Cego, morador evangélico de favela testemunha

Cego, morador evangélico de favela testemunha

Atualizado: Terça-feira, 23 Março de 2010 as 12

Dário vive sozinho em uma das 38.273 moradias do Complexo da Maré. Para ele, o dia amanhece cedo, ainda faz lua quando toca o despertador sobre a cômoda pegada à cama. Vagarosamente, pois está com sono, Dário caminha até o banheiro, ao lado do quarto. Higiene feita, roupa bem vestida, ele pega a bengala e vai, a pausados passos, de casa em direção à igreja.

Dário Viana Cardoso, 26 anos, perdeu a visão dos dois olhos há aproximadamente dois anos em um acidente de trabalho. Deficiente visual para as estatísticas, cego para os amigos, Dário acorda, vive, dorme e sonha como qualquer um dos 132 mil que vivem ali dentro na Maré.

"Tô cego, mas não tô morto. Na vida a gente tem mesmo que passar por essas provações." Dário é hoje bastante religioso. Acorda às 5h para o primeiro culto da igreja evangélica que frequenta, ali mesmo, dentro da favela. E dorme ao som das canções religiosas que ele mesmo põe para tocar em seu CD player. Na igreja, fez novos amigos, já que os antigos, a maioria, ele não vê e nem escuta mais.

"Tem muita gente que se dizia meu amigo, mas hoje, quando eu passo na rua, finge que não me vê. Gente que para de falar quando eu chego na roda, sabe? Isso é o que mais tem." Dário já teve muito dinheiro, fama, carro, motos e mulheres. Um dia, com mulher e filha nas costas, largou esta vida para trabalhar de cobrador em uma van que fazia lotação nos bairros da zona norte do Rio. E foi ali que Dário viveu sua experiência mais transformadora.

Em um acidente na Avenida Brasil, sua van capotou, deixando-o preso nas ferragens. Dário se machucou muito, correu risco de morte, ficou mais de um mês em coma na UTI, mas voltou à consciência. Sem visão. Sem sequer 1% de visão nos dois olhos. "O importante é que eu tô vivo, meu amigo!"

No complexo da Maré, o porcentual de óbitos por causas mal definidas é altíssimo. Segundo o Movimento Rio Como Vamos, que avalia e compara índices sociais em diversas regiões do Rio de Janeiro, os números mortalidade sem causas conhecidas na Maré chegam a 12,11% - bem acima da média da cidade, que é de 7,74%. Por pouco Dário não engrossou este número, pois nem ele sabe dizer os danos que sofreu, e não sabe por que ficou cego.

"A vida mudou. Numa hora você enxerga tudo, na outra fica tudo escuro, de dia ou de noite é a mesma coisa. Não que antes fosse fácil, teve época de eu não conseguir dormir direito porque toda noite a polícia vinha revistar minha casa com uma 12 (espingarda calibre 12) apontada pra minha cara", disse. Dário vive hoje uma vida mais difícil - mas mais tranquila.

Favela escura

Será possível para alguém que analisa a questão de fora imaginar como seria viver cego dentro de uma favela? "Tem um lado ruim, de algumas pessoas tirar onda, a gente fica chateado, né? Mas já avisei, não tô sozinho nesse mundo, tem gente aqui que pode tomar uma atitude por mim", alertou. "Mas, se souber levar, dá pra viver tranquilo. Aprendi a recuar mais, em vez de atacar as pessoas."

O notado calor humano que salta à vista de qualquer um que ficar 10 minutos dentro da Maré também foi lembrado por Dário: "Tem muita solidariedade aqui também. Gente que não conheço, que vem me ajudar na rua, isso é legal. Hoje posso dizer que sei quem são meus verdadeiros amigos."

Casa arrumada

Os degraus que levam Dário da vielinha estreita onde mora para a porta de sua casa são muitos e pequenos. Difíceis de subir, mesmo para quem enxerga bem. Dário, claro, demora um pouco, mas chega. Faz proposital barulho para afugentar eventuais ratos que estejam próximos à porta e, por fim, lar, doce lar.

Os interruptores, os botões do aparelho de som, a cordinha da descarga, o caminho para geladeira, os copos, pratos, as torneiras, tudo já está devidamente registrado na memória de Dário que, sim, vive muito bem ali dentro.

