Cegos também são foco da pregação adventista

Cegos também são foco da pregação adventista

Atualizado: Quarta-feira, 16 Março de 2011 as 4:34

 Eles se reúnem uma vez por mês, num encontro que serve para promover a interação do grupo e compartilhar materiais adaptados para eles. As reuniões são realizadas em uma das salas anexas à Igreja do Unasp, campus São Paulo, e atraem cerca de 20 pessoas, cinco são adventistas. As demais são católicas, pentecostais ou não professam fé alguma. Esse seria um pequeno grupo comum - com músicas, momentos destinados à oração e ao estudo da Bíblia - se não fosse formado por pessoas com deficiência visual total ou parcial.

A cada encontro, eles recebem informações de profissionais de várias áreas, além da assistência espiritual do pastor auxiliar da igreja do campus, Gideão Santiago. A ideia nasceu em 2007, com o casal de cegos Débora Toniolo e Manoel Evangelista B. de Jesus. O ministério foi batizado com o nome de Visão Real e desde o começo recebe o apoio do ancião Wagner Brunelli e do seu atual diretor, o professor Roberto Sussumu Wataya.

As reuniões beneficiam gente como Marcelino Machado Neto. Ele sempre teve uma vida corrida. Como promotor de vendas, Marcelino dedicava o dia para o trabalho e as noites para cursos extracurriculares e para o cursinho pré-vestibular. Ele sonhava estudar Geografia, porém, em meados do ano 2000, passou a ter problemas com sua visão. Foi submetido a quatro cirurgias para corrigir um descolamento da retina. No entanto, as intervenções não solucionaram o problema e, há sete anos, Marcelino não mais enxerga. Desde então, teve que se adaptar à nova realidade. “Aprendi a andar e realizar diversas atividades sozinho, inclusive domésticas. Faço acompanhamento psicológico e estou me adaptando a esse novo estilo de vida”, conta.

Em 2008, Marcelino conheceu o grupo Visão Real. Assim como a maioria dos membros do projeto, ele ainda não é adventista, mas frequenta os cultos da Igreja Maria Eliza, na Zona Sul de São Paulo. Segundo ele, as lições da Escola Sabatina e os livros em áudio fornecidos pelo grupo o ajudam a adorar a Deus no sábado e até a interagir nas programações da igreja. “O projeto Visão Real prova que é possível nos integrarmos. Além disso, aprecio muito a parte religiosa pois nos aproxima de Deus”, destaca.

Marcelino já cursou massoterapia, e neste ano ingressará no curso de informática oferecido pelo núcleo de inclusão do Unasp, campus São Paulo.  Grato a Deus por ter se desenvolvido tanto, a despeito de suas limitações, ele tem um plano nobre: “Não quero ser ocioso, portanto além do curso de informática, quero fazer um trabalho voluntário em alguma instituição e beneficiar outros também.”

Maria Lopes é outra frequentadora do pequeno grupo. Ela também não nasceu com deficiência visual. Natural do Maranhão, acabou se afastando da igreja quando se mudou para São Paulo. Somente em 1994 é que ela voltou a congregar com os adventistas. Porém, devido ao diabetes, há sete anos perdeu a visão. Hoje com 61 anos, mora sozinha em Santo Amaro, Zona Sul da Capital.

Há dois anos Maria conheceu o projeto Visão Real. Em poucas palavras, ela explica a contribuição das reuniões: “É desafiador me adaptar a essa nova realidade ainda mais eu que moro sozinha. Mas os áudios da lição, livros e músicas que recebemos no projeto me animam, e a volta de Jesus é minha maior esperança.”

“Atendendo pessoas com deficiência visual ou outro tipo de deficiência, você aprende a ter mais paciência e a dar mais valor à vida. É gratificante ver a alegria estampada no rosto do pessoal do grupo, quando algo, por menor que seja, é feito em auxílio deles. Um simples telefonema, já faz diferença”, resume Wagner Brunelli, um dos voluntários e entusiastas do projeto.

Alfabetização e inclusão digital - Contudo, para esse grupo de deficientes visuais, o Unasp não significa apenas um local para encontros, mas para aprendizado e inclusão social. Tudo começou em 1997, quando o professor Sussumu, que leciona nos cursos da área de tecnologia no Unasp, se deparou com as dificuldades de aprendizagem de um aluno com deficiência visual do curso de Processamento de Dados. Desde então, ele passou a procurar alternativas de como ensinar informática para cegos. Depois de serem realizadas algumas pesquisas, em 2001, foi criado na instituição, o projeto de extensão @lfabetização [email protected] dos Deficientes Visuais. E, a fim de ampliar as possibilidades de inclusão digital, em 2005 foi implantado o Laboratório de Tecnologias Aplicadas (Latec), com uma área específica para os portadores de necessidades especiais de visão.

