Só-risos :"Queremos encher nossa fé de arte e nossa arte de fé"

Só-risos :"Queremos encher nossa fé de arte e nossa arte de fé"

Atualizado: Sexta-feira, 20 Maio de 2011 as 2:32

Com características diferenciadas e com o propósito único de fazer diferença no meio cristão através da arte circense, o ministérios Só-risos, vem ganhando espaço com suas palhaçadas e com uma proposta criativa e relevante desenvolve trabalhos de recreação e arte enquanto evangeliza pessoas em albergues, escolas, ruas e igrejas.

Em entrevista exclusiva ao GUIA-ME a idealizadora do projeto, Lys Alexandrina, comprova que mesmo em meio a muita palhaçada é possível espalhar a alegria que somente Cristo dá. Confira:

Guia-me: Como o ministério foi idealizado?

Bom, após conhecer trabalhos relevantes no meio cristão, e voltar do encontro de líderes no JV em São Paulo, no qual tive contato com o ministério Terra dos Palhaços, fiquei com enorme desejo de levar a proposta pra juventude da igreja. Após algumas conversas, descobri que algumas (poucas) pessoas tinham o mesmo objetivo e também estavam cansados da mesmice. Afinal, o intuito inicial do grupo era o de trazer uma nova linguagem através de uma proposta criativa e relevante.

Participei de uma oficina de capacitação para aprender algumas técnicas, truques e conhecer um pouco mais do mundo palhacesco e a partir de então começamos a buscar pessoas e estruturar a trupe, que agora em maio está fazendo 1 ano. E amigos de amigos vieram (cheios de amor e vontade de servir) para fazer parte do grupo, que, atualmente, é formado por 11 integrantes. Algum tempo depois, resolvemos agregá-lo ao grupo Ciranda. E desde então, temos caminhado juntos.

Guia-me: Quais seus principais objetivos?

Primeiramente, (re) pensar o teatro no meio cristão através de uma nova linguagem, a da arte circense. Além de desenvolver um trabalho recreativo com crianças, adolescentes e jovens, criar ações criativas de evangelismo na igreja. O objetivo é falar da graça com graça. Levar o amor e a alegria aos lugares carentes do riso. Tentar, de alguma maneira, preencher os vazios das pessoas (desse mundo tão individualista) com o amor que emana dEle, promovendo pequenas ações sociais e urbanas nas ruas, sinais, escolas, albergues, igrejas  e bairros carentes. 

Guia-me: Existe alguma preparação ou pré requisito para fazer parte do ministério? Quem pode participar?

Há sim. Anualmente nós ministramos oficinas preparatórias voltadas às pessoas que desejam fazer parte do grupo (como essa que faremos nos dias 3, 4 e 5 de junho). Qualquer pessoa pode participar da oficina, mas para fazer parte do grupo é necessário crer no que a gente acredita. Pois, cremos que existe um único Deus, criativo e criador de tudo o que há. Pai das artes que guia nosso caminhar, diariamente. Pois, quando caminhamos, todos, no mesmo intuito, o trabalho flui de uma maneira melhor e muito livre. O pré-requisito é ter disponibilidade de tempo e disposição em servir.  Entender o amor, como serviço é o princípio básico para a introdução no grupo.  

Guia-me: Como falar da evangelização para os jovens e adolescentes?

Utilizamos uma linguagem divertida e criativa. De um modo muito livre. Por ser assim, não nos pesa. Contextualização é a palavra que mais usamos. É de extrema importância se adequar às realidades sócio-culturais de cada lugar. Nós utilizamos a arte. E, acreditamos que ela não precisa de justificativa, ela fala por si só. Como diz o Rookmaaker: “Cristo não veios apenas para nos tornar cristãos ou salvar nossa alma; ele veio também para nos redimir, de forma que pudéssemos ser humanos  no sentido mais amplo da palavra. Ser novas pessoas significa que podemos usar nossa capacidade humana de forma plena e livre em todas as facetas da nossa vida. Portanto, ser cristão significa que temos humanidade -  a liberdade de trabalhar na criação de Deus e usar os talentos que ele deu a cada um de nós para a sua glória e para o benefício do próximo.”

Acreditamos que essa geração deve ser impactada com novas atitudes. Sobretudo, trazendo a importância do servir, do fazer o amor, mais que dizer. Nós queremos influenciar todos aqueles que passam por nós com as nossas posturas. Direcionando-os ao amor. E isso implica em olhar e enxergar o outro. Nós falamos do amor, como nos ensina a banda Crombie: “Verdade no olhar me fala muito mais do que palavras lindas ditas sem pensar. O amor está contido no que a gente faz, na atitude de se aproximar...”

Guia-me: Como criar ações criativas de evangelismo na igreja?

