Cristãos têm direito à raiva?

Cristãos têm direito à raiva?

Atualizado: Quinta-feira, 26 Março de 2009 as 12

Que raiva que dá!

Cristãos, têm direito à raiva? Sim, desde que ela não nos sirva de "desculpa" para pecar

Um dia desses, fui obrigado pelas circunstâncias, a enfrentar uma rotina da qual todo brasileiro, que se preze, foge, mais do que o 'diabo foge da cruz': ir a uma repartição pública. Não é preciso dizer que o moço que me atendeu foi superficial, não demonstrou nenhuma simpatia e que sai de lá com a recomendação de que, se quisesse mesmo obter a informação de que precisava, deveria voltar quinze dias depois, quando, possi-velmente, ela estaria disponível. Bastaria um pouco de boa vontade e eu teria saído com, pelo menos, o suficiente para tomar algumas decisões. Mas, como é sabido, boa vontade, em repartição pública é mercadoria fora de catálogo. Agora, pergunto: não é de dar raiva? Afinal, sou contribuinte, sou um mantenedor do estado, como podem aviltar meu direito desse jeito? É triste essa sensação de impotência! É de dar raiva!

Acabo de ler a notícia de que a câmara de vereadores da cidade de São Paulo aprovou o orçamento do ano 2000 (dois mil), de modo que o prefeito Celso Pitta veio a deter o poder de usar, sem ter de prestar contas, o valor de hum bilhão e meio de reais. Isso em ano de reeleição! Além do mais, essa administração tem sido pautada por todo o tipo de acusação de corrupção. Como, essa câmara, depois de ter sido maculada por casos de corrupção que resultaram em cassação de dois mandatos, pode votar um dispositivo, no mínimo, marcado pela suspeição de facilitar a malversação de fundos? Não foi, portanto, à toa que a campanha do Jornal de Tarde, de distribuição de adesivo com os dizeres: 'tenho vergonha dos vereadores corruptos de São Paulo' teve tanta adesão. Algo assim, com esse teor de 'descaramento', é de dar raiva!

Já andou pelas ruas das grandes cidades do Brasil? Notou? As casas e os prédios, principalmente os residenciais, estão sendo convertidos em verdadeiras fortalezas, na tentativa de conseguir proteção contra o roubo. E os automóveis? Todos andando de vidros hermeticamente fechados, mesmo os que não têm ar condicionado, os que podem blindá-los estão fazendo - é o medo da violência... Estamos nos trancafiando! E os bandidos? Estão soltos, ou fugindo, mas, aquele tipo de fuga em que o sujeito sai pela porta da frente da delegacia/presídio, ou sendo resgatados por companheiros em ações cinematográficas. E a polícia? Ora, a polícia...É de dar raiva!

E a questão da pobreza? Estamos em 790 (septuagésimo nono) lugar em desenvolvimento humano. É porque o Brasil é um país pobre, dizem. Como uma nação que, num contexto de cerca de 200 (duzentas) nações, oscila entre a 8a (oitava) e 10a (décima) economia do planeta pode ser chamada de pobre? Essa é uma afirmação de cunho ideológico. O Brasil não é um país pobre, é um país de pobres. Nossa nação tem sido marcada pela injustiça social - aliás, foi o que levou Sodoma e Gomorra à destruição (Ez 16.49) - e pelos maus políticos! Entra governo, sai governo e não se mexe no pomo de questão. É de dar raiva!

Há tantas outras situações de dar raiva, que poderiam ser levantadas aqui, mas, se fôssemos levantá-las todas, será que haveria papel suficiente?

O que fazer com essa raiva? Ou melhor... Como cristãos, temos direito à raiva? Sim, temos, desde que ela não nos sirva de 'desculpa' para pecar (Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira - Ef 4.26). Indignar-se é legítimo; penso, inclusive, que um dos possíveis significados da afirmação do Senhor: 'bem aventurados os que choram' (Mt 5.4) é: felizes os que se indignam com toda a manifestação da maldade. E, como seria possível ter 'fome e sede de justiça' (Mt 5.6) sem indignar-se com a injustiça? O que fazer, então? Podemos canalizá-la num protesto que confronte as autoridades pelos direitos civis, como Cristo fez na casa de Anás: 'Então, o sumo sacerdote interrogou a Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Declarou-lhe Jesus: Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto. Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que lhes falei; bem sabem eles o que eu disse. Dizendo ele isto, um dos guardas que ali estavam deu uma bofetada em Jesus, dizendo: É assim que falas ao sumo sacerdote? Replicou-lhe Jesus: Se falei mal, dá testemunho do mal; mas, se falei bem, por que me feres?' (Jo 18.19-23) À primeira vista, parece que Cristo está desobedecendo seu próprio ensino: 'Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra' (Mt 5.39). Porém, a conclusão que se chega é que virar a outra face é não usar as mesmas armas do perverso, não o calar-se diante da injustiça, do abuso. Portanto, uma forma de trabalhar a raiva é fazê-la desaguar num protesto legítimo pelos direitos humanos, por ética, por medidas de prevenção contra o crime, por melhor distribuição de renda. Transformemos a raiva em profecia. Ainda sobre a raiva: 'Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus' (Tg 1.20). É preciso ter em mente que nossa raiva, por mais justa que seja, não desencadeia nenhum processo de vingança ou juízo por parte de Deus. O Altíssimo tem seu próprio calendário. Porém, nada nos impede de usar de todas as prerrogativas que a lei nos concede, prerrogativas que, em muitos casos, foram conquistas cristãs, como disse Claudio Martelli:

'...o ocidente cristão libertou o homem (...) o cristianismo inspirou a vontade de poder de um povo, de um clero, de um homem, assim como os direitos da pessoa, das gentes e sua libertação de injustos domínios.' Transformemos nossa raiva em cidadania. Mais, o fato da nossa raiva não produzir a justiça de Deus, não significa que Ele não esteja fazendo nada, a história não está à deriva. Portanto, não percamos nossos valores, pelo contrário, norteemo-nos por eles, como disse Fausto Wolff: 'Aqueles que acreditam numa democracia para todos devem atender ao desafio de Chomsky; devem olhar-se fixamente, longamente no espelho e se perguntar por quais interesses estão trabalhando. Amanhã (ainda) não será tarde demais. Acho.'

Claudio Martelli in Em que crêem os que não crêem - Umberto Eco e Carlo Maria Martini - p. 131 - Record - 1999

Transformemos nossa raiva em esperança. E, por falar em esperança, não percamos de vista a expressão de Abraão: 'Não fará justiça o Juiz de toda a Terra?'' (Gn 18.25b). Transformemos nossa raiva em intercessão.

Escrito por: Ariovaldo Ramos - É missionário da Sepal, pastor da Igreja Reformada Plena em São Paulo. É primeiro secretário da AEVB - Associação Evangélica Brasileira. Cursou Teologia na Faculdade Teológica Metodista Livre e Filosofia na Universidade de São Paulo. Tem 42 anos, é casado com Judith e pai da Myrna e Rachel.

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