Pessoas boas também fazem coisas ruins - Gustavo A. L. Brandão

Pessoas boas também fazem coisas ruins - Gustavo A. L. Brandão

Atualizado: Quarta-feira, 3 Fevereiro de 2010 as 12

No title Conta-se a história de uma igreja na qual estavam discutindo a situação da sua creche. Ela atendia, em parceria com a prefeitura, dezenas de crianças, para suas mães trabalharem. Junto à creche tinham construído um modesto templo, que também atendia à comunidade. Os funcionários recebiam seu salário sem registro, com a promessa de serem contratados em breve.

Debatiam uma polêmica questão: a maioria das famílias assistidas não participava dos cultos e programações da igreja. A arrecadação da igreja era pequena e manter a creche trazia "prejuízos". Após acalorada discussão, a maioria aprovou a sua venda, em um futuro próximo, se a situação não mudasse.

Após essa decisão, a comunidade começou a olhar com desconfiança a igreja. A freqüência aos cultos diminuiu. Um líder acabou sendo denunciado por suspeita de favorecimento na futura venda da creche. Os funcionários, sentindo-se enganados, denunciaram a igreja ao Ministério do Trabalho.

Investigações mostraram que parte da verba da parceria com a prefeitura era usada para pagar o salário do líder da igreja. Havia várias despesas sem notas fiscais, suspeita de caixa dois, doações de origem duvidosa e indícios de favorecimento na compra de materiais. Constataram também que parte da alimentação servida era feita com produtos comprados abaixo do preço de custo, pois estavam vencidos.

Os resultados dessa cultura do "jeitinho" para tentar resolver situações difíceis vieram: perda de credibilidade, cassação dos registros públicos, processo de ressarcimento de verbas movido pela prefeitura, multas do Ministério do Trabalho, além de outras ações trabalhistas. Algumas pessoas abandonaram a fé. A liderança da igreja se retirou e um novo pastor assumiu.

Evitando cair em ciladas

Situações semelhantes a essa não são incomuns. Elas apontam problemas aos quais toda organização social está sujeita, mas poderia evitar: falta de profissionalismo, de coerência e de fidelidade a princípios. Além de falta de consistência, de humildade e de transparência. Acima de tudo, indicam uma gestão incapaz, autocrática e desrespeitosa para com a população assistida.

O desejo de promoção pessoal, de criar projetos com ambição eleitoral, de obter vantagens usando os assistidos, de fazer obra social por modismo, são ciladas que levam ao vexame e à ilegalidade. Falcatruas, mais cedo ou mais tarde, vêm à tona e envergonham a todos.

A moralidade é a melhor atitude. Um projeto menor conduzido com princípios éticos é preferível a crescer a qualquer custo. As instituições religiosas não podem misturar o serviço religioso com o social, mas ambos devem estar em harmonia e seguir o mesmo padrão de transparência. O nome de Jesus não é moeda de troca: da mesma forma que é condenável trocar assistência social por votos, é muito mais vergonhoso usar projetos como "isca" para atrair pessoas para a igreja!

Boas práticas!

A melhor forma de prevenção é uma consultoria e um planejamento estratégico bem feito e monitorado, jamais abandonando a condução ética e moral do projeto. As boas práticas sociais incluem dois princípios básicos: não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizesse a você. E, fazer bem e com a motivação certa é fazer de forma definitiva. Menos é mais!

A responsabilidade social exige coerência entre aquilo que se deseja para a sociedade e a prática interna da organização. A autoridade é conquistada a partir de atitudes e não por discursos ou sermões. A justiça apenas pode ser alcançada a partir de ações firmes e íntegras da liderança sem permitir alvos ocultos e interesses pessoais. Somos chamados a intervir na sociedade para transformá-la e não para obter vantagens para nosso grupo. Servir a partir desse modelo - deixado por Cristo - é um desafio diário.

Epílogo

Anos depois, resolvidos os problemas, o novo pastor recebe um jovem que deseja organizar um projeto de apoio aos sem-teto da cidade.

Responde o pastor sentindo um frio na espinha.

- Nem me fale de projeto social!

- Mas papai, - pergunta seu filho que ouvia a conversa - como Jesus faria?

"Cumpram com honestidade todos os seus deveres para com Deus, o Senhor, respeitando-lhe e obedecendo-lhe com todo o coração" (2 Cr 19.9 - NTLH).

Gustavo A. L. Brandão é pastor e pedagogo no projeto Jovem Aprendiz, do Instituto Betesda, em Curitiba, PR.

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