Com apoio de ala evangélica, PT reclama de "satanização"

Com apoio de ala evangélica, PT reclama de "satanização"

Atualizado: Sexta-feira, 15 Outubro de 2010 as 9:43

Na tentativa de reverter a rejeição dos evangélicos ao nome da presidenciável Dilma Rousseff (PT), a coordenação da campanha petista no Estado e lideranças de 14 denominações do segmento criaram na última terça-feira, 12, o Comitê Evangélico Pró-Dilma. A organização surge em resposta à polêmica envolvendo a opinião de Dilma sobre o aborto. Em 2007, ela afirmou, durante uma sabatina, que era "absurdo" o Brasil não descriminalizar o ato. Agora, candidata à presidência, ela se posiciona contrária ao tema.

No entanto, para os pastores favoráveis à presidenciável, não houve qualquer mudança de opinião. Pressões políticas, calúnias de adversários e até mesmo campanhas apócrifas são apontadas por eles como justificativas para a polêmica, que colocou o aborto no centro das discussões neste segundo turno.

"Querem satanizar a Dilma. Não podemos aceitar calúnias, mas não devemos entrar nesta guerra", alertou o ex-secretário de Direitos Humanos da Presidência da República, Perly Cipriano (PT). Ontem, a coordenação de campanha reuniu cerca de 70 pessoas em um café da manhã para abordar o assunto. O prefeito de Vitória, João Coser (PT), o vice-governador, Ricardo Ferraço (PMDB), e a suplente de senador Ana Rita Esgário (PT) compareceram.

Na última semana, lideranças evangélicas já haviam declarado repúdio a Dilma. "O principal obstáculo agora é dissipar a onda de boatarias e calúnias. Nossa candidatura foi alvo de uma campanha suja, feita no submundo. É uma campanha apócrifa, que ninguém assumiu e que se espalhou pela internet", considerou o coordenador da campanha petista no Estado, Givaldo Vieira (PT).

"Política atrasada"

Para o pastor Josué King Ferreira, da Igreja Batista, os evangélicos devem defender o nome de Dilma. "Se for da vontade de Deus, não há mentira que Serra (o candidato do PSDB, José Serra) invente que nos derrube. Temos que partir para cima dessa política atrasada", conclamou.

O prefeito de Vila Velha, Neucimar Fraga (PR), que também é evangélico, participou do encontro. Ele chegou a se comparar a Dilma ao mencionar que, na disputa de 2008, foi alvo de boatos. Segundo ele, adversários espalharam que, se eleito, proibiria a realização da Festa da Penha.

"Boatos são inevitáveis, mas só a verdade combate a mentira. O segundo turno deu mais força aos tucanos, e por isso precisamos ir para as ruas. A guerra religiosa não acaba antes do dia 31", disse, em alusão à data do segundo turno, 31 de outubro.

O Comitê Evangélico Pró-Dilma foi composto por 13 pastores e missionários da Grande Vitória. O pastor Beato de Anaiê, da Assembleia de Deus Águas Purificadas, ressaltou que os cultos não serão usados como palanque da petista. "Não vamos usar os cultos para falar de política, mas nas escolas dominicais com certeza vamos abordar o tema", explicou.

Fórum Político se divide sobre apoio a Dilma

O Fórum Político Evangélico do Espírito Santo se reúne hoje, em Vitória, para discutir eventual apoio à candidatura de José Serra (PSDB) ou de Dilma Rousseff (PT). "Há uma tendência no grupo, e ela será oficializada em um documento", comentou o presidente da entidade, pastor Lauro Cruz. Ele não informou quantas denominações compõem o Fórum - "a participação é livre e todos podem ir às reuniões" -, mas já há pastores divergindo da posição do líder. Titular da Igreja Peniel, o pastor Alcemir Pantaleão - que é subsecretário de Segurança Urbana da Prefeitura de Vitória, administrada pelo PT - criticou a postura de Lauro. "A gente vive numa democracia e devem ser respeitadas as posturas diferentes. Não existe definição de que os evangélicos são contra Dilma. Se houver decisão unitária, será uma imposição", frisou.

