Autores de novela confessam evitar assuntos considerado "tabu" para evangélicos

Autores de novela confessam evitar assuntos considerado "tabu" para evangélicos

Atualizado: Sexta-feira, 4 Fevereiro de 2011 as 8:26

Ao longo de seis décadas, os personagens gays chegam ao seu ápice na teledramaturgia nacional. Enquanto Gilberto Braga e Ricardo Linhares apostam em inserir com naturalidade homossexuais em diversos núcleos de Insensato Coração, Ti-ti-ti volta a investir na sexualidade do bem-intencionado Julinho, de André Arteche, com a entrada do surfista ambíguo Thales, vivido por Armando Babaioff. E Amor e Revolução, próxima novela do SBT, deve abordar um diretor de teatro bissexual e um torturador homossexual enrustido, além de um triângulo amoroso entre uma lésbica e um casal de amigos. Isso sem contar na discussão sobre homofobia promovida recentemente por Malhação, através do engajado Cadu, de Binho Beltrão. "Agora, há muito mais liberdade. A sociedade aceita melhor", opinou Gilberto, que já abordou essas temáticas antes, como em Vale Tudo, quando criou o casal Laís e Cecília, de Cristina Prochaska e Lala Deheinzelin.

Levantar ou não a bandeira do arco-íris é uma decisão particular de cada autor. Em Malhação, por exemplo, como a proposta é retratar conflitos que podem acontecer na rotina dos jovens, tocar no tema homofobia é quase previsível. Ainda mais depois que imagens de um homossexual sendo agredido com uma lâmpada em São Paulo foram recentemente exibidas em todos os telejornais nacionais. Mas, nesse caso, uma mera coincidência. "Bem proveitosa, eu diria. Não é que a realidade não me influencie, mas tenho uma frente de texto entre 15 e 22 capítulos", explicou o autor, que deve trazer o personagem Cadu de volta à história em breve.

Mesmo com tanto empenho em abordar temáticas gays, uma coisa ainda não foi conquistada na teledramaturgia nacional: o beijo entre duas pessoas do mesmo sexo. O primeiro da TV brasileira aconteceu há 10 anos, no game Fica Comigo, de Fernanda Lima, na MTV. Mas em séries e novelas, já foi cortado do ar duas vezes. A primeira, em América, entre o romântico Júnior, de Bruno Gagliasso, e o peão Zeca, de Erom Cordeiro. E, recentemente, em "Clandestinos - O Sonho Começou", entre o ator Hugo, de Hugo Leão, e o diretor Fábio, de Fábio Henriquez. Nas duas situações, ambas na Globo, as cenas foram gravadas, mas não exibidas. "Não acho tão importante mostrar beijo. Muito mais importante é mostrar a dignidade de um afeto, é um homem poder dizer para o outro 'eu te amo'", opinou Maria Adelaide Amaral.

Tiago Santiago também tentou um beijo gay na Record, mas foi em vão. O autor não associa isso ao fato da emissora ser do bispo Edir Macedo, dirigente máximo da Igreja Universal do Reino de Deus. Mas confessa que evitou alguns assuntos que poderiam ser tabus para evangélicos. "Para não melindrar as idiossincrasias dos dirigentes religiosos", desconversou o autor, atualmente no SBT. Marcílio Moraes até pensou em investir no homossexualismo em "Ribeirão do Tempo". Mas a desistência foi em função de outro motivo. "Percebi que não daria para aprofundar a questão a um nível que trouxesse algo novo", assumiu. A abordagem em tom de polêmica sobre assuntos relacionados a gays é o que surpreende alguns profissionais. Para Maurício Farias, diretor do seriado Aline, que estreia no próximo dia 3, a diversidade é tão presente na sociedade que não deve chocar mais no ar. "Nossa história celebra a felicidade. Nada mais tranquilo do que ter um casal de homossexuais que se dá bem, às vezes briga, sente ciúmes, como em qualquer outra relação", argumentou ele, referindo-se à dupla de meia-idade Pipo e Rico, vividos por Gilberto Gawronski e Otávio Muller.

Outros limites

Não é só o medo da rejeição popular que diminui a liberdade de criação dos autores quando o assunto é sexo. A nova classificação indicativa impõe várias condições que dificultam a abordagem de questões importantes e que devem ser discutidas. Emanuel Jacobina, por exemplo, já escreveu outro personagem gay em Malhação. Em 2001, Sócrates, vivido por Erik Marmo, teve até direito a final feliz, indo embora de mãos dadas com o namorado do terceiro ano do colégio. "Não sei se no meu horário, que é de 17h40, eu poderia fazer isso de novo", lamentou o autor.

Marcílio Moraes criou com Lauro César Muniz um dos personagens gays de maior sucesso da TV nacional. Mário Liberato era o vilão nrustido de Roda de Fogo, interpretado por Cecil Thiré. E tinha em sua casa o que chamava de Sala de Príapo, referente ao deus grego da fertilidade, sempre representado ostentando um enorme falo. "Não sei como esse tipo de coisa seria vista hoje em dia", refletiu Marcílio. Já sobre a vida íntima de Mário, as limitações pesavam. "As relações não eram mostradas, apenas sugeridas. Não dava para ir além disso naquele tempo", explicou.

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