O objetivo do laboratório era produzir materiais adaptados e capacitar os cegos para o mercado de trabalho, ao ajudando-os a dominar os recursos dos softwares do pacote Office da Microsoft, que é utilizado através do programa de leitor de tela, Virtual Vision, desenvolvido pela empresa brasileira Micropower®. O laboratório ainda contava com uma impressora que transcrevia para a linguagem braille as informações impressas com tinta no papel. Tais recursos viabilizaram a produção de séries de estudos bíblicos, além de materiais didáticos utilizados pelas escolas públicas.

As aulas são divididas em seis módulos, nos quais o aluno aprende a datilografar, a utilizar softwares, produzir textos, confeccionar planilhas e navegar pela internet. Informações mais detalhadas sobre as aulas podem ser encontradas no capítulo 9 do livro Tecnologias para a Educação Inclusiva, lançado em 2008 pela editora Avercamp. Por sua vez, para este ano, segundo o professor Sussumu, estão previstas a produção de livros falados e a implantação de um curso a distância para cegos. “Nosso objetivo é produzir esse material com a participação de alunos do Ensino Fundamental do Unasp. Seguiremos uma lista de livros paradidáticos e, no fim de 2011, queremos fazer uma cerimônia especial de entrega desses materiais para a biblioteca do campus, a fim de atender nossa comunidade e outros cegos ao redor do Brasil”, conclui.

Olhos artificiais - A interação dos cegos com o computador foi algo que também chamou a atenção de Jean Rafael Soares e Silva, de 22 anos. No seu trabalho de conclusão de curso de Engenharia de Controle e Automação, na Universidade Metodista de Piracicaba, interior paulista, ele pesquisou sobre os recursos convencionais e eletrônicos de auxílio para os deficientes visuais. Segundo Jean, os cegos podem contar com alternativas das mais simples às mais complexas, desde voluntários que se disponham a ler para os deficientes até tecnologia avançada e protótipa, conhecida como BrainPort. Esse sistema se baseia numa câmera digital montada num óculos que envia informações para uma unidade de controle e processamento portátil que o usuário carrega consigo. Nessa unidade, a imagem é processada e transmitida por meio de um cabo para a matriz de eletrodos que estimula eletricamente a língua do paciente. Cada eletrodo da matriz corresponde a um grupo de pixels. E a intensidade de cada pulso elétrico equivale ao “tom” do objeto, dos mais claros aos mais escuros.

“Na minha opinião, esse protótipo é bem promissor, pois permite que os cegos localizem talheres, copos, portas, botões de elevador e até realizem a leitura de letras grandes sem 'tateamento'. Além disso, não é um método invasivo, pois não é necessária intervenção cirúrgica”, avalia Jean. Para o jovem engenheiro, a Igreja Adventista poderia produzir seus materiais em outras plataformas a fim de atender melhor os deficientes visuais, como livros digitais com recursos de leitura em áudio.

A fé vem pelo ouvir – Apesar de estar longe do ideal quanto à preocupação com a inclusão dos cegos, algumas iniciativas importantes de instituições adventistas têm contribuído para mudar essa realidade. Desde 2009, a Casa Publicadora Brasileira (CPB) tem lançado audiolivros de títulos de Ellen G. White e de obras que tiveram tiragens expressivas. Segundo o coordenador do Musicasa, divisão de produções artísticas da CPB, José Newton, esses materiais podem atender a diversos públicos: “analfabetos, crianças não alfabetizadas, aqueles que têm pouco tempo para ler e preferem ouvir a narração de um livro enquanto fazem exercícios ou dirigem, além das pessoas com deficiência visual total ou parcial.”

O primeiro audiolivro, O Amanhã Começa Hoje, teve a produção de Sandro Barcelos, que tem deficiência visual parcial e a maior parte do livro foi narrada por sua esposa, a cantora Melissa Barcelos, e seu irmão, Altair Barcelos. Sandro se interessou por audiolivros quando descobriu que tinha retinose pigmentar, uma doença degenerativa que acarretou em sua aposentadoria precoce. Ele não consegue dirigir ou mesmo distinguir um rosto a mais de meio metro de distância.

Porém, não fez dessa limitação uma desculpa para o desânimo. Decidiu emprestar sua voz grave para interpretar as palavras de esperança de Cristo no audiolivro Vida de Jesus. Aos 39 anos, o ex-locutor que trabalhou alguns anos na Rádio Novo Tempo, se diz muito realizado em ter participado de um projeto que leva conforto a outras pessoas com necessidades especiais. Comprometido com o ministério musical da esposa, Sandro viaja com ela, trabalhando como seu técnico de som.

Em cada apresentação, e com o auxílio de um sonoplasta local, ele memoriza as posições dos controles e opera a mesa de som.

Jornalistas como Fabiana Bertotti e Ana Paula Ramos, além dos pastores Neumoel Stina e Ronaldo Arco também já usaram também a voz para narrar livros como Homens de Poder, Conhecer Jesus é Tudo e O Maior Discurso de Cristo. Em alguns casos, os audiolivros acompanham sua versão impressa. Em outros, como a obra Vida de Jesus, são vendidos separadamente, em média, pela metade do preço do livro em papel.