O que pensam as lideranças

"Não estamos contra Dilma"

Nós, evangélicos, temos uma defesa firme dos conceitos cristãos e morais, mas somos um grupo plural. Dizer que os evangélicos são contra Dilma Rousseff (PT) foi uma infelicidade. O pastor que deu essa declaração se equivocou; ele não podia falar em nome de todos"

"Os evangélicos estão divididos"

A criação do Comitê disponibiliza mais informações sobre o que é a campanha do PT. Poderemos ajudar o povo evangélico, que está sendo bombardeado e está dividido politicamente. Dilma não mudou de opinião sobre o aborto. O que aconteceu foi que ela sofreu pressões"

"Não vamos fazer guerra"

Esse tema (aborto) foi colocado na campanha na surdina, com informações que não são verdadeiras. Precisamos levantar a cabeça e partir para uma campanha de esclarecimento e convencimento. Não vamos fazer guerra entre religiões"

Ferraço: discussão sobre aborto é "válida"

Senador eleito com a maior votação da história capixaba, o vice-governador Ricardo Ferraço (PMDB) considerou "absolutamente válida" a discussão do aborto durante o segundo turno das eleições presidenciais. Ele, que participou do encontro da coordenação da campanha de Dilma Rousseff (PT) com lideranças evangélicas, defendeu a contraposição de opiniões entre a petista e o candidato tucano José Serra sobre temas de cunho religioso.

"Acho absolutamente válido que numa sociedade cristã como a nossa se discutam conceitos e valores. Acho bom tudo isso que está acontecendo. Dilma tem o DNA das mudanças alcançadas nos últimos anos, durante o governo Lula (PT), mas nenhum de nós é dono de voto algum", frisou Ferraço, ao se dirigir à plateia de aproximadamente 70 pessoas.

O vice-governador também se declarou contrário à prática do aborto. No último sábado, conforme publicado por A GAZETA, os pares de Ferraço no Senado a partir da próxima legislatura - Magno Malta (PR) e Ana Rita Esgário (PT) - também se posicionaram da mesma forma quando questionados sobre o tema.

"Por convicções religiosas, sou contra o aborto, mas defendo que se ampliem as políticas de atenção pública de saúde à mulher. É preciso conversar com calma e tranquilidade sobre os temas relacionados a este momento da campanha", pontuou Ferraço.

Petistas em busca de apoio dos empresários

A campanha de Dilma Rousseff (PT) no Estado vai se reunir, na próxima quarta-feira, com representantes do movimento empresarial para discutir a criação de um comitê de apoio à petista, a exemplo do que se criou com a comunidade evangélica.

"Apostamos na organização setorial da campanha, porque isso cria um dinamismo e faz com que ela apareça em diversos segmentos. Isso nos dará uma campanha forte e de grande militância", avaliou o coordenador da campanha no Estado, o vice-governador eleito Givaldo Vieira (PT).

Além do encontro com empresários, estão previstas agendas entre petistas e representações de movimentos femininos, católicos e sindicais, ao longo da próxima semana, para fortalecer o nome de Dilma no Estado.

Tucanos acreditam em "identidade ideológica" com os evangélicos

Enquanto os petistas vão em busca do apoio da comunidade evangélica no Estado, o tucanato aposta suas fichas na "identidade ideológica" que, segundo o partido, o presidenciável José Serra (PSDB) tem com esse segmento. Após uma reunião com a direção nacional da campanha em São Paulo, o coordenador de articulação da legenda no Estado, o deputado federal eleito César Colnago (PSDB) disse que os tucanos estão "animados" com o cenário.

"Por identidade ideológica, os evangélicos estão a nosso favor. Serra tem compromisso com a moral cristã e com os valores da família. Por isso existe uma proximidade natural", frisou Colnago.

O deputado federal também disse que a movimentação petista em busca dos votos evangélicos não chega a incomodar o tucanato, porque "o PT tem a mania de instrumentalizar tudo". Ele revelou, ainda, que o trunfo do PSDB na corrida pela vitória é focar nos votos do eleitorado de Marina Silva (PV), que teve bom desempenho no Espírito Santo.

"Em 2006, o nosso candidato à Presidência (Geraldo Alckmin) foi bem votado no Estado. Desta vez, o desempenho do Serra também nos animou. Agora, nosso foco principal são aqueles eleitores que votaram em Marina no primeiro turno", ressaltou Colnago.

Para se aproximar do eleitorado verde, o tucanato já vem apresentando um discurso mais alinhado àquele defendido por Marina no primeiro turno. "Pensar no desenvolvimento do século XXI é pautar a produção econômica aliada à questão do meio ambiente. Não dá pra ter uma atitude extrativista sem pensar nas próximas gerações", defendeu Colnago.

Ontem, o PSDB inaugurou, em Vitória, o comitê central da campanha de Serra, em Jucutuquara. Adesivos, banners, faixas e bandeiras já começam a ser distribuídos para os diretórios municipais hoje.

Por Eduardo Fachetti

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