Crise: Crentes buscam apoio na espiritualidade

Crise: Crentes buscam apoio na espiritualidade

Atualizado: Terça-feira, 14 Dezembro de 2010 as 10:32

O governo jura de pés juntos que o pior já passou. No discurso oficial, a crise econômica que apavorou o mundo na virada do ano ficou para trás. Bravatas à parte, o certo é que o anunciado apocalipse não ocorreu – mas deixou consequências na vida de muita gente. Embora, proporcionalmente, tenha sido menos atingido que os Estados Unidos e algumas nações européias – caso da pequena Islândia, que quase foi à bancarrota –, o Brasil sentiu a repercussão da quebradeira no sistema financeiro mundial. A taxa de desemprego atingiu perigosos índices nas principais regiões metropolitanas do país e o crescimento econômico, que vinha de vento em popa desde o início do governo Lula, sofreu um refluxo. Os analistas mais otimistas esperam um crescimento perto do zero para 2009. De fato, este tem sido um ano difícil para o país. Aos efeitos da crise somou-se a epidemia da nova gripe – que, a exemplo do colapso financeiro que abalou o mundo, também teve seu epicentro lá pelas bandas da América do Norte.

Aqui, o vírus H1N1 está fazendo estragos. Até o fechamento desta edição, cerca de 600 pessoas haviam morrido por complicações oriundas da doença, com elevado índice de letalidade entre gestantes. E mesmo quem não se tornou vítima da infecção ou tenha perdido o emprego na crise anda abalado. O brasileiro, festejado em todo o mundo por seu caráter otimista, tem motivos para andar meio sorumbático ultimamente. “Esse ambiente de instabilidade é capaz de atingir a saúde física e emocional da população”, diz o terapeuta Adriano Chagas, do Instituto de Saúde e Espiritualidade Doxa Brasil (ver entrevista abaixo). Ele lembra que a fé ajuda, por certo, mas não é salvo-conduto contra as agruras do tempo presente. “Como cristãos, acreditamos que a espiritualidade proporcione às pessoas uma atmosfera de esperança e confiança em Deus”, continua Adriano, que também é pastor. “Mas a negação do sofrimento só irá agravar o desequilíbrio emocional”, adverte.

Se a crise atinge a tudo e a todos, é a maneira de reagir a ela que faz a diferença. Márcia Maria Rodrigues da Silva, de 27 anos, festejou muito a oportunidade de  estagiar na área de recursos humanos numa grande indústria de produtos alimentícios quando recebeu a má notícia. “A chefia disse que estávamos na berlinda até que a situação econômica melhorasse. Mas ninguém pensa que será demitido, não é?”, comenta. Embora tivesse a consciência de que seu trabalho ali estava apresentando bons resultados, ela foi dispensada. Depois, veio o desânimo. A fase difícil foi superada com o apoio dos pastores e irmãos da Igreja Bola de Neve de Atibaia (SP), onde a moça congrega: “Eles oraram, me consolaram e até passaram a me avisar de toda oportunidade que viam em minha área. Se você não correr para Deus, vai se agarrar em quê?”, questiona. Mas a fé da moça valeu. Passado o pior momento, Márcia acaba de ser readmitida na mesma empresa, e com 15% a mais na bolsa-estágio. “Não podemos nos acomodar, mas também não dá para esquecer que o Senhor sempre tem o melhor para seus filhos”, afirma, confiante.

Más notícias – Fato é que igrejas de todo o Brasil tiveram seus membros afetados pela turbulência da economia. Em alguns lugares, mais do que em outros. A cidade de São José dos Campos, no interior de São Paulo, é um exemplo de região que sentiu a crise de perto. A Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), uma das maiores fabricantes de aviões de médio porte do mundo e principal geradora de empregos na região, demitiu nada menos que 4.270 funcionários – vinte por cento do quadro total – de uma única vez, no início do ano. As más notícias alcançaram também, direta ou indiretamente, os 4,2 mil membros da Primeira Igreja Batista (PIB) da cidade, alguns deles funcionários da indústria de aviação. “Procuramos levar mais esperança e fé às pessoas nos cultos”, lembra o pastor da PIB, Carlito Paes. Ele mesmo foi convidado a orar em três empresas, cujos proprietários temiam o pior. “Graças a Deus, as coisas melhoraram”, diz Carlito. O pastor acredita que o pior da crise já passou e que no fim as notícias eram mais pessimistas do que a realidade.

