Compra de horário na TV por "crentes" é criticada em debate

Compra de horário na TV por "crentes" é criticada em debate

Atualizado: Sexta-feira, 27 Novembro de 2009 as 12

A presença de pastores nas grades de programação das emissoras de TV aberta tem repercutido entre críticos da comunicação. Em debate realizado em Mato Grosso na última sexta, dia 20, foi abordada a questão do público "estabelecer e exercer um controle cada vez mais social sobre o que a mídia comunica por este País afora", e a falta de reginonalização das programações, em virtude do monopólio televisivo que privilegia interesses próprios, como afirma o jornalista Enock Cavalcanti.

Em artigo sobre a Primeira Conferencia Estadual de Comunicação de Mato Grosso, Cavalcanti explora a utilização do mais expressivo meio de comunicação de massas por líderes evangélicos e políticos. "Muitos se maravilham com os milagres que os pastores fazem na telinha mas muita gente reclama, muita gente quer mudanças", comentou.

"O avanço dos 'crentes' dentro da grade de programação das emissoras de TV foi motivo para um pesado repúdio, notadamente por parte dos debatedores da chamada sociedade civil. O que se cobra é uma televisão aberta cada vez mais à participação comunitária, cada vez mais ligada à realidade regional, cada vez mais identificada com as demandas das grandes maiorias sem voz", disse o jornalista.

Leia a matéria na íntegra, publicada pelo Diário de Cuiabá:

Políticos e evangélicos assustam

Meus amigos, meus inimigos: na sexta-feira, quando quase todo Mato Grosso parou, devido ao feriado do Dia da Consciência Negra, aconteceu em um dos auditórios do Palácio Paiaguás, a Primeira Conferencia Estadual de Comunicação de Mato Grosso. Em debate, o tema cada vez mais discutido da comunicação no Brasil. Hoje, decididamente, o Brasil é um país midiático. Cidadãos dos mais diversos segmentos se reuniram, em outros eventos semelhantes, pelo Brasil afora, nessa mesma semana, para identificar a comunicação que temos e sonhar com a comunicação que queremos, estando previsto para dezembro uma plenária final, com representações de todos os Estados, lá em Brasília, para uma conferência nacional que, devidamente convocada pelo Governo Federal, pode estabelecer importantes marcos de renovação para o setor. Pensei que fosse aparecer pouca gente lá no Paiaguás mas éramos quase cem pessoas e os debates, na avaliação do experiente jornalista Onofre Ribeiro, foram de alto nível.

Nesses dois dias de encontro (só participei na sexta, já que na quinta estive mergulhado nas eleições na OAB, acompanhado a saga de João Scaravelli), criticou-se a mídia como nunca e nosso jornalismo, nossa televisão, os conteúdos jornalísticos, os apelos publicitários, foram passados a limpo por um público que acredita que cabe aos cidadãos estabelecer e exercer um controle cada vez mais social sobre o que a mídia comunica por este País afora. Dados apresentados durante o encontro revelaram que o Brasil tem, atualmente, 603 jornais diários e seis redes nacionais de TV, o que pode criar uma falsa impressão de diversidade de opinião. Na verdade, o que existe é um monopólio televisivo, e houve uma critica muito forte contra esta concentração de poder nas mãos de tão poucas famílias. Falta regionalizar a programação de nossa televisão, oferecer uma programação que não seja apenas voltada aos interesses políticos e econômicos dos veículos, mas que revele mais fortemente, para cada região, a realidade daquela região.

A televisão de Mato Grosso, ficou evidente, fala muito pouco de Mato Grosso e é preciso garantir espaços privilegiados para a produção regional, aquela que se faz aqui mesmo. Bateu-se muito contra os políticos com mandatos e os pastores evangélicos que se constituem em presença avaliada como sufocante, constrangedora, na chamada TV aberta. Imagino que políticos como Walter Rabello, Sérgio Ricardo, Maksuês Leite, se tem o mínimo de sensibilidade, devem ter ficado com as orelhas ardendo naquela sexta feira, 20. É que os cidadãos, pelo que se viu, e essa não foi a primeira vez, estão cansados do proselitismo eleitoral a que se entregam estes políticos - e querem impor algum tipo de freio a esses programas.

A Conferencia Nacional de Comunicação é uma oportunidade de ouro para que este tema seja, finalmente, colocado em revisão, já que a Justiça Eleitoral vacila tanto. Embora os empresários das pequenas emissoras do interior de Mato Grosso tenham aparecido para testemunhar que a receita que os evangélicos lhes garantem é importante para a sobrevivência de suas emissoras, o avanço dos "crentes" dentro da grade de programação das emissoras de TV foi motivo para um pesado repúdio, notadamente por parte dos debatedores da chamada sociedade civil. O que se cobra é uma televisão aberta cada vez mais à participação comunitária, cada vez mais ligada à realidade regional, cada vez mais identificada com as demandas das grandes maiorias sem voz.

Certamente que há muito que se falar sobre a Conferencia de Comunicação em Mato Grosso, já que as propostas surgidas foram centenas e centenas, e eu não tenho aquele dom que tinha o Pero Vaz de Caminha de resumir, bonitinho, tudo que vi e ouvi. Destaco nesta abordagem, as falas sobre os evangélicos e os políticos porque se constituíram em tema recorrente. Muitos se maravilham com os milagres que os pastores fazem na telinha mas muita gente reclama, muita gente quer mudanças. Curioso é que, no mesmo dia em que os cidadãos ali reunidos clamavam por essas mudanças, em Cuiabá surgia a notícia de que a Rádio Cultura AM, de longa e reconhecida tradição na capital, estaria sendo arrendada pelos deputados Sérgio Ricardo e Geraldo Riva. Eu soube disso quando estava lá, na Conferência, debatendo tantos sonhos de renovação. Fiquei com a impressão de que, enquanto a gente sonhava, lá dentro do Palácio, a realidade lá fora tramava contra nós.

Postado por: Felipe Pinheiro

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