Como ensinar sobre sexo sob uma ótica cristã

Como ensinar sobre sexo sob uma ótica cristã

Atualizado: Sexta-feira, 22 Julho de 2011 as 11:29

Desde que o aborto foi legalizado nos EUA em 1973, foram registrados mais
de 45 milhões de abortos. Esta perda de vida humana é equivalente ao número de
pessoas exterminadas na repressão de Stalin na União Soviética ou à perda de
vidas na China comunista de Mao. Estas são estatísticas que já usei em outros
contextos para demonstrar a profundidade da perversidade humana.


O
que as igrejas podem fazer para reduzir o aborto? A resposta de igreja precisa
ser multifacetada:


- Precisamos educar, moldar nossos jovens e todas
as pessoas. Os Cristãos Evangélicos precisam aprender a celebrar e abraçar sua
sexualidade, vivendo esta sexualidade em santidade, não abrindo espaço para o
aborto.
- Precisamos criar comunidades que apoiem as responsabilidades e a
restrição sexual para os solteiros adultos em nosso meio, que se perdem tão
frequentemente na cultura do “mercado da carne”.
- Precisamos formar na
consciência das pessoas de nossa comunidade a questão do valor da vida
humana.
- Precisamos capacitar membros da igreja para se tornarem cidadãos
articulados que compreendam as questões morais nas quais se enquadram as leis e
a liberdade, mobilizando cidadãos que possam exercer seus direitos democráticos
para moldar a lei do país.
- Precisamos apoiar aqueles que se mobilizam de
maneira pensante, testemunhas efetivamente proféticas contra a morte de seres
humanos “indesejados”.
- Precisamos ampliar nossos trabalhos de compaixão com
crianças que precisam de adoção para que tenham alternativas viáveis de vida e
sejam poupados do aborto.
- Precisamos nos empenhar em criar caminhos para
que pessoas escapem da pobreza, do sentimento de desesperança e desamparo que é
tão comum hoje em nossa cultura.
- Precisamos contribuir para o
fortalecimento do casamento e fortalecer o apoio das comunidades para pais e
mães solteiros e famílias quebradas em uma época na qual os abortos são feitos
em sua maioria não em adolescentes grávidas, mas em mulheres adultas, muitas
delas que já tem um ou mais filhos.
- Precisamos orar sem
cessar.


Esta é uma desanimadora lista de coisas a fazer. Vou focar
nas primeiras ações, porque uma compreensão positiva e profundamente bíblica
acerca da sexualidade é algo extremamente necessário nas igrejas evangélicas de
hoje. Para uma comunidade que se orgulha por ser “bíblica”, é chocante enxergar
a distorção do nosso foco sobre sexualidade. Uma visão bíblica sobre a
sexualidade é profundamente positiva, atraente e profundamente arraigada no
valor da vida, um paradigma sobre o qual devemos tratar a questão do
aborto.


Evangélicos não são fundamentalmente contra o aborto – em
nível mais básico, somos definidos por aquilo que somos a favor, mais do que por
aquilo que somos contra. Somos fundamentalmente valorizadores da vida e da
sexualidade, pois celebramos estas verdades que são nossas em Jesus
Cristo.


Infelizmente, começamos a formação de nossos jovens
tardiamente, de maneira ambígua e ineficaz. Estamos presos a um paradigma de
indiferença e negação quando pensamos sobre a sexualidade. Nossos pastores tem
evitado o tema a não ser para rápidas mensagens, orientadas pela culpa e que
contém a frase “diga não”. Para nossa tristeza, muitos líderes evangélicos
fracassam ao tentar viver os padrões que proclamam e se tornam exemplos públicos
de hipocrisia. Visões conflitantes sobre a sexualidade contribuem para que estes
fracassos se tornem argumentos e seduzam a nossa juventude. As duas principais
visões conflitantes acerca da sexualidade: em primeiro lugar, o naturalismo
evolutivo. O ponto de vista do naturalismo, materialista, reduz a realidade ao
físico. Sob este ponto de vista, o sexo não tem significado. Um slogan da
psicologia evolutiva diz: “Uma galinha é apenas a maneira de um ovo fazer outro
ovo”. O sexo seria algo puramente mecânico no qual os genes se
reproduzem.


