Coluna - Eduardo Cupaiolo

Coluna - Eduardo Cupaiolo

Atualizado: Segunda-feira, 18 Fevereiro de 2008 as 12

Planos Passados para o Futuro - Parte I

Chegou dia 31. Chegou e já passou. Foi a hora de seguir as tradições de boa sorte e prosperidade. Sete ondas foram puladas,lentilhas comidas, vestiu-se branco e calcinhas amarelas ou dependendo dos desejos para o Ano Novo.

Uns passaram anônimos na multidão da praia para ver os fogos e viram também os de fogo. Outros nas sacadas com seus familiares e amigos - termos, por vezes, conflitantes -, outros na companhia apenas de si mesmos, no meio do mato balançando na rede e olhando as estrelas.

Os que puderam, passaram o reveillon num restaurante chicão de um hotel mais chicão ainda, deliciando-se com a delicadeza dos champagnes de Champagne. Outros, passaram no Bar do Chicão, bem longe de qualquer hotel, celebrando com sidra, ponche ou cerva gelada.

Houve festa embalada por orquestra de cordas, mas também por corda de berimbau, por beatbox, por Beatles Forever, Banda Eva e pela Ivete. No mar e na terra. Em volta de um faisão, de um peru, ou só mesmo, de uma asinha do frango.

Enfim, teve de tudo. Mas quaisquer diferenças acabam quando falamos de planos. Bilionários, milionários, ricos, nouveaux riches, classe A, B, C, D, E, F, turística e econômica, busão. Numerada, arquibancada, cadeira cativa. Todos nós e nóis tudu. Todo mundo. Ou quase todo mundo, fez planos e promessas para o Ano Novo. Promessas que sempre começam com a memorável frase "No ano que vem eu vou..." seguida de: parar de fumar, perder um milhão de quilos, aprender a falar inglês, aprender a falar português, cuidar mais da saúde, trabalhar menos, ser mais feliz, ganhar mais dinheiro, gastar menos dinheiro, ligar para a minha mãe, lembrar que a minha mãe existe.... e por aí vão.

O que todo mundo sabe é que a coisa não vai. Não vai mesmo. Basta tentar lembrar das promessas de 31 de dezembro de 2006.

- Lembrar? Lembrar do quê?

- Das promessas de 31 de dezembro de 2006!

- Como?? Num lembro nem do que comi ontem na hora do almoço!

É a Síndrome do "Ano que vem eu vou. E não vai. E não foi".

Quem precisa de um reveillon para mudar, não muda. Diz que vai mudar mas não muda.

Quem disse que ia emagrecer no ano que vem e lotou o prato no dia 31 "só pra migaranti" entra o ano com uma indigestão a mais. E dois quilos a mais. Depois diz que vai começar na segunda, mas não começa nem na primeira segunda, nem na segunda, nem na última.

Quem disse que ia parar de fumar, mas às 7 da manhã do Dia Primeiro acorda desesperado só para o último cigarrinho, vai acabar com o maço, com o pacote que ficou no armário da cozinha e depois vai passar a semana indo de meia em meia hora na padoca comprar no varejão sómais um... sómais um.

Enfim, quem já começa adiando para o dia 2, porque dia 1o. ainda é ano passado, vai deixar para na volta das férias, depois paradepois do Carnaval, depois para depois da Semana Santa...do Dia das Crianças, para enfim decidir que melhor mesmo é deixar para o Ano que vem!

Ri não, ri não. Somos todos assim. As ligações reconciliatórias ficam para amanhã pois hoje a tarifa não compensa. Ir lá também não compensa, o desvio de trajeto é muito grande para passar na casa dele, na dela, na da minha mãe, na daquele amigo, muito menos na daquele ex-amigo.

E assim, bem é assim que caminha a humanidade, diz o Lulu Santos, com passos de formiga e sem vontade. Sobram planos epromessas. Sobram desculpas. Só não sobra uma coisa. Não sobra vontade. Só isto. Não falta tempo, não faltam planos, não faltam promessas. Só falta vontade.

Se não é apenas falta de vontade pergunte para aquele teu amigo que no ano passado perdeu 10Kg, começou a andar e depois a andar mais, depois a correr, a acordar mais cedo, a dormir mais cedo, cortou gordura, caloria, carne vermelha, parou de fumar, e dia 31 (do ano passado) correu a São Silvestre quando há um ano nem conseguia amarrar o sapato sem o auxílio de um balão de oxigênio.

Pois é. Nas organizações também chegou a hora das promessas, corporativamente chamadas de reuniões de planejamento. Sessões em que primeiro revemos o que foi planejado para o ano passado contra o que ocorreu no ano passado. Sessões em que a conjuntura será a maior responsável pelo desajuste entre o planejado e o real. O dólar esteve muito baixo. Os juros, muito altos. A crise imobiliária nos Estados Unidos abalou o mercado. A mariposa bateu suas asas na floresta amazônica. A concorrência foi muito acirrada. O mercado esteve praticamente parado. Nosso produto, muito caro. As margens, muito pequenas. Os prazos, muito apertados. Os clientes, muito exigentes. Situação que me leva a algumas conjecturas:

Não foram exatamente estas, ou quase estas, as desculpas que demos no ano passado, no retrasado, e no outro, e no outro, e assim para trás até a primeira sessão de planejamento logo depois do Dilúvio Universal? Não é exatamente para enfrentar desafios e dificuldades e explorar possibilidades e oportunidades que se fazemos planejamento?

Por que o erro do Plano é sempre a realidade, nunca o Plano? Por que o problema é sempre as circunstâncias externas nunca as internas? Sempre do Plano, nunca de quem elaborou o Plano, nem de como planejamos?

Por que não planejamos o ano que vem, pelo menos, em setembro deste ano em vez de em fevereiro ou março do ano  que vem e perdemos 3 meses em vez de ganhá-los?

Por que só revemos o Plano agora, no começo deste ano, quando ele já está no IML? Só quando o dito cujo já bateu as botas, em vez de checarmos seu pulso diariamente?

Enfim, porque repetiremos neste ano os mesmos erros que vimos cometendo todos esses anos?

Quais sejam?

Eduardo Cupaiolo ([email protected] ) é fundador e presidente da PeopleSide organização dedicada ao desenvolvimento humano e organizacional e autor de Contrato Preguiçosos, conselhos pouco ortodoxos que tornam o ambiente de trabalho mais humano e produtivo, lançamento nacional da Editora Mundo Cristão e ganhador do Prêmio Arete de Literatura 2007.

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