"A proximidade pode matar o desejo", afirma o Pr. Josué Gonçalves

"A proximidade pode matar o desejo", afirma o Pr. Josué Gonçalves

Atualizado: Sexta-feira, 1 Janeiro de 2009 as 12

Por Adriana Amorim - www.guiame.com.br

"Ele tem que sentir saudade dela. Ela tem que sentir saudade dele". Para Josué Gonçalves, "casamento não é o sepultamento da individualidade". Há 19 anos atuando no ministério de família, o pastor realiza conferências no Brasil e no exterior abordando temas como relacionamento conjugal e criação de filhos. Terapeuta familiar e escritor, Josué Gonçalves apresenta aos sábados, às 8h pela Rede TV, o programa "Família debaixo da graça", que tem gerado testemunhos de restauração em lares.        

Em entrevista ao Guia-me, o pastor abordou os principais problemas relatados por casais em suas ministrações e aconselhamentos; as mudanças no relacionamento do casal com a atuação da mulher no mercado de trabalho, e administração financeira. Josué expôs também conselhos para manter o "amor romântico" no casamento e revelou a importãncia de se compreender o que é "amor sacrificial".

Guia-me: Nesses 19 anos, pastor, os problemas relatados por casais são os mesmos?

Josué Gonçalves: Eu penso que não mudaram muito. É claro que com o avanço tecnológico, a possibilidade de se abrir mais, principalmente quando se fala de mulher - porque a mulher vivia dentro de um cubículo que a colocaram, culturalmente falando, esse mundo machista - e nós de certa forma ainda carregamos um pouco desse machismo. A mulher não tinha liberdade de expressão como tem hoje. Ela não tinha conquistado o espaço que conquistou hoje. Na verdade, os problemas sempre existiram, agora há uma abertura maior para pedir ajuda, fazer sua denúncia. A impressão que fica é que os problemas que existem hoje não existiam no passado, na verdade sempre existiram. É que hoje está mais fácil denunciar, pedir ajuda, pedir socorro.

Guia-me: Então de alguma forma isso contribuiu para o aconselhamento? Os casais se achegam mais hoje para serem aconselhados?

Josué Gonçalves: Eu penso que sim. Porque  na proporção que as pessoas vão se abrindo, vão denunciando, vão pedindo ajuda, fica mais fácil para os conselheiros trabalharem, socorrendo essas pessoas.

Guia-me: No seu site, Família e Graça, há uma enquete que questiona qual o principal problema que as pessoas enfrentam na família. 27% das pessoas que responderam apontaram administração financeira. Na sua opinião, o problema maior está na falta de recursos ou na abundância recursos? Por que as pessoas apontam a administração financeira como o principal problema do casamento?

Josué Gonçalves: Eu penso que a maioria colocou que a sua dificuldade é administrar o que se ganha. Nós vivemos hoje uma economia que não tem muita perspectiva de crescimento rápido, estamos saindo de uma crise mundial e no nosso país, até um tempo atrás, as coisas eram bem complicadas, hoje melhorou muito. Porém, as pessoas ainda têm muita dificuldade em administrar o que se ganha. Eu sempre tenho dito que o problema do brasileiro não é o quanto ele ganha, mas como administra o que ganha. Porque mesmo quando não se ganha muito, mas se administra bem, faz-se muito. E eu penso que essa é uma habilidade que o brasileiro precisa aprender ainda.

Guia-me: Precisa aprender como casal também?

Josué Gonçalves: Com certeza, porque se o casal não aprender fica difícil, as despesas são maiores, os gastos são maiores. Dentro do casamento a necessidade de se aprender a administrar o dinheiro é maior do que quando se é solteiro.

Eu sempre tenho dito que casais inteligentes crescem juntos. Há um livro que diz "Casais inteligentes enriquecem juntos", e é verdade. Dentro do casamento se não houver uma cooperação mútua, uma compreensão, se não houver uma pré-disposição em praticar a arte do economizar, o casal não chega a lugar algum e isso pode ser a causa até de uma separação.

Guia-me: A gente pode apontar um culpado ao dizer que um casamento fracassou?

Josué Gonçalves: Eu penso que ninguém erra sozinho. Toda vez que acontece uma separação, os dois têm responsabilidades, têm uma parcela de culpa. É lógico que se você colocar os dois em uma balança, sempre um tem mais responsabilidade do que o outro. Porém, quando um casamento fracassa., os dois devem, os dois têm responsabilidade. Ninguém erra sozinho, mesmo quando acontece uma infidelidade conjugal. É lógico que nada justifica o adultério, mas há pessoas que contribuem para que o cônjuge caia em adultério. Eu sempre digo que eu como marido posso dificultar ou facilitar a ação do diabo no meu casamento, depende das brechas que eu vou abrindo através do meu comportamento.