O naturalismo evolutivo é uma maneira fria de ver as
coisas e, portanto é fácil compreender porque outro ponto de vista tem um apelo
crescente. Eu vou chamá-lo de “formação de identidade pós-moderna”. Pensadores
como Nietzsche e Foucault afirmaram que as pessoas estabelecem sua verdadeira
personalidade quando rejeitam as normas da sociedade, particularmente na área da
moralidade sexual. Nietzsche prometeu que a “Natureza” irá “entregar seus
segredos” quando formos bem sucedidos em “nos opor vitoriosamente de maneira
antinatural”. Foucault recomendou a “ética da transgressão”.
É parte da
condição geral humana a ânsia por sermos nossos próprios deuses e construirmos
nossas próprias realidades. D.H. Lawrence escreveu: “[Homens] vivem na feliz
obediência daqueles que acreditam ser seus mestres ou vivem em real oposição ao
mestre que querem vencer. Na America esta oposição tem sido um fator
vital”.


Isto é Romanos 1 vivido de maneira prática como nunca antes.
Hoje nos rebelamos não apenas contra os limites culturais e morais, mas também
contra os limites biológicos de nossas realidades físicas, como nossos órgãos
corporais e até mesmo nossa sexualidade masculina ou feminina. Nos rebelamos ao
substituir Deus e seu chamado em nossa vida através de nossos comportamentos,
preferências e identidades sexuais. O teólogo David Bentley Hart caracterizou o
ideal moderno da autonomia pessoal: “Somos em primeiro lugar, consumidores
insaciáveis e não podemos permitir que os espectros da lei transcendente ou a
culpa pessoal nos tornem indecisos. Para nós, o importante é a escolha em si e
não o que escolhemos”.


Um poderoso modelo contemporâneo da formação
da identidade pós-moderna vem de minha organização profissional. Ela afirma que
algumas religiões trazem uma visão de que a vida é a luta para trazer a minha
vida em congruência com algo maior e que vai além de mim. Em contraste, “modelos
multiculturais e afirmativos da psicologia lgbt” tratam da vida como uma busca
da congruência para o que experimentamos agora.


Em face a estes
pontos de vista, que visão de sexualidade verdadeira, bíblica e positiva pode
ser ensinada à igreja e pela igreja? Os elementos chave dizem respeito ao nosso
corpo, nossa encarnação, sexual e em gênero, relacional, feitos à imagem de
Deus, caídos e conflitantes, abençoados com significativas relações sexuais e a
alma em construção.



1. Temos um corpo. Somos
encarnados.
“Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e
soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou um ser vivente”
(Gênesis 2:7).
Ser humano é ser uma criatura física e biológica. Cristãos
enxergam toda a existência física, da grandeza do cosmos até a particularidade
do corpo humano, como bondosa e boa criação de Deus. A existência física não é
divina, mas é boa. A bondade do corpo, da encarnação, está baseada também nas
doutrinas da Encarnação e da Ressurreição. Se Deus pode se tornar totalmente
humano, a existência física não deve ser intrinsecamente má ou incompatível com
a perfeita bondade. Da mesma maneira podemos apreciar nossa encarnação porque o
estado final da humanidade redimida será na ressurreição, nossos corpos
perfeitos. Somos mais do que corpos, mas somos corpos. Ao longo da história, a
teologia Cristã caminhou de forma perigosa para longe desta verdade.
Na
Antiguidade, a teologia Cristã foi moldada pela filosofia platônica e estóica e
até mesmo conhecimentos gnósticos que denegriam o corpo. Durante o Iluminismo,
muitos exaltaram a razão, que distanciou a experiência humana de outros
aspectos.
Reações atuais contra a compreensão naturalista da natureza humana
podem alimentar a mesma dinâmica. Ao invés disto, devemos afirmar que para
sermos totalmente humanos é necessário ter um corpo, assim como devemos afirmar
que nunca somos meramente físicos.
Como a nossa encarnação lida com o aborto?
Muitos se impressionaram com a queda no número de abortos em adolescentes na
última década. Alguns especulam que nada influenciou mais esta estatística do
que a proliferação da tecnologia do ultrassom, na qual é possível visualizar o
feto vivo e em movimento dentro da mãe. Este crescente conhecimento do que antes
era considerada “a vida secreta do bebê” provocou um reconhecimento da nossa
identificação e vida compartilhada com o feto. Saber que somos fundamentalmente
e irrevogavelmente corpos, apoia à nossa compreensão de fetos e bebês como
nossos irmãos e irmãs.



