Cinco problemas do neopentecostalismo

Cinco problemas do neopentecostalismo

Atualizado: Quinta-feira, 20 Outubro de 2011 as 11:50

Desde que escrevi o artigo A preocupação com o neopentecostalismo: o caso da Igreja Universal do Reino de Deus, publicado na revista Ultimato nº 328 (jan-fev/2011), senti que deveria apresentar as razões que o justificam. Mencionei que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e demais igrejas similares têm contribuído para a “crise soteriológica no Brasil, imunizando muitos contra o Evangelho, embora pensem ser crentes”. Tanto o presente artigo quanto o anterior não têm o propósito de fragilizar os seguidores do neopentecostalismo, pelo contrário, a minha intenção é abençoá-los. Além disto, desejo chamar a atenção de meus colegas evangélicos para o ensino de base não evangélica proveniente de certos segmentos religiosos.

O termo “evangélico” só deveria ser concedido a um grupo cujo ensino fosse coerente com o Evangelho de Jesus Cristo conforme revelado nas Escrituras. Embora algumas igrejas possam levar seus adeptos a experimentar certos benefícios, contam com falsos mestres que deveriam ser descartados como evangélicos, juntamente com seus respectivos grupos, por distorcerem o Evangelho (Gl 1.6,7). Não há ensino que deva ser comunicado com mais fidelidade do que a mensagem evangélica da salvação. Devemos nos lembrar do que está em jogo na vida das pessoas: o céu e o inferno. Portanto, este não é um assunto qualquer (1 Tm 4.16).

Procurei destacar cinco problemas existentes na mensagem da salvação pregada pela IURD, que também podem ser encontrados, com algumas alterações, em denominações similares. Minhas evidências se baseiam no intenso acompanhamento de programas de rádio, sermões, conversas com adeptos e leitura de livros do Bispo Edir Macedo. Jesus disse que podemos identificar uma árvore por seus frutos. Então, examinemos o fruto com base no que realmente é propagado pela denominação.

1º problema: estudo da salvação = teologia = paradoxo

Em "Libertação da Teologia", Macedo afirma que o estudo teológico é uma atividade fútil e contraproducente aos esforços evangelísticos. No entanto, tal afirmação consiste em um dos muitos paradoxos desta denominação. Primeiramente, a IURD apresenta, em sua página na Internet, uma declaração de fé que demonstra a importância de suas crenças. Em segundo lugar, Macedo alega ter concluído diversos graus, alguns dos quais em Teologia, e é chamado de teólogo na capa de seus livros. Por último, em alguns de seus livros como, por exemplo, nas "Doutrinas da Igreja do Reino de Deus Vol. 3", o Bispo adverte seus seguidores contra falsas doutrinas. Além do mais, os líderes eclesiásticos são responsáveis, perante Deus, pelo conteúdo de sua pregação, independente do que pensem acerca da reflexão teológica.

2º problema: A ênfase exagerada na prosperidade gera complicações

Macedo afirma, com frequência, que o Evangelho inclui: bênçãos financeiras, benefícios físicos e salvação eterna, sendo estes três elementos promessas divinas e direitos de todos os seguidores de Cristo. Além disto, alega que o Evangelho é a chave para a libertação de sofrimentos demoníacos tais como a “desgraça” e a “miséria” ("Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios?", 2006, p. 120). Esta premissa compõe o enredo principal e a especialidade ministerial da IURD. O problema é que tal ênfase acaba por redefinir a mensagem evangélica da salvação, colocando-a, dramaticamente, em segundo plano. Mesmo que esta distorção possa parecer sem importância, veremos que suas implicações são muito sérias.

3º problema: fé = sacrifício

É verdade que a IURD afirma que a salvação vem “pela fé no Senhor Jesus Cristo” e que a pessoa deve “aceitar Jesus”. No entanto, estas frases têm seu significado bíblico alterado pelo que o Bispo Paulo Ayres Mattos chama de “teologia sacrificial” de Macedo. Atrelada à ênfase na prosperidade e saúde, a necessária libertação das misérias e mazelas demoníacas é obtida, principalmente, pela fé, e o sacrifício pessoal é a principal manifestação da fé. Na verdade, a fé praticamente se transforma em sinônimo de sacrifício, tendo como carro-chefe os dízimos e as ofertas.

4º problema: salvação = um estado precário

Em uma das obras mais reveladoras acerca de sua visão sobre a salvação ("Nascimento Novo", 2008), Macedo afirma que “a pessoa aceita Jesus, mas, a partir deste instante, tem que manter a salvação através do seu próprio sacrifício com Deus até o último dia”, caso contrário, a salvação é anulada (p. 15). Esta versão da salvação acaba por se constituir em um estado vulnerável, pois é difícil mantê-la. Olhando deste ponto de vista, parece que a pessoa não “é salva”, mas apenas “está salva”. Permita-me ilustrar. O bispo acredita que, provavelmente, foi melhor ao ladrão arrependido, que fora crucificado ao lado de Jesus, ter morrido logo após sua confissão de fé (p. 34). Por quê? Aquele homem não teve tempo de cair no pecado, perder sua fé ou renunciar a Cristo, o que, possivelmente, teria acontecido uma vez que ele não tinha nascido de novo. E isto nos leva ao próximo ponto.

5º problema: visão estranha sobre o novo nascimento

Utilizando João 3.1-21 como um de seus principais textos de prova para sua versão do novo nascimento, Macedo se concentra nas palavras “nascer da água e do Espírito”. A primeira etapa exige que a pessoa “aceite Jesus” e depois que ela passe pelas águas do batismo. Segundo a cosmovisão iurdiana, esta etapa fornece alguma resistência contra as obras da carne, mas a pessoa precisa de algo mais para lutar contra o demônio que ainda pode estar alojado em seu íntimo (p. 24). A segunda etapa é semelhante à experiência pentecostal do segundo batismo, porém com uma alteração que somente o bispo pode descrever (p. 35). Quando a pessoa entrega todo o seu ser a Jesus e está disposta a obedecer a sua Palavra, naquele exato momento: ...Deus, na Pessoa do Espírito Santo, vem sobre o candidato e, assim como envolveu a Virgem Maria e nela concebeu um Ser divino, também envolve o candidato, transformando-o espiritualmente numa nova criatura, isto é, num ser divino.

É a partir daí que a pessoa se torna, verdadeiramente, filha de Deus. Enquanto isso não acontecer, ela pode até ser salva, mas precisa nascer de Deus.

O Espírito testifica ao seu espírito?

O Espírito Santo prometeu nos guiar a toda verdade. O Espírito testifica ao seu espírito que minhas afirmações estão corretas? Ou seja, que a IURD e outros grupos que ensinam este tipo de discurso contribuem para o crescimento da crise soteriológica em nossa nação?

É importante reafirmar que meu objetivo é oferecer embasamento, mediante a observação da IURD, para a fonte de preocupação que o movimento neopentecostal representa ao avanço evangélico e seu futuro. Agora faz sentido como uma obreira sincera e comprometida, que ama a Deus e a IURD, acredita, erroneamente, em um evangelho baseado no esforço humano e nos rituais religiosos. Infelizmente, uma pessoa pode ser sincera e, ao mesmo tempo, está sinceramente enganada.

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Por David Allen Bledsoe, missionário batista e trabalha com evangelismo, expansão de igrejas e educação teológica, e coordena projetos do Southeastern Baptist Theological Seminary no Brasil. Possui D. Min. e D. Th. em Missiologia. O neopentecostalismo foi o assunto de sua tese de doutorado na Universidade da África do Sul, em Pretória (2010).

Via Ultimato    

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