Caso de adolescente evangélica morta brutalmente ainda tem culpado

Caso de adolescente evangélica morta brutalmente ainda tem culpado

Atualizado: Sexta-feira, 23 Abril de 2010 as 12

Familiares, amigos e colegas da estudante Maria Luíza Fernandes Bezerra, 15, fizeram na tarde de quarta-feira (21) - um ano depois do assassinato brutal da adolescente -, uma manifestação em frente à Delegacia Geral (Degepol) para pedir justiça e punição aos culpados pelo crime. Até o momento, o inquérito que investiga o homicídio não foi concluído, tampouco, os responsáveis pela morte foram identificados e presos.

A manifestação contará também com a presença de Marisa Mariano, mãe de Maisla Mariano, 11 anos, morta no dia 12 de maio também de forma brutal: ela foi esquartejada em 11 pedaços que foram espalhados em um terreno baldio no Jardim Lola, São Gonçalo do Amarante. "Queremos cobrar justiça e celeridade nas investigações. Além do sofrimento causado pela perda do filho querido, nós, mães, ainda enfrentamos a dor de ver um assassino impune", afirmou a comerciante Roselene Fernandes Bezerra, mãe de Maria Luíza.

Saudade, perda e impunidade. Esses são os três sentimentos que povoam o coração e a mente de Roselene, um ano depois da morte da filha. Desses três, o mais inquietante é, sem dúvida, a impunidade. "A saudade eu sei que vou sentir para sempre, assim como a perda. Mas, para isso, tenho meus familiares, meus amigos e Deus para me confortar. Agora, a impunidade é algo que só vai me fazer descansar quando assistir os responsáveis pela morte da minha filha entrando na penitenciária para cumprir pena", afirmou Roselene.

Além da demora, a falta de informações sobre o processo - que corre em segredo de justiça - ajuda a agravar a angústia de Roselene. "Procuro a delegada Adriana Shirley, que cuida do caso, mas ela me passa poucas informações. Diz que está trabalhando e me pede para ter paciência. Eu tenho, mas é difícil", afirmou.

De licença médica após fazer uma cirurgia, Adriana Shirley, da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), que preside o inquérito que investiga a morte de Maria Luíza, não foi encontrada pela equipe da TN para comentar sobre a investigação. No entanto, é do conhecimento do jornal que o processo estava com a promotoria de Justiça, mas que voltou recentemente para a DCA, para que fossem novamente ouvidas algumas testemunhas.

Tentando acompanhar as investigações, mas sem se desligar da criação da filha mais nova - 13 anos - e do trabalho, Roselene revela que a vida mudou muito desde que Maria Luíza morreu. A começar pelo endereço: a família não está mais morando no Bom Pastor. "Tive que mudar e deixar a minha casa porque fui ameaçada de morte duas vezes. Agora, vivo em um apartamento alugado e tenho que trabalhar muito para pagar o aluguel", contou Roselene - para preservar a integridade da família, o bairro onde ela mora agora não será divulgado. 

Thiago: ainda o principal suspeito

Thiago Rodrigues Pereira, conhecido como Thiago Cabeção, de 23 anos, é o principal suspeito da morte de Maria Luíza. O rapaz chegou a passar cerca de cinco meses na prisão no início das investigações mas, devido à demora para a conclusão do inquérito, foi liberado e voltou a morar na Cidade da Esperança, zona Oeste de Natal, onde vivia quando Maria Luíza foi morta.

Além da demora, para a advogada de Thiago Cabeção, Kátia Nunes, o motivo para a soltura do suspeito foi a falta de provas contra ele. "Não existia nada que justificasse a prisão dele. O que aconteceu foi um pré-julgamento da sociedade e a proliferação de muitos boatos a respeito dele. Até por isso, evitamos que seja divulgada qualquer imagem de Thiago na imprensa. Se isso acontecer, é capaz de matarem ele", afirmou a advogada.

Segundo a advogada, um dos boatos que surgiram na época do homicídio de Maria Luíza foi que Thiago teria já comprado uma passagem aérea para São Paulo e se preparava para fugir, além de estar coagindo algumas testemunhas a deporem a favor dele e, consequentemente, prejudicando as investigações. "A verdade é que ele foi preso porque descreveu a roupa que tinha visto Maria Luíza na noite em que ela foi morta. Outras pessoas também a viram, mas não quiseram dizer e ele acabou sendo preso como o último a ver a adolescente", explicou a advogada.

Segundo testemunhas, Thiago Cabeção demonstrava por Maria Luíza uma atração muito grande e chegou a afirmar algumas vezes que, "se ela não fosse dele, não seria de ninguém". Uma namorada que ele tinha, inclusive, disse em depoimento que ele, quando estava namorando com ela, chegava a chamar por Maria Luíza.

O próprio Tiago, em entrevista a uma emissora de rádio, negou a acusação: "Nunca falei com ela ou tive qualquer envolvimento com Maria Luíza. Desde que comecei a ser acusado, minha vida mudou inteiramente.  Mas coloco nas mãos da Justiça e acredito que tudo vai dar certo", afirmou o suspeito.

Diferente de Roselene, que cobra celeridade na investigação, Kátia Nunes espera que a delegada Adriana Shirley possa fazer um trabalho tranquila. "Tentamos deixá-la bem à vontade em relação às investigações. Preferimos não cobrar, pois sabemos que o inquérito é algo trabalhoso e que demanda tempo".

Da última vez que se encontraram, no último dia 9, Thiago e Roselene haviam sido chamados para prestar depoimento na 8ª Delegacia de Polícia em Cidade da Esperança. O motivo: a mãe de Maria Luíza teria tentado matar o suspeito passando com um carro por cima dele. "Ela saiu da casa dela e foi até a residência de Thiago atacá-lo", afirmou a advogada Kátia Nunes. "Vi Thiago na rua e disse a ele que a Justiça seria feita. Caso não fosse a Justiça dos homens, seria a de Deus. Ele entendeu isso como uma ameaça de morte e chamou a advogada", afirmou Roselene.