2. Somos seres
sexuais.
“Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou” (Gênesis 1:27). “Deus viu tudo o que havia feito e tudo
havia ficado muito bom” (Gênesis 1:31). Não somos seres físicos genéricos, mas
somos seres sexuais e com gênero específico. Em algumas histórias de criações na
antiguidade, os dois sexos eram vistos como um erro. As mulheres eram retratadas
como formas deficientes de homens. Em oposição a isto, o Gênesis declara que a
criação de Deus dos dois gêneros foi um propósito divino, ambos os sexos feitos
“à imagem de Deus” e humanamente incorporados, masculino e feminino, as duas
criações descritas como muito boas. Na Antiguidade, esta era uma visão
radical.
Como isto está relacionado com o aborto? As Escrituras apresentam a
possibilidade de ter filhos como uma benção. O sexo é fundamentalmente ligado à
questão dos filhos. As questões entre o sexo e a procriação em nossa cultura
contraceptiva, que prega o “sexo para recreação” tem distorcido profundamente a
visão acerca da sexualidade. As Escrituras também descrevem os prazeres físicos
da união sexual (Provérbios 5) e relaciona o erotismo explícito com o amor
romântico e a intimidade (Cântico dos Cânticos).
O apóstolo Paulo adverte aos
homens e mulheres casados que satisfaçam as necessidades sexuais um do outro (1
Coríntios 7:1-6). Mas precisamos exercitar a cautela quanto a este assunto. As
implicações concretas do sexo - a procriação, o prazer físico e o erotismo, a
necessidade sexual - estão ligadas à união física que foi intencionada por Deus
aos casados, mas os solteiros não são seres menos sexuais do que os casados. O
próprio Senhor Jesus é um exemplo de uma existência sexual completa como um
homem hebreu, mas sem a união sexual do casamento. As Escrituras nos falam pouco
sobre esta compreensão da sexualidade de Jesus, mas os ensinamentos bíblicos nos
dizem que “era necessário que se tornasse semelhante aos seus irmãos em todos os
aspectos”, e que “ele mesmo sofreu quando foi tentado”, e que “como nós, passou
por todo tipo de tentação”, isto sugere que Jesus adentrou no âmbito da sua
sexualidade como homem, “porém, sem pecado” (Hebreus 2:17; 18; 4:15).
Nossa
sexualidade é expressa, mas não reduzida às experiências sexuais do casamento.
Todas as pessoas são seres sexuais enquanto gênero, feitos unicamente em corpos
femininos ou masculinos, seres que contém sensações, desejos e capacidades
emocionais e cognitivas de seu gênero.
Gênero é apenas uma das facetas da
sexualidade e o gênero em si é construído através das dimensões biológicas,
psicológicas, emocionais e relacionais.



3. Somos
relacionais
O livro de Gênesis nos ensina a pensar na natureza
humana como fundamentalmente relacional. O Criador julga que o primeiro homem
está incompleto, apesar de viver em um ambiente perfeito, com o trabalho
perfeito, em um relacionamento perfeito com o Deus Trino (que é em si,
relacional).
“Não é bom que o homem esteja só”, disse Deus (Gênesis 2:18) e
Deus então criou para ele a parceira perfeita. O homem reconhece como a mulher
pode completá-lo perfeitamente e Deus afirma isto quando descreve esta
realidade: “por esta razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e
eles se tornarão uma só carne” (Gênesis 2:24).
O amor romântico então se
torna uma maneira importante de experimentar esta realidade relacional. Nós
experimentamos isto também através da relação entre pais e filhos, nas amizades
e outros relacionamentos. Isto é parcialmente baseado em nossa sexualidade. Ser
sexual é estar incompleto e esta falta nos move na direção dos relacionamentos.
Depois da Queda, nossa experiência humana é a de que nossos relacionamentos, com
Deus e com as pessoas, são relacionamentos fraturados. Se o primeiro pecado
humano é o orgulho de sua autosuficiência perante Deus, nossa sexualidade
carrega testemunho contra nossa mentira, uma vez que nossa biologia afirma que
não somos auto suficientes, que não podemos escapar da necessidade de uma
relação com o outro. Solteiros ou casados, sabemos que fomos feitos para
relacionamentos.



