Costa do Marfim: o horror relatado por esposa de pastor da IURD

Costa do Marfim: o horror relatado por esposa de pastor da IURD

Atualizado: Segunda-feira, 18 Abril de 2011 as 10:54

A Costa do Marfim, país da África Ocidental, tem sido palco de um dos maiores massacres civis de sua história. Em novembro do ano passado, o então presidente Laurent Gbagbo, que estava no poder havia 10 anos, perdeu as eleições presidenciais para o administrador de empresas Alassane Ouattara, mas recusou-se a deixar o poder. Iniciou-se, assim, uma série de protestos e ações de manifestantes pró-Ouattara. Laurent Gbagbo partiu para uma ofensiva sangrenta, abrindo ataques ostensivos, que deixaram milhares de civis mortos.

A crise, que se transformou numa verdadeira guerra civil, espalhou horror pelas ruas das principais cidades do país, onde pessoas foram brutalmente assassinadas, independente de terem ou não algum envolvimento político. Supermercados foram saqueados, a energia elétrica, o fornecimento de gás e a distribuição de água foram cortados ou reduzidos e a saída menos arriscada para os habitantes foi manterem-se prisioneiros em suas próprias casas, que também podiam transformar-se em alvo dos manifestantes, indiscriminadamente, a qualquer momento.

Num relato impressionante, Giovana Silvia, esposa de um pastor da IURD na Costa do Marfim, conta os momentos de terror passados por ela, outros missionários e membros da igreja, que ficaram à mercê dos manifestantes, mas nem por um minuto perderam a fé. Os acontecimentos se deram no mesmo período em que a Igreja Universal em todo o mundo vive a campanha do Jejum de Daniel pela busca do Espírito Santo. Leia o depoimento de Giovana:

“Arrumei uma net aqui para escrever bem rapidinho. A coisa aqui ficou preta mesmo. Para ganhar tempo, pois a net é limitada, escrevi durante duas semanas o que vivi e aqui está:

Quinta feira 31 de março São 13 horas. Nosso responsável, como outros pastores, não conseguiu sair de casa. Os conflitos era muitos. Milhares de homens armados, atirando pra todo lado, cada um do seu lado, com suas razões, mas com um único objetivo: matar! Eu, André e alguns pastores conseguimos chegar na sede em meio aos tiros. Eu tento me concentrar no meu trabalho, no escritório, acreditando que os tiros vão parar, apesar de ter visto vários corpos pela rua. De repente, um estrondo tremeu tudo, nos jogamos no chão e lá ficamos por meia hora até os barulhos diminuírem. O bispo liga e diz que devemos ir pra casa. Fechamos tudo às presas e vamos. Temos que levantar os braços para indicar que não estamos armados. As ruas desertas e mais corpos no caminho, mas conseguimos chegar em casa. Aquela noite, ninguém dorme, pois os estrondos são perturbadores…

Sexta feira 01 de abril Amanheceu e os tiros continuam. Somos 12 casais (pastores) aqui no condomínio. Estamos bem, mas nossa preocupação é com os outros pastores, auxiliares, com o próprio bispo, os obreiros, o povo, enfim. O que está acontecendo? Será que estão bem? Tentamos ligar uns para os outros, mas as linhas telefônicas foram cortadas. Começamos a orar juntos pela manhã, ao meio dia e às 17 horas, sem falar que já estávamos em propósito de oração de 6 em 6 horas e nos 21 dias do Jejum de Daniel. A noite cai e os tiros não param. As bombas explodem insistentemente

Sábado 02 de abril Como dormir é quase impossível, colocamos a cabeça para fora, assim que o dia amanhece. Temos pouca comida em casa; decidimos ir no centro comprar comida. Não podemos ir de carro, pois quem saísse de carro seria ameaçado com uma arma e obrigado a descer dele e vê-los indo embora (com o carro). Então, vamos a pé. São 8 quilômetros, ida e volta. Os tiros e bombas continuam... distantes, mas continuam. Para nossa surpresa, chegamos na rua principal e damos de cara com uma multidão procurando o mesmo que nós: comida. Era uma confusão. Poucos lugares abertos e milhares de pessoas querendo comprar. A fila não era respeitada; na padaria, muita briga por um pão; na feira, as poucas pessoas que foram vender, tinham pouca coisa e a um preço absurdo, mas não tínhamos escolha. Compramos o que achamos e conseguimos comprar, pois o medo e o desespero eram grandes da parte das pessoas, o que as faziam brigar e se agredir por um saco de arroz. Além do mais, temos que voltar rápido para casa, pois o toque de recolher é ao meio dia. O dia está acabando e os pastores combinam de ir à igreja amanhã pela manhã!

