Cristianismo e Negritude - Coluna José Guido

Cristianismo e Negritude - Coluna José Guido

Atualizado: Segunda-feira, 27 Abril de 2009 as 12

"Não sois vós para mim, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes?" - Am. 9:7

O binômio negro x bíblia chega a soar estranho, tal o indiferentismo das igrejas evangélicas com relação a esse assunto. É bem verdade que - escudada no espiritualismo - as igrejas desdenham também de outros temas de igual importância. Entretanto, esse é dos mais ignorados. Quando constatamos essa realidade, conseguimos compreender porque a formação bíblica que recebemos passa ao largo do fato de que o negro foi personagem de grande importância no contexto bíblico. Na verdade, quase toda a história do êxodo se passa na África. Em Ex. 15: 19-21 lemos a respeito do Canto de Miriã. Nesse, que é certamente um dos mais antigos da Bíblia, identificamos características da cultura dos povos negros: o canto e a dança ao redor dos tambores. Vivemos em uma sociedade racista, preconceituosa e discriminadora. É claro que isso não é admitido. Quem tenha minimamente se interessado por essa questão sabe que no Brasil, temos o malfadado "racismo cordial", o mito da democracia racial, o racismo velado. Entretanto, basta ver qualquer indicador social para notar sem muita dificuldade que a comunidade negra ainda está excluída das camadas sociais mais elevadas. No mundo moderno, os negros têm sido vítimas de preconceitos e discriminações. Quem vê apenas o quadro atual é levado forçosamente a concluir que sempre foi assim, ou seja, o negro sempre foi subalterno, escravizado, marginalizado e discriminado. Não é verdade.

Se fizermos uma retrospectiva histórica da trajetória do negro veremos que - muito ao contrário - ao negro coube um papel de enorme relevância na história universal. É de extrema utilidade uma releitura da origem do ser humano tanto do ponto de vista religioso quanto científico para situarmos o papel do negro na história da humanidade. Do ponto de vista bíblico, a fundamentação da origem dos povos, assim como a explicação da razão das diferentes ramificações das nações da terra acham-se registradas no livro das origens, no capítulo 10. Trata-se da Lista das Nações, Lista dos Povos ou Tábua das Nações. É o nome dado à genealogia de Noé e seus filhos. Nela ficamos sabendo como ocorreu o repovoamento da terra após o dilúvio. O mundo e os povos descritos na Lista (naturalmente como o autor os conhece) é a região das terras adjacentes ao Mediterrâneo Oriental. Começando com a costa Norte da África a Oeste do Egito, e em sentido contrário ao relógio, esta área compreende o Norte da África (a atual Líbia), o Egito e a Núbia, a península arábica, a Palestina e a Síria; a Mesopotâmia e o planalto iraniano, a Ásia Menor e, provavelmente, a costa Norte do mar Negro, o arquipélago Egeu e a Grécia continental, muito provavelmente o Oeste e o Sul da Itália e a Sardenha, possivelmente a Espanha e as colônias fenícias do Norte da África e a Tunísia.

Na forma de genealogia, o texto fornece um quadro dos povos e os critérios de agrupamento dos povos são geográficos. Os filhos de Noé são Sem, Cam e Jafé. No capítulo 10 dos versículos 2 ao 5, o relato bíblico nomeia os descendentes dos filhos de Jafé. Javã, seu filho, se dirigiu para o Ocidente na direção da Europa, sendo, portanto o pai dos brancos europeus, conhecidos como os jafetistas. Os judeus e os árabes, filhos de Sem através de Abraão, ocuparam a região ao norte do Golfo Pérsico. Do versículo 6 até o 20, há o registro sobre a descendência  de Cam, o pai dos povos negros. Os camitas foram para a África Oriental e se espalharam pelo oeste chegando à costa setentrional africana e às imediações do mediterrâneo. A Bíblia de Jerusalém também situa a África como o continente para onde foram os filhos de Cam e cita o Egito, a Etiópia, a Arábia e Canaã como os lugares para onde foram os camitas. Devido a ocorrência de migrações seculares, camitas, semitas e jafetistas foram se miscigenando em proporções diversas, de acordo com as circunstâncias históricas e sócio-políticas da grande dinâmica africana, o que evidencia que a espécie humana, do ponto de vista bíblico e de significativa parcela de cientistas, é uma só, um tronco comum. A visão de Genesis 10 é a de que todos os povos da terra têm a mesma raiz histórica, teológica e biológica. Cam era um dos três filhos de Noé. Teve quatro filhos: Cuxi, Mizraim, Fute e Canaã. Nos textos do Antigo Testamento onde aparece a palavra "Cuxi", é sempre designando alguém originário das terras de Cux, africano, etíope, negro. Os gregos denominaram os cuxitas de etíopes, que significa "pele queimada". Eram os habitantes das regiões ao Sul do Egito, a partir da Núbia atual Sudão.

