"Como ser honesto sem nenhuma verdade?", questiona cientista polícia

"Como ser honesto sem nenhuma verdade?", questiona cientista polícia

Atualizado: Quarta-feira, 8 Dezembro de 2010 as 11:49

No Brasil, o lançamento do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) – Decreto  7.037/09, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva – colocou muita gente para pensar e discutir os termos em que deve se dar a relação entre Estado e sociedade.

O embate entre secularismo e religião aparece como pano de fundo da polêmica que envolve o PNDH-3, que, para o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, apenas reflete a agenda secularista, “ideologia dominante” no Ocidente. “É uma grande batalha cultural”, diz o bispo da Diocese de Recife (PE). De fato, a questão não se limita às nossas fronteiras. “A maior luta da Igreja no Ocidente é a de defender sua liberdade”, diz o cientista político e sociológo inglês David Landrum, 44 anos.

Ele tem um trabalho incomum: consiste em erguer a voz em favor da Bíblia em pleno Parlamento da Inglaterra, em um tempo de muitos ataques contra a fé. Trata-se da função de advocacy, que aqui, para não ser confundida com a advocacia, acabaria sendo descrita como lobby. Mas, como é relacionada a um grupo social – os cristãos – e capitaneada pela Sociedade Bíblica Britânica, a atuação de Landrum passa longe da mera pressão política para alcançar resultados imediatos.

Ele procura resgastar o trabalho iniciado há 200 anos pelo congressista William Wilberforce, um dos fundadores das Sociedades Bíblicas Unidas e ativista contra o escravagismo. Dentre os objetivos de Landrum estão o de reafirmar a importância da Bíblia para a cultura política e a sociedade, bem como fomentar a participação de cristãos na política, aprimorar o diálogo entre os crentes e o mundo político e servir aos cristãos que trabalham no Parlamento.

Nesta entrevista à CRISTIANISMO HOJE, ele fala de questões muito próximas do mundo da política e da fé aqui no Brasil.

CRISTIANISMO HOJE – Como é o trabalho da Sociedade Bíblica na Inglaterra?

DAVID LANDRUM – A palavra que usamos para descrever o trabalho é advocacia, no caso, da Bíblia. A missão da Sociedade Bíblica, quando estabelecida por William Wilberforce há 204 anos, foi traduzir, publicar e distribuir a Bíblia em tantas linguagens quanto possível. E nós não seremos hábeis para fazer isto no futuro se não atuarmos também fomentando uma cultura bíblica. Precisamos mostrar a credibilidade da Bíblia em nossa própria cultura. A advocacia da Sociedade Bíblica no Reino Unido tem como foco quatro elementos-chave: artes, mídia, educação e política. Eu represento a dimensão política do trabalho de advocacia da Bíblia no Parlamento.

Como o senhor começou neste trabalho?

Vim da parte mais pobre da Inglaterra. Lá, o crime não é uma subcultura, é uma cultura; não praticar crimes é a subcultura. E, ao entrar na igreja, fui encorajado a estudar a ponto de me tornar um PhD. Terminei ensinando teoria política, sociologia e educação. Há seis anos procuro dar seguimento ao que William Wilberforce começou há dois séculos. Tento ser um veículo para influenciar com a Bíblia a cultura política – e para levar cristãos a se engajarem na política de forma mais extensa e efetiva, sob uma perspectiva missionária, e ainda a de buscar aprimorar a comunicação da visão cristã no meio político.

Políticos são pragmáticos. Quando se fala de ciência política e teologia isso não soa difícil para eles?

Sim, a política hoje é caracterizada pelo pragmatismo. E pela ação da mídia, distorcendo e estabelecendo a agenda. Então os políticos precisam responder rápido e da forma mais populista. Todo pensamento político se torna superficial, sem uma estratégia maior, até mesmo sob uma perspectiva ideológica. Muita gente diz que vivemos em uma era pós-ideológica.

Na origem, o cristianismo não é voltado para o poder político, e a história mostra os erros cometidos pelos crentes ao exercê-lo. Por que ir por esse caminho?

Bem, há um modelo bíblico para o uso do poder. Jesus não nos diz para nos tornarmos reis ou políticos. A Bíblia diz que o Senhor estabelece os reis e os tira. Ele é soberano. E usa reis. Nós temos que usar o poder em grande humildade e temor do Senhor. Jesus disse que, se você quer ser um líder, tem que ser um servo de todos. Cristo subverteu a ordem das coisas.

