Projeto Radical Brasil traça plano de ação na Cracolândia

Projeto Radical Brasil traça plano de ação na Cracolândia

Atualizado: Segunda-feira, 27 Julho de 2009 as 12

Paralelamente ao início das atividades do projeto Radical Brasil na Cracolândia, a missionária Soraya Machado, que lidera os 13 voluntários que participam da ação na capital paulista, está desenvolvendo o perfil da Cracolândia. Nos últimos dias ela andou pelo local, principalmente nas madrugadas, colhendo dados que poderão somar às estratégias a serem implantadas.

Conhecendo a Cracolândia

Segundo Soraya, ao contrário do que muitos pensam, a maioria dos usuários de drogas da Cracolândia é de classe média alta, sendo quase 80%. "Não tem muitos moradores de rua... na maioria, eles se infiltram e passam a noite no crack. De manhã eles voltam para casa". São cerca de 500 usuários que disputam uns com os outros uma pedra de crack. Alguns vendem relógios, outros sapatos, a R$ 1,00 ,  tudo para sustentar o vício. Os "nóias" - usuários de drogas, Soraya os classifica como "tremendamente pacíficos", desde que haja confiança na relação estabelecida.

Pela manhã é a hora-chave para a abordagem, é o que defende Soraya. Nesse momento já não estão sob efeito das drogas e a mente já se volta para a realidade cruel estabelecida. ''Agora estamos abordando antes de acordarem, dando lanches", aponta. Paralelamente ao trabalho assistencial, acontecem as abordagens evangelísticas e aconselhamentos. "Existe uma grande quantidade pessoas que sinalizaram que querem sair e ir para a recuperação. Estamos fechando parcerias com algumas instituições'', completa a missionária.

Filhos pródigos

As próprias ações missionárias também ajudaram na análise dos dependentes químicos. Enquanto realizavam cultos na praça principal da Cracolândia, os radicais observaram que muitos, ao ouvir as canções e mensagens, choravam por já ter feito parte da realidade eclesiástica. São filhos pródigos, que ainda guardam lembranças do Pai amoroso.

O tráfico

A pesquisa que define o perfil dos usuários recebe a colaboração de uma irmã que já foi mulher de um dos traficantes da Cracolândia. Por ser conhecida na região, ela tem guiado a missionária em pontos estratégicos, apresentando-a a ''soldados'' e chefões do crime. Um deles é um menino de 12 anos, que gerencia uma das bocas de fumo no lugar do irmão, integrante do PCC que se encontra detido. "Ele não fuma, não bebe e não usa droga. Conta dinheiro a noite inteira e repassa as drogas para os traficantes".  As mulheres também têm seu lugar no crime. Soraya conheceu pelo menos quatro que atuam na distribuição de drogas. Uma delas já está sendo evangelizada e demonstrou interesse em ajudar a missionária conduzindo-as a outros traficantes.

Estendendo a mão

O interesse dos radicais pelas fragilidades das pessoas que estão inseridas no contexto das drogas tem gerado a confiança necessária para o andamento do projeto. Na Praça Julio Prestes, uma moradora de rua, grávida de sete meses, teve sua muleta roubada. Com pinos na perna, em decorrência de um acidente que sofrera há dois anos, e sem ter como se locomover, desesperou-se. ''Ela chorava muito e nós, que estávamos ali naquele momento, tínhamos que dar uma solução. Oramos, conversei com ela e pedi que me aguardasse. Voltaríamos com a resposta.  Era desafiador... a garota não tinha como sair  daquele lugar'', explicou Soraya. Mais tarde, a solução: um novo par de muletas.

Ações como essas fizeram crescer o prestígio entre os dependentes químicos da Cracolândia, sendo possível ouvir palavras de apreço aos radicais. ''Todos que por ali passavam diziam que pessoas abençoadas prometeram voltar e já haviam retornado com a benção. Diziam: 'Eles são sérios e fazem um excelente trabalho'... 'eles são de Deus!''.

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