"Chorei com a dor de mãe que perde para sempre", diz Christiane Yared

"Chorei com a dor de mãe que perde para sempre", diz Christiane Yared

Atualizado: Segunda-feira, 24 Janeiro de 2011 as 2:20

Na madrugada de 07/05/09 os jovens Gilmar Rafael Souza Yared (26 anos) e Carlos Murilo de Almeida de (20 anos) sofreram um grave acidente automobilístico em Curitiba (PR), que os levou à morte. Ao virar na esquina da rua Paulo Gorski com a Monsenhor Ivo Zanlorenzi, os dois rapazes foram surpreendidos por um carro - segundo testemunhas e comprovado pela perícia - que vinha em alta velocidade, conduzido pelo então deputado Fernando Ribas Carli Filho. Posteriormente, no dia 18/05/09, o resultado de um exame de dosagem alcoólica comprovou que o político estaria, naquela noite, impossibilitado de dirigir, por conta de efeitos do alcool. Após decisão do juiz da 2ª Vara do Tribunal do Júri de Curitiba (PR), Daniel Surdi de Avelar, Carli Filho irá a júri popular.

Em entrevista exclusiva ao Guia-me, a pastora da Igreja Evangelho Eterno, Christiane Yared - mãe de Gilmar Rafael - falou, com lágrimas nos olhos, sobre a sua luta para que a justiça seja feita no caso, não somente da morte de seu filho, mas também para que outras mortes causadas por irresponsabilidades no trânsito tenham os seus culpados devidamente penalizados. Olhar a perda do filho pelos olhos da fé, apoiar famílias que se identificam com sua história e resistir a ameaças feitas a ela, foram assuntos abordados nesta conversa.

Confira a entrevista na íntegra:

Guia-me: O Ex-deputado Carli Filho irá a juri popular sob a acusação das mortes de dois jovens, entre eles, o seu filho Gilmar Rafael Yared. Mesmo antes do resultado, essa medida da justiça já pode ser considerada uma vitória?

Christiane Yared: Sabemos que este foi o primeiro passo, ainda há muito para caminhar, a única vitória que estabeleceu-se foi que a Justiça começou a encarar crimes de trânsito com outros olhos, e isto é muito importante, pois cremos que assassinos de trânsito devem ser punidos.

Guia-me: Após você ter começado a liderar protestos e lutar pela punição dos responsáveis pelo acidente de seu filho, a senhora afirma terem te oferecido suborno para se calar e até mesmo terem feito ameaças. Como você reagiu a isso, na prática? Isso mudou de alguma forma as suas ações relacionadas a esse caso?

Christiane Yared: Nossos filhos são o bem maior que Deus nos dá, tenho certeza que o pai ou a mãe que ama, teria a mesma postura que tive, ao enfrentar suborno e ameaças comecei a entender o verdadeiro valor que nossos filhos têm, como daríamos tudo para tê-los novamente e enfrentaríamos todos por eles. Acabou por me fortalecer e entendi em que mundo político vivemos, de como é triste a vida dos que não crêem na eternidade e roubam o pobre, a viúva e os menos favorecidos.

Guia-me: Falando como pastora / mulher cristã, de que forma a sua fé tem agido na superação da dolorosa perda de um filho, como na sua história?

Christiane Yared: Naquela tarde fria que plantei meu filho não consegui ver a árvore frondoza que se erguia, em meio a tantas lágrimas, não conseguia entender como Deus em seu amor e misericórdia tinha recolhido meu filho se ele estava longe de Jesus. Chorei com a dor de mãe que perde para sempre, pois meu filho amado estava perdido em tantas ilusões que o mundo oferece. Naquela tarde que antecedeu a tragédia mau sabia eu que o meu Deus já estava mudando o rumo de minha história, meu filho liga para um amigo da igreja Batista e pede para acompanha-lo ao culto daquela quarta feira, acontecia a Operação Resgate, o pastor que trazia a mensagem inspirada pelo Espírito, convida ao pecador a reconciliar-se com Jesus, pois para isto Deus tinha enviado seu filho ao mundo, para resgatar o pecador do pecado. Em lágrimas Rafael atende ao apelo e ao voltar ao banco confessa ao amigo que Jesus o havia resgatado, disse: "Antonio, Hoje Jesus me resgatou, domingo é dia das mães e darei de presente para minha mãe o retorno à igreja". Acabando o culto saíram para jantar pizza com suco e no decorrer das horas ele contou ao amigo como foi bom o tempo que viveu com Jesus. Já passava da meia noite o celular tocou, era o amigo Carlos Murilo pedindo uma carona, ele convida o Antonio para buscar junto o amigo, mas graças a Deus ele recusou, pois esta história teria sido perdida em meio ao amontoado de ferro e sangue que ficou naquela rua.

Os dias que seguiram foram dias de muita dor,acompanhados pelo medo que envolvia o caso, ameaças, propostas ordinárias e um plano para acusar os meninos se levantava com tanta força que mal podiamos deixar de orar sem cessar.

Hoje com o coração não menos doído, mas com a esperança de rever meu filho, e com a alma grata por tão linda história de amor de Deus para com a minha vida, só posso pensar que existe um plano divino em meio a tudo isto.

Guia-me: Após a perda de seu filho, a senhora passou a ajudar outras pessoas que perderam entes queridos em acidentes de trânsito, provocados por alguma irresponsabilidade da outra parte. Como é trabalhado o conforto dessas famílias em encontros assim?

Christiane Yared: Quando estas famílias nos procuram elas vem sem esperança e procurando um culpado, normalmente acreditam que é Deus. Por que Deus não salvou meu filho? Onde estava Deus, que não fez nada?

A resposta deve ser dada com muito amor, Deus não tem culpa, se há um culpado, somos nós, só nos importamos quando é o nosso filho!

Quando um filho morre, a mãe não quer mais viver, não toma mais banho, não limpa mais a casa, não cozinha, passa ou se importa com os outro, o pai perde o filho e também a esposa, que não o quer mais, os filhos que restam querem ser o que morreu, pois o que morreu tem mais atenção que ele que está vivo. Há uma dissolução da família. É preciso ajudar pois a esperança se vai e a vida com ela.

Nessas reuniões deixamos a pessoa falar, por tudo pra fora, depois trazemos a Palavra de consolo, oramos juntos, choramos juntos e nos apoiamos uns nos outros.

O Consolo divino cai como chuva fina, acalma o coração desesperado e renova a certeza de um reencontro, só mesmo este Deus magnífico para nos ajudar.

Guia-me: A senhora encara a superação como um recomeço ou a necessidade de continuar?

Christiane Yared: Não há superação, creio que nunca haverá enquanto vivermos aqui, nenhum pai ou mãe supera a morte de um filho, não há dor mais intensa ou mais cruel.

O que nos faz viver é a esperança de que Jesus voltará e com Ele veremos os nossos novamente.

É esta esperança que nos faz continuar.

Por João Neto - www.guiame.com.br

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