Domingo 03 de abril Ainda bem cedo, o bispo liga e diz que devemos ficar em casa, pois ele tentou sair e foi obrigado a se deitar no chão, com uma arma apontada pra cabeça dele por 20 minutos, e pela mão de Deus o deixaram voltar pra casa, mas com uma ameaça de que não fosse pra igreja. Revoltados, nos colocamos a orar, pois era inadmissível ficar em casa no domingo. Algumas igrejas tiveram reunião com 10, 17, 30 pessoas corajosas que moram mais perto e se arriscaram. À tarde, nos reunimos e buscamos a presença de Deus, e ELE se fez presente. Eu posso ouvir a doce voz do Espírito Santo, que nos consola, nos dá força, uma paz interior, uma traquilidade que só Ele pode dar. Apesar de escutarmos os estrondos, tínhamos segurança. A noite cai e vamos tentar dormir.

Segunda 04 de abril Acordamos com a noticia de que uma igreja foi destruída. Roubaram tudo, só deixando os bancos. O povo e obreiros ligam preocupados conosco, mas a energia é cortada e os celulares começam a descarregar. A água também já vem muito pouco; o gás temos que economizar, assim como a comida. Não sabemos quando poderemos sair. São 16 horas e percebemos muitos helicópteros sobrevoando muito baixo. A embaixada do Brasil liga querendo saber o lugar exato em que estamos e nos diz que devemos reunir documentos em lugar seguro para que, em caso de resgate, estejamos preparados. Claro, no nosso coração a gente amarra, dizendo: “De jeito nenhum!” 16h45 estamos prontos para a oração de 17 horas, mas observamos algo estranho: o helicóptero deixa cair algo do céu, a alguns quilômetros de nossa casa, e de repente aquilo explode, estremecendo tudo. Outros helicópteros continuam fazendo o mesmo. Vamos todos para a cozinha, nos deitamos no chão e oramos. Tenho muito medo, como nunca tive na minha vida. Fecho os olhos e só me resta confiar em Deus. Era a França que estava bombardeando quatro pontos: a casa do presidente, a presidência, e dois campos militares, um dele a 5 km de nossa casa. Nosso pensamento está no nosso povo, nos obreiros, nos outros pastores, os auxiliares que estão nas igrejas. “E se uma dessa bombas caem em uma igreja? Como estará o bispo? Não tem luz, nem linha telefônica. À noite vem e os estrondos continuam. Derrubaram um helicóptero. Onde ele caiu? E, assim, passamos a noite no chão da cozinha. Não dava pra dormir com aquele barulho todo sem saber se iríamos ser atingidos; uma escuridão medonha.

Terça-feira, 05 de abril Adormeci, o cansaço me venceu… Ainda escuto bombas! Todos felizes por estarem vivos! Glorificamos a Deus e pedimos sem cansar pelos outros. Passamos o dia em oração, que já não são de 6 em 6 horas e nem 3 vezes ao dia, mas de 1 em 1 hora. Tentamos passar o dia: as mulheres limpando a casa, lemos a Bíblia, livros, enfim, o dia passa. Nós temos sempre a esperança de que amanhã poderemos voltar à vida normal.

Quarta feira 06 de Abril de 2011 Dormi essa noite, graças a Deus! Decidimos sair pra comprar carvão, pois o gás vai acabar a qualquer momento. Chegando no centro, a situação é ainda pior. tem menos coisas o que tem está mais caro. Conclusão: os saqueamentos começaram. Os poucos supermercados que temos estão completamente vazios e destruídos. Não compramos muita coisa por não ter, e porque o valor com o qual normalmente fazemos a compra do mês, hoje só da para comprar comida de 1 semana. Voltamos cansados de andar, lutar pra conseguir as coisas, e revoltados de ver a situação da população. Depois de 3 dias sem luz, ela voltou, Graças a Deus. Tínhamos medo de que estragasse o pouco que temos. Nem água gelada temos. Mesmo que não estivéssemos no jejum dos 21 dias, não poderíamos acompanhar as noticias, pois a única emissora de TV foi bombardeada. Mas, foi declarado um “cessar fogo”. É meio dia e estamos reunidos para orar, quando o bispo liga dizendo que homens armados entraram na casa dele, roubaram coisas e o carro. Damos graças a Deus, pois poucos minutos antes ele tinha ido à esquina tentar comprar algo, e foi no momento em que os homens entraram, encontrando a esposa dele e a filha. Não fizeram nenhum mal a elas! Nossa revolta aumentou! À tarde, chega a notícia de que dois morteiros foram lançados na sede, destruindo uma parte do muro e um carro da igreja que estava estacionado. Mais uma vez, um livramento, pois as mais de 30 pessoas, entre esposas, pastores, auxiliares e alguns obreiros que têm dormido lá não tiveram nenhum arranhão. Deus tem ouvido nossas orações! Sao 17 horas e vamos buscar a presença de Deus e participar da Santa Ceia, improvisada em casa mesmo. Foi uma benção; algo tão forte, como na igreja primitiva. O Espírito Santo estava ali nos fortalecendo e dando paz. Sempre lembrando do nosso povo e obreiros, a gente pede ao Espírito Santo que lhes dê a mesma paz e certeza, lá onde eles estão.