Guia-me: Em suas ministrações o senhor aponta diferenças entre o amor romântico e o sacrificial. Como um casal pode fazer para que esse amor romântico não se perca no casamento?

Josué Gonçalves: O casal precisa ser criativo. Hoje, por exemplo, a mulher, com o avanço tecnológico, foi disponibilizada para o mercado de trabalho, ou seja, o avanço tecnológico liberou a mulher que antes estava presa dentro de casa, em função de tudo o que ela tinha que fazer e de forma muito trabalhosa. A máquina de lavar, o micro-ondas, a geladeira, o forno elétrico, a máquina de lavar louça, de secar, todo o avanço tecnológico contribuiu para que a mulher ficasse mais livre e ocupasse seu espaço no mercado de trabalho. Mas aí veio o grande desafio: Como conciliar trabalhar fora, cuidar de filhos quando se volta para a casa, cuidar da casa? 0u seja, cuidar de toda a demanda doméstica e também ser amante do marido na intimidade, ser esposa na intimidade?

Eu penso que se o casal não administrar tudo isso com criatividade, sabedoria e inteligência, realmente acaba o romantismo. Por quê? Porque eu sempre tenho dito que a distância provoca saudade e a saudade provoca o desejo. Então, o excesso de proximidade e a exaustão crônica pode fazer o casamento cair no marasmo, na mesmice, no tédio ou na depressão conjugal. Então, o casal precisa realmente administrar isso com inteligência para que não morra o romantismo.

Guia-me: O que seria o excesso de proximidade? Como o casal pode evitá-lo ao estar constantemente junto?

Josué Gonçalves: Quando eu falo sobre respeito em uma das minhas palestras, eu digo o seguinte: Nós precisamos respeitar os limites da individualidade do outro. Porque casamento não é o sepultamento da individualidade, não é a morte da individualidade. O que é a individualidade? É respeito consigo mesmo. Mesmo dentro do casamento eu preciso respeitar os limites da individualidade do meu cônjuge, porque todos nós precisamos de um espaço para estarmos a sós conosco mesmo e quando o casal não entende isso, qualquer tempo de separação se entende como abandono, indiferença, essa relação é doentia.´Por quê? Porque minha esposa precisa do momento dela, eu preciso do meu espaço, ela precisa do espaço dela. Por quê? Overdose de atenção, de carinho, de beijo, pode matar. Todo excesso é danoso, tudo o que é demais não é bom. Eu digo que o casamento precisa desse epaço que me faz sentir saudade e falta do meu cônjuge. Eu particularmente acho que para todo casal que trabalha junto, com o tempo, a relação pode se desgastar, porque se veem de manhã, à tarde, à noite, voltam para casa juntos, dormem juntos, acordam juntos, vão para o trabalho juntos, almoçam juntos. Mas ele precisa sentir saudade dela. Ela precisa sentir saudade dele. Essa proximidade pode matar o desejo.

Guia-me: Então é como uma eterna conquista?

Josué Gonçalves: Por que namoro é contagiante? Porque não se vê todo dia. Por que no namoro existe toda aquela coisa maravilhosa de se vestir para o outro, de se aprontar para o outro? De ouviir a voz do outro? Porque não se veem toda hora, não se veem todo dia. Então, dentro do casamento a gente precisa curtir esse namoro também, a gente tem que criar essas situações para não morrer a graça do relacionamento. É nesse sentido que eu falo.

Guia-me: O pastor também costuma abordar o tema do amor sacrificial. Em seus aconselhamentos, ministrações e atendimentos, o senhor percebe que as pessoas compreendem esse amor ou não?

Josué Gonçalves: Tem muito a ser ensinado. As pessoas procuram enfatizar muito o amor romântico, eu até entendo que o amor romântico é uma necessidade, inclusive na minha enquete mais de 20% das pessoas disseram que precisam melhorar na área do romantismo.

Eu acho que amor romântico é comprometimento consciente. É amor compromisso. Aquilo que foi dito lá no dia do casamento. Prometo te amar em qualquer circunstância. Será que eu estou falando isso na hora da escassez, da doença, da prova, da luta? Eu realmente estou disposto a amar como eu prometi? Eu digo que nós não estamos vivendo uma crise de compromisso, mas uma crise de amor sacrificial. Quem ama sacrificialmente vai até o fim com a pessoa amada, custe o que custar.

