André Neles conta como se livrou das drogas e deixou as baladas para trás

André Neles conta como se livrou das drogas e deixou as baladas para trás

Atualizado: Terça-feira, 26 Janeiro de 2010 as 12

O reggae começa com este verso: ''eu vou contar a história de um craque, jogador de futebol ''. E segue com a vida de uma atleta que, depois de conhecer a fama, passou a beber se divertir na noite, se tornou usuário de cocaína, promoveu farras com mulheres e entrou numa esperial de decadência profissional. Até que encontrou Deus e mudou.

A canção se chama ''André Balada''. Faz parte do disco lançado pelo atacante e presbítero André Neles, atleta do Botafogo de Ribeirão Preto. Foi ele quem escreveu a letra. O músico Rodrigo Pires, de Araguari, compôs a música. E alterou o ritmo.

''Era pra ser uma música mais lenta, mas ele achou que reggae era melhor. Ficou bom né?'', disse André.

Os torcedores do palmeiras se lembram do André Neles. Em 2002, ele marcou um gol do Vitória no jogo que rebaixou o time paulista para a Série B do Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, o atacante foi contrato pelos palmeirenses. Ficou na reserva de Edmilson e Vágner Love.

André Neles virou André Balada durante a disputa da segunda divisão. O volante Magrão, hoje no mundo árabe, colocou o apelido no atacante que ia para a noite com a fúria de um artilheiro. ''Era festa toda noite, muita mulherada. Ia treinar, a galera comentava e ficou o apelido'', lembra André.

Mineiro, o jogador teve um início promissor de carreira. Começou no Atlético Mineiro, passou pelo Vitória. Se sagrou campeão estadual pelo time baiano (''fiz 31 gols na temporada'') e despertou o interesse do Benfica. Assinou contrato de cinco anos, não aguentou uma temporada.

Até o final do compromisso com o clube lisboeta, André Balada foi emprestado para clubes brasileiros: Vitória, Palmeiras, Inter (''saí de lá porque fui para a farra com o joelho recém-operado''), Figueirense e Fortaleza.

As duas últimas equipes marcaram a virada na vida do atleta, se é que, naquela altura, ele podia ser descrito como tal:

''Eu era usuário de cocaína. Estava no limite da droga. Não conseguia ficar um dia sem cheirar. Já tinha perdido amigos, minha carreira tinha desandado, estava com a vida toda torta, sem solução'', conta.

Uma noite, em Florianópolis, o goleiro do Figueirense - Gustavo - convidou André Balada para participar de um culto numa igreja pentecostal. Ele diz que aquele foi o momento da virada.

''Foi em 2004, eu estava com 27 anos. No meio do culto, eu fui lá na frente e caí de joelhos. Senti a presença do Espírito Santo'', lembra ele.

A experiência provocou um choro cinematográfico. ''Fui me purificando, chorei muito mesmo'', afirma. Apesar da experiência, André ainda levou um tempo para deixar de consumir cocaína. A conversão só se completou no Ceará. ''Foi em 2005, dois meses depois que me mudei para jogar no Fortaleza. Foi quando e onde parei de me drogar''.

Desde então, André Neles passou a recosntruir a vida. Na última temporada, ele jogou no Barueri. Agora, está no Botafogo de Ribeirão pelo qual disputa o Campeonato Paulista. Tem uma rotina marcada: ''Levanto às 8hs, treino às 9hs, almoço, descanso, treino à tarde e, às 19hs participo do culto''.

Ele avalia que, se tivesse seguido este ritual quando era mais jovem, sua carreira teria sido outra. ''Perdi muito dinheiro e ótimas oportunidades. Se tivesse me dedicado no Benfica, poderia estar milionário e mesmo ter chegado à Seleção Brasileira. O técnico Muricy Ramalho elogiou meu futebol. Mas, esta vida da noite me fez perder muita coisa'', diz.

André Neles já contou em outras entrevistas que levou mulheres para a concentração, que fugiu de hotéis para retornar só no café da manhã e que não fez isso tudo sozinho. Geralmente tinha a companhia de outros atletas.

Hoje, enquanto busca um espaço no futebol aos 31 anos de idade, ele se revelou um compositor prolixo. Em 2008, André lançou seu primeiro CD com músicas gospel. ''Componho muito. Tenho ideias até de madrugada. Anoto tudo, vou gravando, mando para o Rodrigo Pires e ele coloca a música''.

Pelas contas do jogador, o disco de estréia vendeu 10 mil cópias. Há cerca de quatro meses, André colocou no mercado pentecostal seu segundo trabalho. O carro-chefe do novo CD é ''Vou Vencer'', mais apropriada para cultos.

Mas no dia 29 de novembro, quando lançou o disco em Uberlândia, sua terra natal, ele viu que o reggae ''André Balada'' colocou para dançar as quase quatro mil pessoas da platéia. ''Já tinha sido assim em Patrocínio. Acho que o ritmo ficou legal''.

Empolgado, ele mesmo editou um vídeo-clipe para lá de literal da música ''André Balada''.

Está na rede. Mistura fotos dele num cruzeiro com imagens que caçou na internet para ilustrar frases como ''vivia num bueiro'', ''ele bebia demais'', ou mesmo para descever o vazio que sentia quando estava sozinho.

André Neles canta sem desafinar. Sua formação musical é esta: ''Já cantava no chuveiro'', como ele mesmo brinca. Os irmãos dele, que também atuam no mercado de música gospel, o convenceram a interpretar as próprias canções.

Ele até tentou tomar aulas de canto. Depois de uma semana, ficou afônico. Achou que era um aviso de Deus e parou. ''Vou voltar a fazer mais na frente'', promete.

O novo disco do André ''Balada'' cotém 11 faixas. A última é um depoimento/testemunho em que ele - durante 28 minutos - conta sua vida, evitando falar muito sobre a cocaína, mas caprichando em vários episódios pessoais que provariam como Deus tinha reservado grandes coisas para ele.

Hoje, André está no terceiro casamento. É a primeira vez que não trai a mulher. Mantém contato com os filhos das uniões anteriores e segue à risca os preceitos que lhe foram ensinados. Grava os discos e garante que não o faz por dinheiro: ''Faço por amor. Para retribuir o que Deus fez por mim''.

E André está feliz: ''Ganhei mais alguns anos de carreira. Se não tivesse parado com aquilo tudo, estaria jogado por aí. Hoje, acho que posso jogar até uns 35 anos. E depois, vou me tornar pastor''.

Confira abaixo a música ''André Balada'':

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