Adventistas aguardam quatro horas para realização de prova do MPU

Adventistas aguardam quatro horas para realização de prova do MPU

Atualizado: Terça-feira, 14 Setembro de 2010 as 9:40

  No sábado 11 de setembro, cerca de 200 adventistas estiveram no Centro Olímpico da Universidade de Brasília (UNB) para a realização do Concurso do Ministério Público da União (MPU). A prova iniciou às 14 horas em todo o Brasil, mas esse grupo, apesar de já estar nas salas da aplicação das provas sob os mesmos meios de segurança contra fraudes, aguardou até o pôr-do-sol para começar a responder as questões da avaliação. Foram quatro horas de confinamento. "Eu estou muito ansiosa por não saber o que vou encontrar na prova, mas esse tempo vai ser muito bom para acalmar um pouco e acabar com essa ansiedade", contou a candidata Andreia Uelce Oliveira Cruz, minutos antes de entrar na sala de prova.

  "Eu trouxe um monte de caneta, para garantir, identidade e muito lanche", Andreia mostrava sua bolsa com alguns alimentos e água. Tudo para não ficar em jejum até às 23 horas, quando se encerra o tempo da prova. E eu não pretendo sair antes disso". Ela e os demais adventistas ficaram até oito horas em sala de aula, entre o período de espera do pôr-do-sol e o término da prova. "Eu nunca achei que ia querer que um sábado nunca chegasse", brincou, "mas está sendo especial, mesmo sabendo que a prova está começando para os outros, eu estou em comunhão com Deus desde o começo deste sábado".


"Nesse tempo todo em que ficamos dentro da sala nós cantamos, lemos o livro Dez Mandamentos, oramos, conversamos, fizemos um culto especial na hora do pôr-do-sol", detalha a candidata Cristiane Siqueira. "Nós até explicamos porque guardamos o sábado para o juiz de sala. Foi praticamente um estudo bíblico", comemorou. "E ele ficou muito interessado, gostou de conhecer nossa religião." Foram quatro horas de espera dentro das salas. E as saídas eram apenas para beber água e ir ao banheiro, "e ainda assim tinha que ir acompanhado", afirmou Cristiane.


A equipe de capelães adventistas  do Distrito Federal (DF) compareceu ao local para dar apoio aos candidatos adventistas. Todos os participantes presentes se reuniram no pátio principal e realizaram um culto. Oração, meditação e música uniram os concorrentes numa só fé. "Foi emocionante vê-los cantar que querem ser fiéis a toda prova. Vimos o rosto de cada um, como se estivessem realmente conversando com Deus, agradecendo a oportunidade e realizados pela fidelidade", disse o diretor da Educação Adventista no DF e entorno, Éder Leal. "Viemos representar a igreja local, dar um abraço de amigo, animar, parabenizar pela fidelidade e animá-los para a vitória", explicou Leal.


Andreia aguarda esse concurso há pelo menos um ano, e com a saída do edital se dedicou muito mais. "Fiz cursinho específico para este concurso, tirei férias para poder estudar todos os dias pelos menos oito horas. Estudei até o último segundo possível", contou. E o concurso envolveu até quem não fez a prova, como Tiago Vilela Dania, que ministrou aulas de Direito Constitucional para o grupo de candidatos da sua igreja em Sobradinho (DF). "Eu vi a expectativa dos meus amigos para conseguirem a aprovação, então me propus a ensinar. Como tenho bastante experiência em concursos públicos, entendi que poderia ajudar de alguma forma", disse. Ele entrou na maratona de concursos em 2004. Em 2008 foi o 19º colocado do concurso do Tribunal Superior do Trabalho, onde trabalha desde então, e é estudante de direito. Mas, ele quer mais, "tenho planos de passar em outros concursos", revelou. E seus planos vão além de seus interesses pessoais, "pretendemos fazer aulas regulares preparatórias para concursos em nossa igreja".


O 6º concurso do Ministério Público da União (MPU) é um dos mais aguardados dos últimos anos. Em todo o País foram realizadas cerca de 755 mil inscrições, para o preenchimento de 594 vagas oferecidas pelo MPU. E o Distrito Federal é onde se concentra o maior número de candidatos, aproximadamente 145 mil. Um grupo de cinco adventistas entrou com um mandado de segurança e obteve o direito de aguardarem até às 18h (horário do pôr-do-sol) para o início da realização das provas. Direito adquirido para si e para todos os religiosos do País que se encontravam na mesma situação, como os batistas do sétimo dia, e os judeus, entre outros. "Enfrentamos resistência e preconceito nos cursinhos, na internet e de muitas outras maneiras", lembra Andreia. "Alguns entendem que usufruímos um  privilégio, mas este é um direito", explicou o consultor jurídico da Igreja Adventista no DF, João Luiz Oliveira. "E se não fosse, certamente não recorreríamos. Nossa intenção não é ter atendimento diferenciado ou preferencial, mas usufruir dos direitos disponíveis a qualquer cidadão neste País", informou Oliveira.

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