4. Somos feitos à imagem de
Deus
Catherine Beckerleg, uma colega na Wheaton College, relata que
Deus criou todas as criaturas dos mares e os pássaros do ar de acordo com seus
tipos, que os animais silvestres vivem de acordo com suas espécies. Mas Deus não
criou os primeiros humanos de acordo com suas espécies, mas os criou da espécie,
da maneira de Deus – à sua imagem e semelhança (Gênesis 1:21;24;26).
As
culturas próximas a Israel na Antiguidade usavam narrativas sobre a criação para
estabelecer os sucessores do rei das tribos. O objetivo era a exclusão: o rei
era parte da família divina e seus súditos não. Que inversão de valores temos no
Gênesis! Ele estabelece uma linhagem real e divina de toda humanidade. Somos
realeza! Somos filhos de Deus. Ser moldado à imagem de Deus também significa que
somos capazes de exercer domínio, que temos capacidades morais, relacionais e
racionais. Se todos os humanos são feitos à imagem de Deus, assim também são as
crianças que não nasceram. A sexualidade parece estar explicitamente conectada a
viver à imagem de Deus. Nenhum trecho reflete mais claramente esta afirmação do
que Gênesis 5:1-3, no qual se encontra a declaração inclusiva a ambos os sexos e
a toda a raça humana: “Quando Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez,
homem e mulher os criou. Quando foram criados, ele os abençoou e os chamou
“Homem”, e em seguida encontramos o relato de que Adão “gerou um filho à sua
semelhança, conforme a sua imagem”.
A maneira com a qual o trecho de Gênesis
5 reafirma a linguagem de Gênesis 1:26 é impressionante. A concepção e o
nascimento de um filho para o primeiro casal é paralela à maneira com que Deus
se tornou pai dos primeiros humanos. A imagem de Deus não pode ser reduzida
simplesmente à procriação, mas o ato da procriação humana é uma das partes do
que significa ser à imagem e semelhança de Deus.



5.
Estamos quebrados e pervertidos
Até agora, tudo estava bem. As
verdades básicas acerca de nossa sexualidade são positivas. Mas esta não é a
imagem completa. A humanidade está quebrada e em rebelião contra Deus. Isto não
erradicou a bondade primária da natureza humana, mas impôs novas condições para
a experiência humana. Geralmente pensamos sobre os pecados como atos de
desobediência, mas o próprio pecado demonstra a fragilidade do nosso ser e suas
manchas de decomposição e ruína. Nossa liberdade está limitada por nosso “vício”
em coisas que são menores do que a completude e a bondade do que Deus deseja
para nós. Esta limitação aponta não apenas para nossa rebelião contra Deus, mas
também para uma força do mal que atua fora de nós. Nossos desejos sexuais estão
baseados em nossas boas capacidades para união, amor e prazer, mas estão sempre
maculadas pelo egoísmo, sensualidade (apetites sexuais desconectados dos
propósitos transcendentes) e o desejo de dominação.
Esta é a razão pela qual
experimentamos conflitos profundos em nossa sexualidade. Temos conhecimento da
bondade do potencial e da realização de nossa natureza sexual, mas não
experimentamos esta bondade de maneira pura. Ao contrário dos teóricos da
sexualidade que trocam o que é por aquilo que deveria ser, nossas fraturas nos
alertam que podemos aprender sobre a nossa natureza humana ao observar nossa
sexualidade.



6. Encontramos realidade objetiva quando
fazemos sexo
Os contemporâneos do Ocidente acreditam que as relações
sexuais adquirem o significado que trazemos a elas. O sexo pode ser um ato de
amor e devoção ou uma mera liberação física, uma transação comercial, dependendo
da intenção de quem age. Nós pensamos que o sexo significa aquilo que queremos
que signifique, o que quer que seja.
Philip Turner argumenta que se
acreditamos que a relação sexual não tem um objetivo significativo, então
apagamos todo o significado moral. A relação sexual se torna apenas mais uma
maneira de conquistar os desejos. Assim, os atos perdem seus valores morais,
apenas os fins podem ser julgados. Seguindo a tradição apostólica, Turner
argumenta que a relação sexual cria uma união de uma só carne. A questão da
criação, os ensinamentos de Cristo sobre o divórcio e passagens como 1 Coríntios
1:6-7 nos ensinam que Deus idealizou a relação sexual para criar e sustentar uma
união permanente, de uma só carne, em uma relação para casados: homem e
mulher.
O fato de que a relação sexual cria uma união de uma só carne desafia
profundamente nosso individualismo. Este não é o único desafio. Aprendemos do
apóstolo Paulo que a união do casamento dá testemunho de algo maior do que o
próprio casamento (Efésios 5:32): todos os cristãos participam de um corpo
místico, que é verdadeiramente o corpo de Cristo (1 Coríntios 12) e a consumação
da história não é a redenção de um grupo de indivíduos, mas o casamento entre o
Noivo (O Cordeiro) e sua Noiva (coletiva e singular). Isto revela uma identidade
coletiva que nenhum de nós pode compreender profundamente. Há mais no sexo do
que podemos enxergar.



