generosas no Brasil.

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