Em matéria de 7 de outubro de 2010, do portal Aprendiz, do site UOL, ficou claro que há muito que se fazer por esse grupo. Primeiro, porque não são poucos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, no Brasil, os cegos representam 0,6% da população ou 1,1 milhão de habitantes, além dos 4 milhões que têm algum tipo de deficiência visual. Em segundo lugar, porque eles leem sete vezes mais do que os brasileiros que enxergam. Enquanto os que têm a visão perfeita leem, em média, 1,3 livro por ano, os deficientes visuais que frequentam a Biblioteca Circulante de Livro Falado da Fundação Dorina Nowill para Cegos, leem cerca de nove obras no mesmo período. A explicação é simples. Não é fácil o acesso do cego aos produtos culturais adaptados não é fácil. Logo, quando ele tem, aproveita ao máximo. Só para se ter uma ideia, estima-se que apenas 9% das bibliotecas públicas municipais possuem livros em braille.

Um ministério - Em 1990, quando a sede mundial da Igreja Adventista oficializava uma nova frente evangelística, chamada Missão Global, no Brasil, o pastor Oder Fernandes de Mello, fundava a Sociedade Bartimeu de Apoio aos Cegos, como uma instituição da Associação Paulista Central, com sede em Campinas, SP. Na época, ele era o diretor de Missão Global da sede administrativa. Além do pioneirismo do pastor, o que favoreceu a estruturação desse ministério foi a nova maneira de ver com que os adventistas passaram a entender sua missão. Mais do que avançar territorialmente, fincando a bandeira do evangelho em países e cidades não alcançadas, é preciso evangelizar grupos específicos, como etnias, tribos urbanas, classes sociais e pessoas com necessidades especiais.

Desde o início, o trabalho contou com significativas conquistas: uma sala exclusiva no prédio da associação e uma doação de 24 mil dólares da ADRA Internacional. Cerca de metade desse dinheiro foi investida na compra de uma impressora em braille.

Daí para frente muita coisa foi realizada: congressos nacionais de cegos adventistas, gravação de lições da Escola Sabatina e de livros de Ellen G. White em áudio, aquisição de equipamentos e móveis, bem como a concessão de bolsas de estudo para alguns deficientes visuais. O pastor Oder se lembra de vários cegos que conseguiram estudar, trabalhar e se casar graças a esse ministério. Outros também se tornaram adventistas. Alguns materiais produzidos no Brasil também foram enviados para Moçambique.

Ao longo desses 20 anos, várias vezes a sociedade mudou de sede e diretoria. Atualmente, está vinculada à Associação Paulista Sudoeste, em Sorocaba, SP, mas sediada no Unasp, campus Hortolândia, sob a liderança do professor Moisés Sanches. Hoje, com 70 anos e há 5 anos aposentado, o pastor Oder não se desvinculou completamente do ministério. Ele ainda grava as lições da Escola Sabatina, as quais envia trimestralmente para 50 cegos. E, na sua casa, em Engenheiro Coelho, SP, ele guarda boa parte das fotos e documentos que contam a história da instituição.

A dedicação do ministro pelos deficientes físicos sempre esteve baseada em algo mais importante do que sua função. “Quando eu era menino, minha mãe era muito abnegada. Recebia cegos e surdos e os hospedava no cômodo do fundo de casa”, explica a fonte de sua inspiração. E é por causa desse cuidado especial para com os grupos minoritários, que o pastor Oder acredita que a Igreja Adventista ainda faz um trabalho tímido com certos segmentos da sociedade: “Há um potencial evangelístico tremendo em se trabalhar com cegos, surdos, ciganos, árabes e judeus, porém, temos a tendência de só fazer o arroz com feijão”.

Com os olhos da fé - O programa de PhD da Andrews University, nos Estados Unidos, é conhecido por seu grau de dificuldade, especialmente na área de Teologia e nas especializações que envolvem línguas bíblicas, como estudos no Antigo Testamento. Se para todo aluno se familiarizar com grego, hebraico e escrita cuneiforme exige esforço, quanto mais para um cego. É difícil, mas não impossível. Foi o que provou Ray McAllister que, em agosto do ano passado, foi o primeiro cego a receber o título de doutor no mais prestigiado seminário adventista do mundo. McAllister, 35 anos, completou o doutorado em dez anos, o dobro do tempo do programa normal. Nada mal para quem teve que estudar hebraico em braille e decorar as aulas que lecionaria nos estágios, além de digitalizar as anotações de classe para que um computador pudesse “ler” o conteúdo para ele. É verdade que o esforço foi compensado pela ajuda de uma amiga, Sally Ann Trottier, que mais tarde se tornou sua esposa. Sally gravou as inscrições cuneiformes sobre cartões para que McAllister as pudesse ler. Ele nasceu com uma doença degenerativa do olho. Aos cinco anos, um olho foi retirado, e aos 12 anos perdeu a visão no outro, resultando em cegueira completa.

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