Como é seu diálogo com os não-cristãos?

Numa medida, parte da minha função é mostrar aos congressistas não-cristãos que os cristãos são normais, não são loucos. Somos confiáveis. Podemos ter verdades absolutas, mas não somos absolutistas. É muito importante para a mente secular descobrir que os cristãos não somente trabalham com democracia e liberdade; nós é que as garantimos. Sem os cristãos, eu creio, a sociedade liberal-democrática e plural não existiria.

Qual a relação do cristianismo com a democracia?

O cristianismo está na raiz da democracia. Aí há três elementos para a advocacia bíblica: há raízes bíblicas para a democracia, para o bem estar social e para a boa governança. Na Inglaterra, homens de Deus como Oliver Cromwell, William Wilberforce e William Gladstone formataram o modo de fazer política. A pedra fundamental é a Bíblia. Nós apontamos para a História. Wilson [Carey McWilliams] mostra o valor contemporâneo da Bíblia no sistema político.

Quando olhamos ao redor, aqui na Inglaterra, para todos homens e mulheres falando e pensando sobre os mais diversos assuntos, podemos sentir a fragrância da liberdade. Mas muitos não sabem que tal liberdade é garantida pela Bíblia, não vem de nenhum outro lugar. Uma cultura sem raízes bíblicas não a tem, embora possa até copiar ou tentar copiar essa liberdade. A Bíblia e os cristãos têm um papel importante a desempenhar hoje e no futuro, formatando os debates no espaço público, emprestando valores à nossa &S232;política. A teologia tem, de modo crescente, tomado o lugar da ideologia como elemento-chave na condução de políticas e na governança ao redor do mundo, em um processo de dessecularização. A agenda secular está fadada a falhar.

Muita gente vê a religião como ameaça à pluralidade na sociedade, e o secularismo, por sua vez, como garantia dessa liberdade.

Saeculu, do latim, se refere a algo que vai passar. Desenvolvemos a ideia de uma bolha secular... Nessa bolha passageira, a voz da ideologia se impõe e procura fazê-lo sem contestação. Na prática, só uma sociedade com bases bíblicas, com influência cristã, permite que os outros também tenham voz. Secularismo é a ideologia do saeculu, e o humanismo é uma dimensão dela. O secularismo basicamente opera na base de um mito, uma mentira, de que ele é o caminho natural. Isso é ridículo: toda afirmação tem, na verdade, um valor ideológico. O Ocidente se tornou complacente, negligente, sobre as origens de sua própria liberdade. E a origem dela está muito atrelada à Bíblia. O Ocidente cresceu tendo o cristianismo como pano de fundo. Veja o caso dos Estados Unidos – eles se desenvolveram reconciliados com sua fé. Estabeleceram um quadro político em que Estado e Igreja são separados, numa sociedade plural. As pessoas lá podem dizer e pensar qualquer coisa que queiram. Há grande diferença entre pluralidade e pluralismo. A segunda palavra é só ideologia, com todo um universo de crença e pressão política.

Sua atuação no Parlamento inglês difere da feita pela chamada direita cristã americana?

Sim, preciso permanecer na diretriz que tomei. Há inúmeras organizações, associações e institutos cristãos que fazem campanhas voltadas para questões específicas, com suas próprias agendas. Se estão certos ou errados, eu não sei. Eles estão aqui para fazer isso. E eu estou aqui para advogar em favor da Bíblia na cultura política. É diferente. Não temos uma agenda da direita cristã ou da esquerda cristã.

O senhor dirige reuniões de oração no Parlamento?

Mensalmente, fazemos cultos de adoração a Deus. Semanalmente temos estudos bíblicos aqui no Parlamento. E cuido da página “Christians in Parliament” na internet.

E a corrupção? Como sobreviver sendo cristão no ambiente político?

O teólogo John Stott disse: “Cristianismo tem efeitos antissépticos socialmente”. É o mesmo politicamente – a fé cristã traz cura. Os cristãos que se engajam na política não são perfeitos, eles irão cometer erros. Existe o pecado. Mas integridade funciona como um norte, como sal e luz no sistema político. Claro que isso custa sacrifício. Se há pessoas que caminham com retidão, que são como prumos, os edifícios podem ser estabelecidos, fundados. Não há como construir política sem isso. Como pode haver política sem honestidade? Como ser honesto sem nenhuma verdade? Como ser verdadeiro sem aquele que é a verdade?

Por Treici Schwengber

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