Chamados para expulsar demônios

Chamados para expulsar demônios

Atualizado: Segunda-feira, 22 Março de 2010 as 12

Valdir Steuernagel

Os meus anos de faculdade de teologia já vão longe, mas de algumas cenas ainda me lembro. Na porta do edíficio central da faculdade havia um cartaz com esta citação de um famoso teólogo alemão: "É impossível usar a eletricidade e o telefone sem fio, apossar-se das descobertas médicas e cirúrgicas e, ao mesmo tempo, crer no mundo dos espíritos e nos milagres do Novo Testamento".

Como aqueles anos eram marcados, especialmente na Europa, por uma teologia secularizada e secularizante, e a minha faculdade tinha uma forte dependência da teologia alemã, citações como esta do teólogo da desmitificação Rudolf Bultman eram normais. Ao vê-la, um amigo meu, que não estudava teologia, comentou: "Pois, aqui no Brasil, as pessoas veem os milagres pela televisão...".

Teólogos como Bultman tornaram-se mais raros e hoje vivemos novamente numa época em que a realidade do transcendente é percebida como real. No universo do meu trabalho, o das organizações humanitárias, é uma verdadeira febre afirmar que a fé é um componente essencial no caminho do desenvolvimento humano. Porém o reconhecimento da transcendência e da fé hoje é bem atual, diferente dos dias de Bultmann. É, no entanto, um reconhecimento muito voltado para a busca de expressões de fé que sejam nativas, culturais e étnicas, e não necessariamente significa uma abertura para o evangelho de Jesus Cristo e sua intervenção na vida real, gerando cura e libertação. Na realidade atual tudo vale. Cada um escolhe o seu caminho e nenhum é melhor do que o outro. Mas não é disso que testemunham os Evangelhos. Neles não apenas se afirma a realidade do transcendente e a sua invasão na nossa realidade, mas também se vê o efeito disso na vida das pessoas e comunidades. Nos Evangelhos, o demônio é real. Ele oprime, assalta, violenta e quer matar as pessoas, enquanto Jesus busca libertá-las e agraciá-las com o dom da vida. Na presença de Jesus ele se manifesta com rapidez e clareza incríveis. Sabe muito bem quem Jesus é e sente-se profundamente ameaçado por ele.

Chamados para expulsar demônios!

Ao continuarmos refletindo sobre a vocação dos discípulos - e, em extensão, a nossa - vemos muito claro que eles são "chamados para expulsar demônios" e recebem "autoridade" para isso.

1. O chamado para expulsar demônios é consistente e claro. Os Evangelhos Sinóticos afirmam de forma unânime que esta é uma responsabilidade e um ministério daqueles que são chamados por Jesus para o discipulado. Isso é consistente porque é real. Pessoas marcadas pela presença de "espíritos imundos" estão por toda parte, e é só Jesus aparecer que eles não conseguem mais esconder quem são e o que querem.

2. A realidade e a necessidade deste ministério são vistas muito claramente na própria vivência de Jesus. Os demônios, às vezes chamados de "espíritos" ou "espíritos imundos", estão sempre se manifestando. Não é Jesus quem os chama; eles é que, à simples presença de Jesus, sentem-se ameaçados e não conseguem se disfarçar. Gritam, esperneiam e tentam aparentar força, mas sempre acabam se subjugando à palavra-presença de Jesus. "O que queres conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus", diz o espírito imundo. E, quando Jesus o repreende, o típico comportamento possessivo e estabanado se revela: "O espírito imundo sacudiu o homem violentamente e saiu dele gritando" (Mc 1.24-25).

3. Os discípulos não têm uma convivência fácil com essa realidade, nem sabem discerni-la; atrapalham-se ao tentar exercer essa "autoridade de Jesus". Certa ocasião, ao tentarem atender o pedido de um pai desesperado com o intenso sofrimento do filho, eles só complicam a coisa ainda mais. Nada conseguem e ainda têm de ouvir o pai do menino dizer a Jesus mais tarde: "Pedi aos teus discípulos que expulsassem o espírito, mas eles não conseguiram". Aliás, ainda vão ouvir Jesus exclamar: "Ó geração incrédula, até quando estarei com vocês? Até quando terei que suportá-los?" (Mc 9.18-19).

4. Quando afinal parecem ter conseguido, por ocasião do envio dos setenta e dois, ainda acabam "trocando as bolas", conforme o relato de Lucas. Ao vê-los celebrar ("Senhor, até os demônios se submetem a nós, em teu nome!"), Jesus diz que já sabia e que ele é quem lhes dera autoridade para isso. E em seguida lhes recorda a prioridade das coisas: "Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus" (Lc 10.17-20).

Ainda que se possa dizer que a manifestação de espíritos é comum neste nosso país das possessões reais, imaginárias e às vezes até fabricadas, sempre é difícil discernir os espíritos e exercer sobre eles a autoridade necessária, delegada mas nunca autônoma.

O mais fácil é caminhar para os extremos - ambos falsos e arrogantes. Num, nega-se a realidade demoníaca, que é sempre opressora e violadora dos direitos humanos; e, no outro, ela é absolutizada, para logo ser "dominada" com uma certeza que os próprios discípulos nunca conseguiram.

Reverente, eu me prostro vazio diante do Pai e, contrito, olho para a nossa realidade de dor, sofrimento e violentação da própria humanidade. Surpreso, vejo-me chamado por Jesus para ser revestido da autoridade que liberta e proclama a vida em seu nome, e então suplico por olhos que nunca deixem de ver o nome inscrito no coração do Pai.

• Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

veja também