Mesmo assim, quem foi engolfado pelo turbilhão ainda procura chão para pôr os pés. Quando o rastilho de pólvora do abalo financeiro espalhou-se pelo mundo, os cerca de 320 mil brasileiros que viviam e trabalhavam no Japão até o fim do ano passado – os chamados dekasseguis – começaram a suar frio. Afinal, numa situação de risco sobre o mercado de trabalho, os estrangeiros são sempre as maiores vítimas. Morando na Terra do Sol Nascente havia três anos, a dekassegui Satiya Fabrícia Hirata, de 29 anos, viu pela primeira vez a pobreza rondando aquela próspera nação: “Testemunhei muitos brasileiros passando fome, morando em seus carros ou embaixo da ponte. Alguns morreram devido ao frio do outono. Foi chocante”. Satyia trabalhava montando telefones celulares numa unidade da Panasonic. É, trabalhava – já está de volta à sua cidade, Maringá (PR), desempregada. “Mais de 120 brasileiros foram demitidos de uma tacada só”, conta. “Não é fácil viver uma situação dessas, a pressão é muito grande”, admite.

Evangélica, Satyia contou com o apoio da família, inclusive do irmão, pastor, e da cunhada, psicóloga. “Sempre orávamos pedindo a direção de Deus”. Por enquanto, ela está esperando para ver que rumo tomar. Vários setores da economia nacional, sobretudo aqueles voltados às exportações, também esperam ansiosamente a poeira baixar. No maior pólo produtor de sapatos femininos do país, que fica no Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, a redução de encomendas de clientes tem sido um verdadeiro pesadelo para os empresários. Doze das 100 fábricas de calçados da cidade de Sapiranga, a 60 quilômetros da capital Porto Alegre, fecharam as portas, jogando no olho da rua 2,6 mil funcionários só no primeiro semestre deste ano.

Na cidade de Igrejinha, a história não foi muito diferente. A retração nas compras gerou grande instabilidade nos funcionários da Shoes Export e Import, localizada naquele município gaúcho. O diretor comercial da empresa, Denilson Ferreira da Silveira, teve que ter muito jogo de cintura para trabalhar diante das circunstâncias nada promissoras. Ele tem feito o possível para preservar os empregos de sua equipe e a sobrevivência da fábrica. “Nossa estratégia foi investir em países aos quais não exportávamos antes da crise, e também criamos uma linha específica de produtos para o mercado brasileiro, onde não atuávamos”, explica. Crente em Jesus, o empresário afirma que, baseado nas suas próprias experiências, os cristãos têm vantagens em situações difíceis, como essas vividas no setor calçadista. “A ética cristã impregnada em nossas empresas faz com que tenhamos alicerces firmes e perenes para nosso dia-a-dia, o que nos dá calma e tranquilidade para atravessar as tormentas”, sustenta. E complementa, com bom humor: “Sou um eterno otimista; caso contrário não poderia ser empresário no Brasil.”

    Por uma espiritualidade equilibrada   Pastor da Comunidade Cristã do Tatuapé (SP), terapeuta e diretor do Instituto de Saúde e Espiritualidade Doxa Brasil, Adriano Chagas tem analisado o comportamento da população diante de crises. Nesta conversa com CRISTIANISMO HOJE, ele fala de seus efeitos sobre a saúde psicológica das pessoas, particularmente dos crentes:

  CRISTIANISMO HOJE – Como seus pacientes têm reagido diante de tantas dificuldades? ADRIANO CHAGAS – O estresse e a ansiedade são reações que podem anteceder um quadro de patologia psíquica. Evidentemente, tais desequilíbrios emocionais são potencializados diante de acontecimentos que nos levam a um sentimento de insegurança quanto ao futuro.  

As pessoas reagem de maneira diferente às crises de acordo com sua fé? Como cristãos, acreditamos, por uma questão de fé, que a espiritualidade cristã proporciona aos seus fiéis uma atmosfera de esperança e confiança em Deus. Tanto a medicina psicossomática quanto as pesquisas da neurociência demonstram a importância da espiritualidade no processo de cura para doenças físicas e psíquicas. Portanto, o ser humano precisa ser compreendido e tratado em sua totalidade. É importante salientar que falamos de uma espiritualidade cristã equilibrada, isto é, que ensine seus fiéis a conviver com a realidade do sofrimento. Uma fé triunfalista, centrada na negação da dor, só irá agravar ainda mais o desequilíbrio emocional das pessoas. O sofrimento é uma realidade da vida humana; enfrentar e saber superá-lo é uma real busca pela felicidade. 

  Até que ponto o sofrimento psíquico é capaz de desencadear enfermidades físicas? Segundo dados do Ministério da Saúde, 60% da busca pelo serviço púbico de saúde está relacionado a doenças de origem emocional. Trata-se de enfermidades que, embora reais, não podem ser diagnosticadas por exames laboratoriais. No segmento evangélico, muitos acreditam que isso acontece por ação de demônios. Embora, como pastor, acredite na atuação do diabo sobre a vida das pessoas, precisamos entender que nem tudo é força maligna. Por isso, há inúmeros cristãos fazendo uso de substâncias químicas, como antidepressivos e afins. Ora, patologias psíquicas precisam ter tratamento psicoterápico, e não de exorcismo; os pastores e líderes cristãos deveriam estar informados acerca desta realidade.

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