Catador de papelão faz questão de pagar INSS e viver com honestidade

Catador de papelão faz questão de pagar INSS e viver com honestidade

Atualizado: Quinta-feira, 13 Janeiro de 2011 as 3:40

Um homem de fala mansa, olhar sofrido, mas que carrega na alma desejos tão simples que nos fazem ter vergonha quando brigamos por coisas fúteis. O único bem que ele possui é a esperança, retratada nas cores da bandeira brasileira, a única tonalidade a ganhar destaque na cinzenta e metalizada carroça que ele puxa pela cidade de São Paulo.

Como se fosse uma cortina a separar sonho e realidade, foi essa bandeira que chamou a atenção do nosso fotógrafo Plinio Zúnica. Geraldo Magela Teixeira, de 51 anos, estava atrás dela. Um brasileiro que, em vez de reclamar da vida, nos pediu perdão caso falasse errado, pois é analfabeto. Porém, embora não saiba ler ou escrever, ele nos dá uma lição de honestidade, força e superação, e é o nosso personagem da vida real de hoje.

Geraldo mostra o que é ser forte. Além de passar o dia puxando a carroça, tirando o seu sustento do lixo que produzimos, carrega também o peso do desprezo e indiferença, e se torna um ser invisível diante de uma sociedade que só enxerga o que é aparentemente belo.

Mas como diria o autor de “O Pequeno Príncipe”, Antoine de Saint-Exupéry, o essencial é invisível aos olhos. Foi só parar e conversar com ele para descobrirmos que, por trás de roupas sujas e mãos calejadas, existe um ser humano sábio, que se graduou na faculdade da vida.

Embora sua realidade não seja das melhores, seus olhos vermelhos – resultado de noites mal dormidas – conseguem enxergar beleza na vida, o que lhe dá motivos para continuar acreditando em seus sonhos, mesmo que a sua cama seja as calçadas do centro da cidade.

A história

Em poucos minutos, Geraldo nos conta que não conheceu os pais. Ele passou a infância na fazenda de um homem que o criara como escravo. “À noite, meu patrão me trancava no depósito de milho para que eu não fugisse, e durante o dia ficava sob constante vigilância.”

Além de ter sua liberdade cerceada, ele relata que sofria todos os tipos de maus tratos e que possui marcas pelo corpo, não só das surras de chibatas, como de ferro quente, que marcaram sua pele e feriram também a sua alma.

Hoje, essas marcas, segundo ele, estão visíveis apenas na pele. “Não adianta ter mágoa de quem me fez mal. Eu não posso ficar preso às coisas ruins que me fizeram. Já perdoei.”

Se a alma ansiava por liberdade, o corpo também. Geraldo conseguiu fugir da fazenda e foi morar em São Paulo. Na capital paulista exerceu várias funções, trabalhou em serviços modestos e depois voltou à sua cidade natal, Caratinga, em Minas Gerais.

Sem conseguir sobreviver na pequena cidade, foi para o estado do Mato Grosso. Lá, contraiu malária e uma virose causada por água contaminada. Conseguiu juntar dinheiro e voltou há 4 meses para São Paulo. “Vim em busca de tratamento médico e estou fazendo acompanhamento no pronto-socorro da Barra Funda (zona oeste da cidade)”, diz, enquanto nos mostra o cartão de saúde com o retorno para o dia 2 de fevereiro próximo.

Na carroça, cheia de papelão, ele possui também uma caixa, onde guarda a carteira profissional, o RG e o carnê da Previdência Social, que sempre pagou, apesar da vida difícil. Nos últimos 2 meses, atendendo ao pedido médico, Geraldo passou a cuidar da alimentação e por isso não conseguiu pagar a Previdência.

Ele não se casou, não tem filhos ou família, é uma pessoa sozinha no mundo e, mesmo com poucos recursos materiais, nos deixa uma lição de honestidade. “Estou com duas parcelas do INSS atrasadas e estou com medo”, contou ele, aflito para conseguir logo juntar os R$ 51,88 para pagar pelo menos uma das parcelas. “Eu não bebo, não fumo e nunca me envolvi na malandragem. Sou morador de rua, mas sou honesto e ainda tenho esperança.”

A sua maior esperança é poder terminar logo o tratamento médico, juntar um pouco de dinheiro, voltar para a cidade de Rondonópolis (MT) e comprar uma casa. “Lá, casa não é tão cara. E vou juntar dinheiro para comprar uma. Não quero chegar ao fim dos meus dias dormindo na rua”, relata este homem, que, apesar da miséria em que vive, prioriza seus deveres, em um País que pouco respeita os direitos dos cidadãos.

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