Cerimônia Ecumênica marca o velório das vítimas do maníaco de Luziânia

Cerimônia Ecumênica marca o velório das vítimas do maníaco de Luziânia

Atualizado: Quinta-feira, 13 Maio de 2010 as 9:38

Parecia o fim do filme ruim. Cinco caixões, um ao lado do outro. O lugar, um ginásio de esportes, o maior da cidade, a 66km de Brasília. Não faltou nada ao cenário da vida real. E Luziânia, finalmente, contou, um a um, os seus meninos mortos. Cinco foram enterrados no Cemitério Jardim da Consolação, a 4km do centro do município goiano. O sexto, a pedido da família, foi levado para o Gama. E a vida, despedaçada, derramou as lágrimas das mães que choram há quase cinco meses.

O filme ruim chegou ao fim. A luta, na vida real, está mais real. E aquelas seis mães — a sétima aguarda apenas o laudo conclusivo do IML para enterrar o filho — terão onde chorar seus prantos. E gritar, a hora que quiserem, sem medo de incomodar o vizinho. Ou parecer louca, descontrolada. "Eu sei onde posso achar meu filho agora. Sei onde posso visitar quando sentir saudade", diz Sônia Vieira de Azevedo, de 45 anos, mãe de Paulo Victor.

Na manhã de ontem, Luziânia parou. A população foi ver a barbárie de perto. Como se quisesse comprovar que tudo era real. Na ficção, inventam-se até mortes. Munidas de máquinas fotográficas e celulares equipados com câmeras, elas entraram no Ginásio de Esportes José de Araújo Leite e dispararam fotos.

Queriam provar que tudo era verdade. "Eu não conhecia nenhum deles, nem as famílias, mas precisava vir aqui. Só vendo, a gente passa a acreditar", explica a comerciária Juliana de Souza, 28, que usou a hora do almoço para ir ao lugar onde os meninos que comoveram o país eram velados. Na quadra de esportes, estavam Divino, 16 anos, George, 17, Flávio, 14, Márcio, 19 e Paulo Victor, 16. O mesmo caixão, lacrado. Sobre eles, uma Bíblia chumbada e a camiseta com a foto, a mesma que suas mães usavam quando ainda os procuravam.

Sofrimento e cansaço

Rosas vermelhas repousavam espalhadas em cima do caixão. Atrás, gigantescas coroas de flores, enviadas por políticos goianos àquelas famílias que sempre viveram à margem deles. Eles, sobretudo em época de campanha, sempre fazem questão de se mostrar presentes. Mesmo que em coroas de flores ao lado do corpo de quem nunca viu.

Sônia, a mãe de Paulo Victor, andava de um lado para o outro. Mesmo aos pedaços, ainda achou força para consolar as outras mães. "É dor, é sofrimento, é cansaço. Foi um filme de terror", diz. E constata, olhando com os olhos perdidos, para aquele ginásio cheio de caixão lacrado. "Nada mais será a mesma coisa. Na mesa, faltará sempre a presença dele".

De repente, Sônia se reveste de uma fortaleza admirável. É como se toda a dor se transformasse em energia: "Nossa luta, a de todas as mães, continua. Há muita coisa que precisa ser esclarecida. Não acreditamos que ele se matou na prisão. Muito menos que matou nossos filhos sozinho. Vamos fundar uma ONG. As leis para pedófilos precisam mudar".

Enquanto Sônia falava em juntar forças, a mãe de Márcio, Maria Lúcia Souza Silva, 55, perdia o resto que ainda tinha. Desmaiou três vezes, ao lado do caixão do filho. Tudo que não conseguiu chorar nesses quase cinco meses de angústia, desabou na manhã de ontem. "Esse bandido levou a metade de nós, matou a gente pouco a pouco", diz a filha de Maria Lúcia, Lúcia Maria Souza Lopes, 25, que chorava enquanto amparava a mãe. E dizia: "Eu não vi o corpo do meu irmão. É difícil aceitar a morte assim".

Apertos de mão

O entra e sai de gente no ginásio de esportes durou a manhã inteira. As escolas onde os meninos mortos estudavam liberaram os alunos. Pessoas aproveitaram a hora do almoço para ver o que só viam pelos jornais e pela televisão. Curiosos de todas as idades. Pelo menos três mil pessoas estiveram no velório durante toda a manhã.

Um homem se plantou na porta do ginásio e começou a distribuir panfletos aos que chegavam. Dizia morar em Taguatinga e ser missionário. Levou para Luziânia mais de dois mil exemplares de mensagens bíblicas intituladas Vida após a morte. Foi o seu ofício do dia.