Em primeiro lugar, é necessário levar as pessoas a pensarem e explorar a criatividade. Cremos que a igreja deve abrir espaço para essas discussões através de encontros e saraus.  O nosso trabalho é fruto do que a gente vive e pensa. Pegamos a poesia-nossa de cada dia, experiências pessoais, situações cotidianas e transformamos em expressões diversas. Outro fator que deve ser levado em consideração é a região. Nós, nordestinos fazemos bom uso de algumas dessas expressões, como os ritmos, as danças, o ‘linguajar’, as vestimentas, o cordel e a música.  Tudo isso adicionado à linguagem do "clown".

A grande questão é fugir da mesmice e das coisas clichês. Inovar sempre, da maneira mais inusitada e criativa. Acreditamos, por exemplo, que “peças e louvorzão em praças” já não funcionam mais. Aí, criamos outros mecanismos. Ou pegamos um violão, sentamos à beira da calçada e começamos a cantar e conversar, ou abrimos nossas casas para promover encontros entre gente e arte, ou simplesmente, distribuímos abraços, flores e risos pelo caminho de ida e volta. Em gesto de amor, mostramos ao mundo a quem servimos.

Guia-me : Existe algum “preconceito” das igrejas quanto a proposta de usar a arte circense para atrair pessoas a Jesus?

Existe sim. Muita gente acha que tudo o que fazemos não passa de brincadeira e muita ‘palhaçada’. De fato, nos divertimos muito. E brincamos demais, porque nos sentimos bem quando praticamos coisas de crianças. E o Pai disse que desses é o Reino dos Céus. Mas tudo isso é feito com muito preparo e seriedade. É uma responsabilidade enorme colocar o nariz vermelho, nos pintar e colocar nosso figurino.  Mas quando saímos sorridentes pelas ruas não é para mostrar a nossa ‘boniteza’ e sim pra espalhar a alegria de Pai que abre um sorriso nos nossos lábios e traz leveza ao nosso coração. Creio que na igreja, de um modo geral, há um grande problema em aceitar o novo. Ainda mais quando se trata da arte ligada à poesia, teatro e dança (mas creio que isso é ponto para outra discussão). Por isso o grupo tornou-se independente, pela não-aceitação de algumas pessoas. O lado bom disso é que temos total liberdade para realizar nosso trabalho.

Guia-me: Tem alguma história que aconteceu e se tornou um fato marcante na vida do ministério?

Tem a história da criação do grupo, dos que chegaram. Pois quando o Pai colocou em mim o desejo de trabalhar com palhaços dentro da perspectiva cristã, eu fiquei muito entusiasmada e querendo compartilhar desse desejo com todo mundo. Queria contagiar todo mundo com essa alegria. Comecei a estudar sobre o assunto. Tratei logo de lançar a proposta pra juventude da igreja, presbíteros e pastor. Mas as pessoas não se animaram muito. Resolvi fazer uma oficina para as pessoas da igreja e ninguém apareceu. Me entristeci muito e quis desistir. No entanto as palavras de encorajamento da minha mãe me impulsionaram a seguir em frente com o desejo que Ele havia plantado em mim. Levar uma arte criativa e bem feita e alcançar as pessoas através dela. Foi então que resolvi fazer outra oficina, dessa vez, aberta a quem quisesse. Foi aí, que o Pai me mandou pessoas muito talentosas e responsáveis. Dispostas a realizar o trabalho que tínhamos em mente.  Ao longo do nosso trabalho, em bairros carentes e escolas públicas, percebemos o amor dEle no olhar de cada criança e adolescente que nos abraça com uma alegria tão imensa e pura, que não pode ser medida. São crianças que não ‘tem nada’, mas nos ofertam o que há de melhor nelas, o amor, o cuidado e a sinceridade.

Ultimamente, temos vivido bons momentos em nossas reuniões semanais. São momentos de comunhão, idéias e trocas. Estamos em processo de criação que se dá através do processo colaborativo, (com)partilhando experiências, alegrias e celebrando um tempo bom.

Guia-me:  Quais os planos e expectativas futuras do ministério?

Uma delas é espalhar a proposta por outros lugares e, quem sabe, criar grupos-filiais em outras cidades. Posteriormente, realizar trabalhos em hospitais e se especializar ainda mais. Temos uma interferência urbana que deve acontecer no mês de novembro, que tem por título: "Cidade-Poema" e um outro projeto idealizado pelo vocalista da banda TioZé, Daniel Caldeira, chamado "Sobre o Amor", que logo estará disponível na internet para quem quiser.

Sonhamos com uma igreja capaz de abarcar e acolher iniciativas como essas, repletas da boa arte. Queremos encher nossa fé de arte e nossa arte de fé.

Por Pollyanna Mattos

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