A música é um dos maiores causadores de choque entre gerações

A música é um dos maiores causadores de choque entre gerações

Atualizado: Quarta-feira, 2 Março de 2011 as 3:15

Não há como pensar em relações pessoais sem considerar o intenso processo de globalização e avanço tecnológico que modificou a forma de comunicar e interagir das pessoas.

É o que acredita Josué de Souza, que foi membro do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Extensão em Movimentos Sociais (NEPEMOS/FURB): “Nos últimos 20 anos, muitas ditaduras no mundo caíram, a forma de nos relacionarmos com o governo e com a imprensa mudaram, as relações de trabalho mudaram. Hoje, palavras como participação, democracia, divisão de tarefas e parceria entraram no nosso cotidiano. Sendo assim, não há como conseguirmos nos relacionar com as pessoas sem levar em conta a opinião delas. Para as novas gerações, não há mais espaço para o autoritarismo, a hierarquia sem sentido, a imposição, mas sim o diálogo e muita conversa”, diz o cientista social que também é professor de Sociologia, Filosofia e Antropologia da Escola Teológica da Assembléia de Deus de Gaspar (SC).

No entanto, é importante frisar que se por um lado é importante os mais velhos entenderem a necessidade dos jovens da Geração Y - de terem as normas e orientações não apenas apresentadas, mas explicadas (isto é, saberem a razão de ser delas) - por outro lado, o jovem cristão também deve ser compreensivo, rejeitando atitudes de confrontos desrespeitosos.

Sobre esse assunto, afirma a Bíblia Sagrada, a nossa regra de fé e prática: “Rogo igualmente aos jovens: Sede submissos aos que são mais velhos; outrossim, no trato de uns para com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo aos humildes concede a Sua graça” (1Pe 5.5); “Diante das cãs [cabelos brancos] te levantarás, e honrarás a face do ancião; e temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor” (Lv 19.32); “Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra” (Ef 6.1-3); “Filhos, em tudo obedecei a vossos pais, pois fazê-lo é grato diante do Senhor” (Cl 3.20); “Obedecei a vossos pastores, e sede submissos para com eles; pois velam por vossas almas, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hb 13.17).

DIFERENÇA NOS ESTILOS MUSICAIS   Ao conversarmos com jovens crentes de diversas partes do país sobre os principais conflitos na área de gerações, são recorrentes os choques relativos a estilos musicais. O louvor é sempre apontado como a área de maior divergência entre os jovens e os mais velhos. O pastor Márcio Klauber Maia, autor do livro “O Caminho do Adorador” (Editora CPAD), acredita que isso aconteça por ser, geralmente, a área musical aquela em que o jovem começa a atuar na igreja. “São poucos os que começam no ensino ou na pregação. Normalmente, começam nos conjuntos musicais da mocidade ou em bandas. E é saudável que eles tenham oportunidade de se expressar em suas formas de trabalho”, afirma o jovem líder potiguar, que preside a União da Mocidade da Assembleia de Deus em Natal (RN).

Excetuando alguns casos de estilos musicais que são extremamente agressivos ou sensuais em sua natureza, e por isso são logicamente rejeitados na igreja, as divergências entre preferências musicais têm mais a ver com gosto mesmo do que com conteúdo. “Há várias respostas para as divergências de preferência entre estilos musicais. Elas podem se dar como reações doutrinárias a músicas de mais gingado que letra, que é uma crítica sadia; ou como cuidado com o que entendemos como serviço sagrado, o que também é importante; ou ainda pode amenizar-se ou desaparecer com o tempo, quando o ritmo que causou uma estranheza natural por ser novidade pode vir, num segundo momento, a se acomodar”, analisa o professor Alberto Fonseca, diretor teológico do Instituto Cristão de Pesquisas.

“É mesmo um problema de ordem cultural”, analisa o pastor Klauber. “A igreja se acostumou a determinados ritmos e tende naturalmente a achar que só esses são interessantes. Por outro lado, é verdade que a nota musical não tem uma moralidade, mas existe a necessidade de uma adequação. Você não vai cantar uma música de celebração em um funeral, nem uma de funeral em um casamento. Existem músicas apropriadas para cada tipo de reunião. Da mesma forma, em reunião de jovens, os louvores são mais adequados a eles, mas às vezes esse jovem quer usar essa música com a participação dos idosos, que não gostam daquele estilo. Então, virá o choque. É preciso respeitar as diferenças”.

Dentro da Assembleia de Deus, por exemplo, os chamados “corinhos de fogo”, em ritmo de forró, são geralmente bem-vindos, muito em razão de grande parte dos pastores mais antigos terem vindo do Nordeste, onde predomina o ritmo forró. “Mas, o contrário também existe. Alguns jovens têm preconceito com esses corinhos porque não gostam do ritmo deles, considerado brega por eles”, lembra o jovem Rolindo Marques (foto), 26 anos, da Geração Y e membro da Assembleia de Deus no Espírito Santo. “Sou sonoplasta e no final do culto incentivo os irmãos a apreciarem as canções que gosto”, conta Rolindo.

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