A caverna de Freud

A caverna de Freud

Atualizado: Quarta-feira, 19 Janeiro de 2011 as 3:56

Às vezes somos monolaterais e até ingênuos, quando acusamos Freud de pansexualista, evolucionista ao extremo, ateísta compulsivo e, até, como já ouvi, uma espécie de “filho do anticristo”.

Freud construiu seu castelo de ideias em cima de uma premissa básica: a civilização se construiu em cima da renúncia do instinto – o princípio do prazer versus o princípio da realidade, ou seja, a energia libidinal despreendida de qualquer obstáculo versus normas que a sociedade cria para a sua sobrevivência enquanto animais gregários. Viver, então, para Freud, é um compromisso, uma troca continuamente reclamada e para sempre instigada a se negociar. Desde os primórdios da vida à senectude o homem labuta para equilibrar-se ante o princípio do prazer e o princípio da realidade, sem o que, a sociedade não sobreviveria. Incestos, disputas pela fêmea, instintos “jurássicos” nos destruiriam antes mesmo de nos tornarmos alguém , enquanto civilização.

Ninguém em sã consciência poderia negar verdades nessas assertivas freudianas, contudo, dizer que só isso é toda verdade foi o seu grande erro. Considero , por assim dizer, Freud um grande arquiteto que nunca viu uma casa recémconstruída. Tudo o que ele viu foi prédios em pedaços, isto é, ele só conheceu o homem caído, em completa depravação. Daí concluir: ex-homem. Ele não conheceu outros valores do homem original: seu desejo de andar no jardim, relacionar-se com sua esposa e encher sua vida de significado numa vivência completa, inteira e interativa como seu Criador. Usando uma linguagem bíblica, Freud só conheceu o homem de um lado só: o homem carnal, que vive a lutar e a digladiar para satisfazer a sua , então, nova natureza. Diria que Freud é o novo homem da caverna de Platão: “tudo que enxergo é tudo o que existe no mundo”. O homem de Freud é do tamanho do campo de sua visão vitoriana: Só o que ele enxerga e diz é o que o homem é. Por isso, não aceitou outras variantes proposta pelo seu mais genial discípulo C. J. Jung. Seu erro foi lutar em não querer enxergar aquém e nem além de sua pequena caverna.

Dessa premissa nasce sua crítica ácida à sociedade e seus valores morais. Moral para Freud era sinônimo de repressão e neurose. Qualquer valor que recalcasse o “id” ( o ser solto, livre e primitivo que há no homem) merecia ser desnudado para uma maior compreensão da civilização de seu tempo. É no interior deste espaço eu-civilização que o analista penetra e faz refletir como espelho a face mais escondida de seus pacientes, promovendo, assim, evasivamente, a única possibilidade de cura.

Não podemos negar o gênio desacomodado e inquieto de Freud. Suas teorias sobre sonhos, conteúdos inconscientes reprimidos, relações primárias das crianças com os pais e todas as sua implicações são fatos incontestáveis. Mas, quando ele diz que o todo do homem é só isso fracionou demais; diminuiu demais. Qualquer cientista, filósofo ou pensador ao dizer que qualquer todo do homem é só isso decreta a sua impossibilidade de crescer, voar e sair da caverna de sua redução mental.

Rev.   Cícero Brasil Ferraz   é psicanalista, formado em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pastor da Igreja Presbieriana de Vila Maria, em São Paulo (SP)

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