Após 13 anos de tortura, cristão é libertado da prisão com depressão e surtos mentais

Por meses, Shiden ficou preso em uma solitária onde ele não podia sequer ficar de pé ou esticar os braços.

fonte: Guiame, com informações do World Watch Monitor

Atualizado: Terça-feira, 16 Janeiro de 2018 as 3:13

Depois de libertado, Shiden teve sequelas mentais com surtos e depressão. (Foto: Reprodução).
Depois de libertado, Shiden teve sequelas mentais com surtos e depressão. (Foto: Reprodução).

Shiden era jovem e cheio de otimismo para o futuro quando foi preso por ser cristão. Durante 13 anos, ele foi exposto a tortura de diferentes tipos, incluindo meses em uma cela muito pequena em confinamento solitário. Nem mesmo sua libertação conseguiu trazer o futuro que esperava. Hoje ele não dorme. Desde o dia em que saiu da prisão, ele passa suas noites lutando contra o desânimo e a depressão.

Shiden se converteu ao cristianismo no final da adolescência. Seu irmão mais velho, John, se tornou cristão mais cedo e foi expulso de casa quando seu pai descobriu. John nunca foi autorizado a retornar até o pai deles morrer, mas depois de voltar para casa, Shiden também se tornou um cristão.

Ele sabia que era uma decisão perigosa. A sociedade da Eritréia é profundamente antagônica em relação aos cristãos evangélicos e o governo aprisiona aqueles que pertencem a grupos religiosos fora das três igrejas principais do Islã sunita. Shiden tinha ouvido as histórias do terrível sofrimento dos cristãos na prisão, mas ele decidiu que os riscos valiam a pena.

"Por que você não deixa essa religião?"

Um dia, durante seu serviço militar, quando tinha 22 anos, ele e cerca de outros 40 cristãos foram pegos adorando a Deus em segredo. Todos foram levados para uma prisão militar na cidade do sul do deserto de Assab, onde é extremamente quente durante o dia e extremamente frio à noite.

Depois de dois anos, ele foi transferido para o famoso campo de prisioneiros Mai Serwa nos arredores da capital, Asmara. Lá, Shiden compartilhou um transporte de metal com 30 a 40 outros prisioneiros. Eles tinham uma pausa para ir ao banheiro de dez minutos por dia, e faziam suas necessidades em um mato sob a vigilância dos guardas. A falta de saneamento causou crises regulares de diarréia.

Shiden diz que os guardas provocaram-no, perguntando: "Por que você não deixa essa sua religião?" Mas ele respondia: "Eu não deixarei a fé porque vivo pelo que eu acredito. Eu servi este país fiel e honestamente durante meu serviço militar. Quando me enviaram para trabalhar no campo, eu fiz sem me queixar. Mas minha crença é pessoal, e você tem que respeitar isso. Mas se você não respeitar, estou disposto a pagar o preço".

Durante seis meses, eles o deixaram em paz, mas depois o chamaram de novo. Ele recebeu duas folhas de papel, uma com "Eu acredito" e a outra com "Eu não acredito" escrito sobre elas. ele tinha de escolher e optou pela "Eu acredito", assegurando aos interrogadores: "Não deixarei minha religião. Então, se você me manter na prisão, está tudo bem".

Um pouco mais tarde, eles transferiram Shiden para a prisão geral em Barentu, a 250 km a oeste de Asmara, onde permaneceu nos próximos 10 anos. Muitas vezes, ele ficava preso isoladamente por seis meses, ficando em uma cela muito pequena, onde ele não conseguia esticar os braços nem se levantar.

Um dia, do nada, Shiden foi libertado de Barentu e enviado de volta ao serviço nacional. Mas continuava a viver como prisioneiro, sendo observado o tempo todo. Os guardas e os espiões o observavam atentamente. Não demorou muito para que os espiões percebessem que Shiden tinha algumas partes da Bíblia que ele se escondia debaixo de seu cobertor. Os guardas as destruíram e colocaram Shiden em confinamento solitário novamente, durante três meses.

Durante esse tempo, ele não viu ninguém. Uma vez por dia, uma xícara de chá e uma fatia de pão eram colocadas por meio uma abertura na porta. Ele não fazia ideia se alguém sabia de seu estado. Ele disse que era uma experiência horrível e que, para piorar, tinha ouvido que alguns amigos conseguiram escapar e atravessar a fronteira.

Vida após prisão

Depois de sua súbita liberdade, a família de Shiden logo descobriu que sua liberação não resolveu tudo. Retornar à vida normal não era fácil para Shiden e sua família não estava preparada. Primeiro, houve o trauma. Ele contou ao irmão sobre algumas coisas que lhe aconteceram.

"Eu estava tão orgulhoso dele por não negar sua fé durante todos esses anos", disse seu irmão. "Mas eu não podia acreditar no terrível sofrimento que ele havia sofrido". Shiden tinha sido preso quando tinha 22 anos, mas saiu como um 35. Apesar de ter sobrevivido à sua provação, o retorno à vida normal o confrontou com o fato de ter perdido a educação e as oportunidades de emprego. Sua esperança para o futuro foi corroída.

"Desde a sua libertação, o vimos lentamente mudar. Ele caiu em depressão profunda e há momentos em que ele está completamente irracional", disse John. "Temos que observá-lo o tempo todo, mesmo à noite, para garantir que ele não se prejudique. É muito perturbador".

Ele disse que a situação de seu irmão está longe de ser única e que há milhares de cristãos que sofrem como ele, tendo estado na prisão por longos períodos. John disse que todos "enfrentam desafios semelhantes quando saem da prisão e temos que pensar em como apoiá-los. Eu sonho com o dia em que Shiden será curado e encontrará esperança novamente", finalizou.

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