Convicto, afirmava: "Ninguém pode duvidar que existe vida depois da morte. Essa é a mensagem que quero deixar para essas pessoas, principalmente a essas mães que sofrem tanto". E o homem seguiu sua missão no ginásio dos meninos mortos. Passava das 11h quando o senador Marconi Perillo (PSDB) chegou a Luziânia, cercado por assessores e pelo prefeito da cidade, Célio Silveira, também do PSDB.

De terno preto, andar comedido, o senador esteve junto aos cinco caixões. Falou com mães e familiares dos meninos, apertou a mão de populares com olhar consternado. Quinze minutos depois, o senador-candidato ao governo do Estado de Goiás deixou o local. O prefeito Célio Silveira também foi embora.

O vendedor de picolé Nelson Antônio de Oliveira, 48, também foi ao ginásio. Faturou uns trocados. "Cheguei aqui às 9h. Fiquei muito perturbado com isso tudo. Quando ouvi o povo dizendo que meninos tavam sumindo em Luziânia , avisei pros meus filhos que não aceitassem carona nem dinheiro de ninguém. Todo mundo que tem filho ficou apavorado."

Um grupo católico, da Paróquia Nossa Senhora de Aparecida (Capela Rosa Mística), cantou no palco do ginásio pintado de azul e amarelo. Raimunda Lopes, 39 anos, funcionária da prefeitura, foi ao local. Tirou a hora do almoço para se despedir de quem nunca viu. E chorou como se parte de uma daquelas famílias fizesse.

"Tudo que vi foi pelos jornais e pela televisão, mas tinha obrigação de estar aqui. Tenho dois filhos, de 8 e 13 anos. A gente se coloca no lugar das mães". E explica o choro que molhou o rosto ainda perplexo e amedrontado com tamanha barbaridade: "É choro de emoção. Tudo isso foi muito cruel, meu Deus! Pelo menos agora elas vão saber onde os filhos estão, né?".

"Muita vergonha"  

Depois de velar o corpo de Eric no ginásio de esportes da cidade, a família do garoto preferiu enterrá-lo antes, em uma cerimônia discreta

Era perto do meio-dia, quando o padre Célio Amaro começou a pequena pregação. Citou trechos do livro do profeta Ezequiel. E repetiu: "Será que esses ossos poderão reviver?" Depois, citou o nome de cada mãe ali presente. Chamou-as de guerreiras. E respondeu à indagação que fez no início, usando as palavra de Deus: "Colocarei em vocês o meu espírito e vocês viverão". E o homem de batina se penitenciou: "Eu estou com muita vergonha de ter feito tão pouco por esses jovens". Em seguida, pediu para que todos ali presentes se dessem as mãos. Rezou um Pai Nosso com mães em lágrimas.

Depois, o pastor Gaspar Bernardes falou trechos da Bíblia. Também amparou as mães. E pediu: "Espírito Santo, console os nossos corações..." A católica Sônia, mãe de Paulo Victor, e a evangélica Valdirene Fernandes, 37 anos, mãe de Flávio (que ali foi velado, mas o único enterrado no Gama), abraçaram-se. E agradeceram todo o apoio que receberam nesses intermináveis quase cinco meses de desespero.

Às 13h45, os caixões deixaram o ginásio de esportes. Um a um — dos cinco enterrados no Jardim da Consolação — foi colocado no carro do Corpo de Bombeiros. Saíram sob aplausos daquela gente anônima. Já não havia mais políticos por perto. O caixão de Paulo Victor, o último a deixar o local, foi enrolado com a Bandeira do Brasil.

O cortejo seguiu por algumas ruas movimentadas da cidade. O povo deixou suas casas, largou a louça suja na cozinha e correu para as calçadas. Acenou para as famílias. Alguns choraram. Às 14h30, o último caixão, o de Márcio, foi enterrado. A terra cobriu as flores vermelhas. Choro dos familiares e amigos dos seus filhos.

De longe, uma mulher assistia a tudo. Vez por outra, limpava uma lágrima que se juntava à poeira do cemitério de terra batida. A dona de casa Anita Soares, 51 anos, e seis filhos, foi de carona até ali. Nem a distância a demoveu da ideia. "Nunca vi esses meninos nem essas mães, mas precisava tá aqui". E ela continua, como se estivesse em estado de letargia: "A procura delas (das mães) terminou, mas o vazio fica. Nada no mundo é capaz de ocupar o lugar de um filho. Cada um é um".

O filme ruim chegou ao fim. E o que restou desse pesadelo, de concreto, além da infindável dor e do desalento, foi um endereço certo para o choro que será por toda a vida.

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