Guia-me: O senhor entende que esse é um dos motivos de muitos divórcios? A pessoa não reconhecer esse amor sacrificial?

Josué Gonçalves: Sim. Às vezes a grande ênfase está no romantismo e eu tenho dito que numa construção o romantismo é a pintura, a ornamentação, mas o amor sacrificial é o fundamento, o que sustenta a relação, porque quando vêm os momentos difíceis da vida, o que pesa realmente é o amor sacrificial.

Guia-me: Quais são os principais motivos de casais que o procuram estarem na iminência de um divórcio?

Josué Gonçalves: Eu penso que um dos principais motivos é a falta de investimento na relação. A maioria pensa que um bom casamento é obra do acaso, acontece automaticamente, quando na verdade casamento é uma grande construção e quanto maior o seu projeto, mais você tem que investir a partir do alicerce e parece-me que as pessoas estão desistindo facilmente, não estão querendo pagar o preço necessário para construir um grande projeto de vida.

Eu li um livro esses dias onde a autora dizia o seguinte: 70% das separações são desnecessárias, as pessoas estão se separando porque buscam no outro o que só é possível encontrar dentro de si mesmo. Eis a razão porque a pessoa às vezes casa cinco vezes e continua desiludida. Porque está procurando encontrar na outra pessoa o que só é possível encontrar em si mesma. Então, eu penso que uma das causas é porque as pessoas não estão investindo como devem na sua relação como construção.

Guia-me: O senhor também passou por um momento difícil em sua família, quando sua esposa adoeceu. Em um testemunho, o senhor conta que foi ali que descobriu como poderia demonstrar ainda mais o seu amor a ela. Quais seriam os conselhos para um casal que deseja viver esse amor sacrificial?

Josué Gonçalves: A vida nos dá frequentemente oportunidades de demonstrar o nosso amor sacrificial. E amar sacrificialmente é colocar-se no lugar do outro para sentir o que ele sente, afim de ser aquilo que Deus quer que nós sejamos, porque Deus quer que eu seja para minha esposa um canal de bênção, um instrumento de graça, um agente de transformação. E eu só serei para ela o que ela precisa se me colocar no lugar dela para sentir o que está sentindo. Quando as pessoas ganham essa consciência e vivem assim, não têm problema de se entregar em favor do outro, até porque Jesus é nosso grande exemplo.

Guia-me: Amar ao próximo?

Josué Gonçalves: Isso. Amar como a si mesmo. Se eu amo a minha esposa como eu amo a mim mesmo, então tudo o que eu quero de bom para mim eu desejo para ela, e aí é o que a maioria dos conselheiros falam: Você não casou para ser feliz, mas para fazer o outro feliz. E quando você faz uma pessoa feliz, você colhe aquilo que está plantando.

Guia-me: O senhor apresenta semanalmente um programa de TV com duração de 15 minutos. O pastor tem recebido testemunhos desse trabalho?

Josué Gonçalves: Quinze minutos tem dado para a gente dar um recado legal e já faz dois anos praticamente.

Todo lugar onde eu vou dar palestras há alguém testemunhando, gente que grava o programa, que não sai para trabalhar sem assitir ao programa. Gente que teve sua vida de casal e de família transformada a partir dos programas, padres que assistem ao programa, adquirem meu material, utilizam nas paróquias, então, são dezenas, centenas de testemunhos sobre o nosso projeto.

Guia-me: Como está o projeto de distribuir 500 mil adesivos com a mensagem "Família o meu maior patrimônio". Como surgiu a ideia?

Josué Gonçalves: Um dia eu estava conversando com o meu filho sobre uma campanha que queria fazer chamando a atenção do Brasil para o valor da família. Aí veio essa ideia. Por que nós não lançarmos na televisão, no site, livretos e camisetas e adesivos com a frase Família meu maior patrimônio? Aí nós começamos a fazer milhares de adesivos e a distribuir gratuitamente através do site. Então, nasceu a ideia dos livretos e das camisetas.

Nós vamos lançar bonés, canetas, chaveiros, porque a proposta é chamar a atenção do Brasil para o valor da família. Eu tenho dito que se você perder seu dinheiro você não perdeu nada. Se você perder sua saúde, você perdeu alguma coisa, mas se você perder sua família, você perdeu seu ninho, seu maior presente, seu maior patrimônio.

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