Quinta feira 07 de Abril de 2011 O dia esta aparentemente calmo. O toque de recolher é ao meio dia, então, as pessoas correm para procurar algo para comer. Hoje as farmácias abriram, mas são centenas de pessoas; muita confusão. Imaginamos quantas pessoas estão machucadas, sem atendimento médico, sem dinheiro. Paro pra pensar nos hospitais. Uma pessoa que tem problema de coração, no momento das bombas, não sei o que pode acontecer. A estimativa dos mortos, somente nessa semana, é de 1500 pessoas, sem falar nos feridos. Uma semana em casa é revoltante! Agradecemos a Deus por estarmos com vida, termos o que comer, termos água e luz, pois sabemos que muitos não têm nem isso! Sempre em oração para que não falte nada ao nosso povo e obreiros, acaba o dia e vamos tentar dormir, pois agora as invasões a residências viraram rotina. Os estupros e violências são constantes, mas vamos crer, pois se o Senhor não edificar a casa…

Sexta feira 08 de abril Amanheceu e não escutamos tiros, apesar de que alguns pastores que foram ao centro, voltaram dizendo que tem muitos homens armados perto de nossa casa. Acabamos de almoçar. Quando vou lavar a louça, um tiroteio começa em nossa rua. Ficamos deitados no chão da cozinha, orando até as 15 horas. Foi quando as bombas e tiros cessaram, mas graças a Deus estamos todos bem!

Sábado 09 de abril Pela manhã os pastores foram na cidade e voltaram dizendo que há 6 corpos na nossa esquina, devido o conflito de ontem. A 4 km há mais de 5 barragens onde as pessoas e carros (os poucos que arriscam de sair de carro) são revistados. Nos reunimos para ouvir uma mensagem do bispo Macedo, que nos fortaleceu ainda mais. A dificuldade era escutar a mensagem (que o André traduzia simultaneamente para os pastores que não falam português), em meio aos tiros e bombas que começaram exatamente às 16 horas. Recebemos a notícia de que 3 casais de pastores, que moram em outro bairro, tiveram que deixar a casa e correr para a igreja, então, nossa oração foi exclusivamente voltada para eles. A noite já caiu e os tiros continuam. Estamos todos trancados em casa, orando para que possamos dormir em paz, apesar da revolta no coração por não poder ir à igreja. Mais uma vez, amanhã, pela segunda vez, ficaremos em casa em um domingo. Os membros nos ligam dizendo que não têm como ir à igreja amanha. Os pastores decidiram arriscar e ir todos em uma igreja mais próxima aqui do nosso bairro, a uns 9 km de nossa casa. Irão a pé. Apenas as esposas e dois pastores ficaram. Enfim, assim foi programado. Veremos amanhã como será.

Domingo 10 de Abril de 2011

Os pastores foram à igreja e voltaram em paz. Tiveram que parar em  algumas barragens. O problema é que quando eles veem que são missionários, eles ficam nervosos porque dizem que os cristãos oram contra eles. Os pastores tentam explicar que oram pela paz e mais nada, mas eles não gostam muito. Então, fizemos carta de voluntários da ABC e será esse o documento que apresentaremos agora. Tivemos reuniões em algumas igrejas. Fiquei muito feliz com a ligação de uma obreira, que me disse que alguns obreiros e membros oraram dentro da igreja que foi destruída; mesmo assim eles oraram. Eu disse para ela que é isso que Deus espera de nós, uma fé própria e independente. Quando nós temos o Espírito Santo, não dependemos de pastor de igreja, mas temos uma fé própria. Uma menina do PA também me ligou e disse que esta bem, mas, infelizmente, tem um obreiro que trabalha comigo na EBI que está desaparecido. Eu creio que ele está bem. Deus é fiel! Os estrondos continuam. É estranho, mas nos acostumamos com eles; já não nos assustam tanto. Oramos às 17 horas; buscamos a força de Deus, o que não nos tem faltado, tenho certeza de que isso vai acabar, essa certeza vem do Espírito Santo! Chove bastante. O tempo parece mostrar sua revolta. Ficamos sem luz durante o dia, mas já chegou. Eu oro para que amanhã possamos sair de casa. Nesse momento, helicópteros e aviões sobrevoam aqui bem perto. Só Deus pode nos guardar. Nunca sabemos quando e onde eles vão bombardear ou metralhar. Só contamos com a proteção de Deus! Até aqui nos ajudou o Senhor! Temos o que comer, água e luz. Já não se ouve bombardeios, o que reina agora são as invasões nas casas, por isso contamos com a proteção de Deus e mais nada. Só Ele para nos guardar.”

*Giovana Silvia é esposa de pastor na Costa do Marfim  

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