A visão de um trono em Realengo

A visão de um trono em Realengo

Atualizado: Quinta-feira, 14 Abril de 2011 as 1:17

Há quem diga que Realengo é a junção de duas palavras: “Real” e “Engo”, abreviatura de Engenho, que não cabia nas placas de orientação utilizadas na época do Brasil Império. Alguns estudiosos, porém, asseguram que a expressão se referia a terrenos e campos destinados à pastagem de gado por parte dos que não possuíam terras próprias, de modo que a antiga localização desses espaços públicos é exatamente onde ficaria o Realengo dos nossos dias. Parece que nossos dicionários, influídos por essa explicação, trazem “Realengo” como sinônimo de “algo sem dono; público; em desordem; entregue às moscas; abandonado” (Aurélio). De acordo com certos “pensadores”, um significado sugestivo para o massacre ocorrido na escola municipal do Rio de Janeiro. É o caso de Arnaldo Jabor, que no dia oito de Abril encerrou sua crônica na rádio CBN com as seguintes palavras “... a dor terrível que sentimos com esse crime é de abandono. O ato desse assassino nos faz sentir que estamos sozinhos e que Deus está ausente”.

Em tempos de tragédia todo mundo quer falar alguma coisa, deixar seu recado, suas percepções da realidade, suas formulações teológicas, suas explicações, justificativas, acusações e soluções.

Por esta causa é que falar nem sempre é a melhor opção. Principalmente quando não se sabe o que se fala. “Falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia” (Jó 42.3).

Muitas vezes a melhor palavra de consolação é dada sem som, mas simplesmente com lágrimas e oração. Não é por acaso que o Livro que mais fala de sofrimento, não traz respostas prontas para o sofrimento.

Em sua busca frenética por respostas às catástrofes que lhe sobrevieram, Jó só houve perguntas de Deus. Mais nada.  Diante disso, quero simplesmente compartilhar uma visão que tive. A mesma que teve Davi, perto de adentrar às portas da morte: “Mas o SENHOR permanece no seu trono eternamente [...]” (Sl 9.7). E Isaías no ano do falecimento de Uzias, um rei temente ao Senhor, [...] “eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono” (Is 6.1). Semelhante a do profeta Jeremias após ver sua nação ser devastada pelos babilônicos, suas mulheres estupradas pelos inimigos (Lm 5.11), suas crianças devoradas pelas próprias mães famintas (Lm 4.10) e a carnificina de sua liderança (Lm 5.12): “Tu, SENHOR, reinas eternamente, o teu trono subsiste de geração em geração” (Lm 5.19). E por que não a do Apostolo João depois de haver relatado aos crentes das sete igrejas da Ásia a necessidade de serem perseverante nas perseguições impostas pelas potestades terrenas e demoníacas: “Depois destas coisas [...] Imediatamente, eu me achei em espírito, e eis armado no céu um trono, e, no trono, alguém sentado” (Ap 4.1-2).

A visão do trono é o entendimento inequívoco e insofismável de que Deus não perdeu as rédeas da história, nem deixou o mundo ao realengo.

Deus está no controle de tudo. Deus está assentado no trono do universo. Ele é o único Soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores

(1 Tm 6.15). Não há acaso nem falta de domínio no mundo governado, não pelo destino obscuro, mas pelo Todo-Poderoso. Por isso, não precisamos temer. A causa de tudo está no céu. “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl 115.3). É por essas e outras razões que quando me pego querendo soluções e provas do que está encoberto, tento visualizar a figura do trono. Se algo dá errado ou permanece oculto, sempre trago à memória que Deus está assentado num alto e sublime trono.

Pois é só diante dele que encontramos paz em meio à guerra, segurança face ao medo, força na fraqueza e vitória diante das derrotas.

Acredito que foi com essa certeza que uma das vítimas, Larissa dos Santos Atanásio, uma jovem cristã, membro da Igreja Presbiteriana de Piraquara-Realengo, partiu. Foi chamada a encontrar-se com o Senhor. A menina de 13 anos que sonhava em ser modelo foi desfilar nas passarelas de ouro do paraíso celeste e, assistida por anjos, ser recebida como princesa no salão nobre do rei Jesus.

Por Rev. Milton Ribeiro, diretor administrativo da Agência Missionária Luz para o Caminho

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