Se Thiago Cabeção for mesmo o acusado da morte de Maria Luíza, é bem provável que ele não seja preso sozinho. Segundo as investigações, mais de uma pessoa participou do homicídio. "Minha filha era jogadora de handeball, alta (1,68m) e forte. Uma pessoa sozinha não conseguiria carregá-la, pois ela tinha muitas forças nos braços e nas pernas. Pelo menos quatro devem ter ajudado", afirmou Roselene, concordando com a tese da investigação.

Momentos de dor para a mãe

A comerciante Rosilene Fernandes Bezerra, viu Maria Luíza Fernandes Bezerra, 15, pela última vez com vida às 19h30 da terça-feira, dia 21 de abril de 2009. A estudante evangélica que sonhava em ser advogada e estudava no Colégio Ateneu, saiu de casa dizendo que iria a uma lan house que havia próximo a casa dela. A mãe não gostou muito, afirmando que já era tarde. "Mesmo assim, ela foi. Ainda dei R$ 5 para ela", contou Roselene.

Mãe e filha eram muito unidas. Por estudar do Ateneu, onde a mãe dela tem uma lanchonete, as duas passavam boa parte do dia juntas. "Ela estava sempre perto de mim. Nunca tinha ido a festa, nem shows, nem mesmo a jogos de futebol, apesar de gostar do esporte. Aprendeu isso com o pai", afirmou Roselene. Contudo, Maria Luíza preferiu manter em segredo para a mãe: naquela noite, assim como já havia feito em outras vezes naquele mês, na verdade, ela iria encontrar com o namorado em uma praça localizada próximo a casa onde viviam. A comerciante não havia deixado os dois namorarem pois o menino, mesmo sendo "muito direito", não era evangélico. "Tinha medo que ela pudesse sair da igreja e pedia para ela não namorá-lo".

Vestindo uma camisa do América (ela era americana e vascaína), um short jeans claro e uma sandália branca, com um símbolo do Brasil, Maria Luíza não chegou nem a lan house, nem a praça. A moradora de uma casa próxima a que a família da adolescente morava afirmou que foi possível ouvir uma correria e um grito abafado de socorro. "Parecia que várias pessoas estavam perseguindo apenas uma", contou. A adolescente de 15 anos foi pega à força antes de dobrar a primeira esquina e, inclusive, chegou a deixar as marcas das unhas no portão de uma das residências, como se tivesse lutado para não ir. Como era feriado de Tiradentes, não havia ninguém na rua para ver a cena e ajudar a jovem. "Quem matou minha filha, planejou isso muito bem", comentou Roselene.

A investigação aponta que Maria Luíza foi assassinada ainda na noite de terça-feira, talvez por isso, o coração de mãe dela sentiu um aperto grande quando a irmã mais nova da adolescente disse, naquele noite, que "já eram 22h15 e Maria Luíza ainda não tinha aparecido". Umbelino de Moura, marido de Roselene e pai das meninas, decidiu ir até a casa da amiga da adolescente, um dos locais em Cidade da Esperança onde Maria Luíza costumava ir à noite. "Quando foi 22h35 meu marido voltou, mas disse que não havia encontrado ela. Ali em pensei: ou sequestraram minha filha ou a mataram, porque ela nunca foi de se afastar de mim tanto assim", afirmou Roselene.

No dia seguinte, a comerciante começou a "via crucies" pela cidade, distribuindo várias fotos de Maria Luíza para que, quem tivesse alguma informação sobre a jovem, ajudasse. Na rua próxima da lan house e da praça onde ela encontraria o namorado, ninguém havia visto a adolescente, que era bem conhecida na área. "Todo mundo era acostumado a ver Maria Luíza passando às 19h30 ou 19h40, e voltando às 21h30. Nesta noite, ninguém a viu".

Por volta das 16h da quarta-feira, 28, no conjunto Jardim América, em um terreno baldio que é dividido em um lixão e um campinho de futebol, crianças e adolescente jogavam bola na terra ainda molhada pelas chuvas que haviam caído recentemente. Após um chute forte, a bola invadiu o terreno do lixão e foi parar, justamente, nos pés do corpo de Maria Luíza, já em estado de putrefação. Os jovens chamaram a polícia e um amigo de Umbelino ligou para para comunicar que uma menina havia sido encontrada. "Meu marido falou: ‘foi? Encontraram minha filha? Segure ela aí que vou já. Como ela está? Está machucada?’. ‘Umbelino, ela está morta’, respondeu o amigo pelo telefone", contou Roselene. Umbelino foi ao lixão e reconheceu o corpo da filha, despida e com um galho de aproximadamente 40 cm introduzido dentro da genitália.

"Foi um crime muito cruel", contou o médico perito do Insitituto Técnico Científico de Polícia (Itep), Francisco Ferreira Sobrinho, responsável pelo laudo técnico da causa da morte da estudante. O laudo, inclusive, afirma que ela foi levada para o lixão e ali morreu, por asfixia por estrangulamento. Ela ainda teve perfurados o canal vaginal e o útero pelo pedaço de madeira.

Roselene soube que a filha havia sido encontrada pouco tempo depois de sair do trabalho. "Fui a delegacia, mas lá disseram que não era ela. Não me lembro bem do que aconteceu nesse momento, acho que fui dopada, queriam me tranquilizar. Tanto que também pouco me lembro do velório e do enterro dela. Só lembro da dor muito forte que sentia", afirmou Roselene.

Por Ciro Marques

Foto: Emanuel Amaral

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