7. Somos almas em
construção
Quem somos realmente? Para responder a esta pergunta,
precisamos compreender se nossa identidade é algo que nos foi presenteado e
descobrimos ou se é algo progressivamente construído. Os dois competidores na
área da sexualidade – naturalismo evolutivo e formação de identidade pós-
moderna – nos apresentam suas respostas.
Naturalismo diz respeito a total
descoberta – somos o que somos – e o que descobrimos é que não somos muita coisa
e não somos tão importantes. Não nos surpreendemos ao ver tantos lutando com o
desespero. A formação de identidade pós-moderna diz respeito a uma total
formação progressiva – somos aquilo que fazemos através das nossas vontades.
Muitos acreditam que a sexualidade, nas palavras de Turner, “define de muitas
maneiras a profundidade do ser” e que nossa sexualidade é fundamenta no processo
de descoberta do “poder e das habilidades em descobrir, desenvolver e
exercitar-se ao longo da vida”. Em seguida diz que “a negação da sexualidade é
a negação do ser, da identidade mais básica”.


A visão cristã da
pessoa nos leva a uma direção diferente: a verdadeira identidade é descoberta e
formada. Nossa compreensão acerca de nós mesmos começa com a realidade das
nossas vidas, significados revelados por Deus e trabalhados em nossa comunidade
real. Além disto, nossa identidade está baseada em visões de realidades
objetivas para além de nós mesmos, visões de virtude e bondade além de nossas
habilidades. É aqui que incluímos nossa formação: à luz do que descobrimos sobre
nós mesmos, fazemos escolhas que nos moldam. Nossa sexualidade tem significados
e implicações que existem independentemente do que podemos pensar que queremos
dizer com nossas ações. Formamos nosso ser enquanto respondemos a estas
realidades objetivas e buscamos (ou deixamos de buscar) as virtudes intrínsecas.
Obediência e desobediência nos marcam e nos moldam. Existe uma natureza no ser.
Parte do ser é descobrir quem somos. Parte desta realidade objetiva é nossa
sexualidade, um dos melhores presentes de Deus.


A formação do ser de
maneira apropriada acontece quando somos submissos a Deus, que nos transforma
conforme obedecemos à sua vontade revelada e nos alegramos em uma relação com o
Salvador que vive em nós e nos molda. Uma pessoa que é apenas descoberta não se
desenvolve totalmente e é empobrecida. Uma pessoa formada de maneira autônoma
longe de Deus é empobrecida e subdesenvolvida da mesma forma. Uma pessoa
descoberta e então formada através do processo de morte do pecado e do alto
custo da obediência a Deus, processo este doloroso, de humildade e intimidade,
torna-se mais confiante e real. D.H. Lawrence descreveu precisamente a cura para
nossos distúrbios: “Os homens são livres quando obedecem a uma voz interna e
profunda de uma crença. Obediência no íntimo, de dentro para fora. Os homens são
livres quando pertencem a uma comunidade de fé, de vida, orgânica, ativa em
preencher as lacunas e os propósitos tantas vezes despercebidos... A Liberdade
na América teve seu significado distanciado da quebra das garras de um domínio.
A verdadeira liberdade só começará quando os americanos descobrirem a
profundidade integral do ser”.


Lawrence estava certo quanto a isto. O
eticista Gilbert Meilaender acrescenta: “Ser humano...é aprender a viver e amar
dentro dos limites – os limites da nossa encarnação, nosso corpo, nossa vida
mortal, os limites daqueles que se abrem para Deus. É para reconhecer e honrar
este lugar específico – entre as bestas e Deus – que ocupamos nosso lugar na
criação”.


A Igreja Cristã tem ensinado corretamente que a sexualidade
é crucial para a compreensão do ser, da pessoa, e da ética sexual na formação da
pessoa. Temos defendido a vida humana como preciosa e criada à imagem de Deus.
Somos confrontados com um enorme desafio de tentar testemunhar efetivamente a
uma cultura secularizada na qual as pessoas estão viciadas em pensar em si
mesmas como seres autônomos que podem ser criados à sua própria imagem. Somos
desafiados a testemunhar pela vida em uma cultura que parece abraçar
intencionalmente a morte. Precisamos viver na tentativa de entregar as pessoas o
que nos foi entregue: a revelação verdadeira do Deus vivo. É basicamente através
da sua Palavra Viva que compreendemos o quanto a humanidade está quebrada e onde
está a cura.



Stanton Jones é professor de Psicologia na Wheaton
College. Junto a sua esposa Brenna, já escreveu quatro livros na série de
educação sexual para famílias cristãs que foi publicada pela NavPress.

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