Ao lado da pia da cozinha fica sua mais recente aquisição: uma máquina de lavar roupas. "Isso aqui é muito fácil de mexer, foi a melhor coisa que eu já comprei", disse ele que, cego e sozinho, lava as próprias roupas sem qualquer dificuldade ou queixa. Do chuveiro, que chuveiro?, a água sai fria de um cano sem eletricidade. "É que, no começo, logo depois que saí do hospital, a água quente fazia meu olho doer. Aí, acostumei a tomar banho frio", justifica.

Vez ou outra, ele recebe em casa a visita da mulher e da filha que, por opção do casal, vivem na Magueira, na casa da sogra de Dário. "Deixo tudo arrumadinho quando elas vêm pra cá, e aí elas também me ajudam nas coisas. Mas eu me saio bem aqui sozinho, não tenho nada do que reclamar, não."

Noite Feliz

"Até que prum ceguinho eu não sou de se jogar fora, não é memo?", comentou Dário, logo após tomar banho, se arrumar e se perfumar para a noite de sábado à noite. Mesmo chovendo, ele saiu na companhia dos amigos, segurando no ombro de um deles, que servia de guia.

Conhecido na comunidade, a cada 10 metros Dário era saudado por algum morador. Feliz com o reconhecimento, o ceguinho fazia piadas, gritava e gargalhava na rua. "Até que prum ceguinho eu sou bem conhecido aqui dentro, não sou?", perguntava ele, orgulhoso e em busca de reconhecimento.

Dário perdeu a visão, mas não o humor. Na rua, na noite, nas rodas de amigos e conhecidos, mesmo os menos cuidadosos, que brincam e fazem de sua cegueira o centro das atenções, encontram um homem espirituoso, bem humorado e ciente de tudo o que se passa. "Tem nada não. Tem gente que acha que preciso do olho pra enxergar as coisas. Deixa eles, tem nada não."

Em vez de se chatear com as brincadeiras, Dário ri e finge que não entende. Em vez de ficar enclausurado dentro de casa, Dário passa o dia - e por vezes a noite - na rua. E, no lugar de se lamentar a cada lembrança do tempo recente em que desfrutava dos cinco sentidos, Dário sorri a cada 5 minutos, conta suas histórias e faz todos que estão em volta caírem na gargalhada.

É o piadista entre os amigos, o mais extrovertido, o que mais tem histórias e o que enxerga mais longe o comportamento de cada indivíduo daquela comunidade. Com a sabedoria de quem já foi mocinho e bandido ali dentro, Dário é uma espécie de conselheiro entre os colegas. Além do fato de que, verdade seja dita, a falta de visão não inibiu sua malícia e poder de sedução.

Impossível evitar o clichê: "Como tanta gente, com olhos na cara e dignidade no bolso, pode não conseguir 1/3 da paz e alegria que Dário, um cego na favela, tem?" Seria outro clichê dizer que Dário é um exemplo para todos nós? Provavelmente sim.

Bendito sejam eles, clichês e Dários, aqui, entre nós, sorrindo, dormindo, despertando e vivendo a delícia do dia. Vai da gente conseguir enxergar isso.

Semana na favela

Formado por 16 comunidades e com 132 mil pessoas, o Complexo da Maré, maior favela do Rio de Janeiro, foi apontado pelo Instituto Econômico de Pesquisa Aplicada (Ipea) como um dos pontos de maior letalidade policial. Em outras palavras, a região encabeça a lista dos bairros em que a polícia mais mata na cidade. O Terra entrou na favela e, por uma semana, cruzou com traficantes armados com fuzis, conversou com moradores da favela e ouviu relatos dos sobreviventes da violência. De volta a São Paulo, o repórter Fabiano Rampazzo entrevistou pesquisadores, psicólogos, sociólogos e policiais, e entrou em contato com associações, institutos, orgãos do Governo e Secretarias do Rio de Janeiro. Foram mais de 90 entrevistas para este especial de reportagens dividido em sete partes, como os sete dias da semana, sobre esta região que coleciona medo, contrastes, histórias, mortes, sonhos, vida.

Por Fabiano Rampazzo

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