Através do profeta Amós, Deus anuncia uma palavra profética para o povo de Israel. Nela, apresenta os filhos dos etíopes como um povo especial, semelhantemente aos filhos de Israel. Os hebreus nutriam um sentimento de grande admiração pelos Cuxitas. O profeta Isaías no capítulo 18, versículos 1,2 e 7 relata a respeito da forte impressão causada em Israel pelos etíopes. No capítulo 45, os etíopes são lembrados como um povo rico. São mencionados os produtos do Egito, as riquezas e as mercadorias dos cuxitas. A terra de Cuxi era muito conhecida pelas suas pedras preciosas (Jó 28:18 e 19). A história do povo de Deus se inicia junto ao povo negro.  José, um dos filhos de Jacó, tornou-se um dos maiores entre os negros egípcios. Chegou no Egito como escravo, vendido pelos próprios irmãos. Seu senhor , vendo que tudo o que o escravo punha as mãos prosperava, colocou-o como administrador de todos os seus bens. José (que tinha o dom de interpretar sonhos) ascendeu ao poder após interpretar o sonho do Faraó (que era negro). Tornou-se administrador geral do Egito, cargo hierarquicamente abaixo apenas do Faraó. Casou-se com Azenate, uma princesa africana etíope, filha de Potífera, um sacerdote egípcio.

Personagens negros

A princesa egípcia e a mulher de Moisés

Logo após seu nascimento, Moisés foi colocado em um cesto e lançado no rio Nilo (o maior da África e o segundo em comprimento do mundo). Foi encontrado e adotado por uma mulher negra, filha do Faraó egípcio. Adulto, Moisés escolheu casar-se com uma mulher negra (Num. 12:1)

Ebede-Meleque

O profeta Jeremias narra uma história onde aparece um negro. Por contrariar os interesses da corte de Jerusalém, pouco antes da destruição da cidade pelas tropas babilônicas, o profeta Jeremias foi preso e lançado numa cisterna. Ebede-Meleque (cujo nome significa "ministro do rei"), um negro de posição elevada e acesso direto ao rei de Judá, valeu-se de sua posição para ajudar o profeta (Jr. 38: 7-13).

Sofonias

Um dos profetas menores, sabe-se pouco ou quase nada a seu respeito. O texto bíblico refere-se a ele como "filho de Cuxi" (Sof. 1:1).

Simão de Cirene

Os evangélicos sinóticos são unânimes em afirmar que um certo Simão de Cirene ajudou Jesus a carregar a cruz, a caminho do calvário. Alguns pensam que Cirene era o sobrenome de Simão. Na verdade, Cirene fica no norte da África.

O Eunuco

Atos 8:26-39 fala-nos a respeito de um homem negro que exercia uma alto posto junto a corte da rainha, responsável por todo o tesouro do reino de Méroe. O missionário Filipe encontrou-o sentado em sua carruagem, lendo o profeta Isaías. Filipe falou-lhe sobre Jesus. Logo em seguida foi batizado por Filipe, tornando-se o primeiro estrangeiro a converter-se ao cristianismo. A mensagem cristã era pregada até então pelos apóstolos somente nas regiões da Judéia e Samaria. O negro etíope, superintendente do tesouro da rainha de Candace é o marco inaugural da expansão do Reino de Deus para além dos limites judaicos.

Marco Davi de Oliveira desenvolveu um minucioso estudo sobre a presença do negro na igreja evangélica brasileira. Através desse estudo somos informados de que os integrantes da raça negra representavam - à época - um grande número dentre os membros tanto das igrejas pentecostais como das históricas.  Para ficarmos apenas em um exemplo, a Igreja Assembléia de Deus, o maior grupo pentecostal do Brasil, contava com 4.591.531 (54,54%) negros, contra 3.699.014 (43,94%) brancos e 127.595 (1,52) outros. Ainda assim, a despeito da presença maciça da comunidade negra nessas igrejas, o autor conclui afirmando ser bastante claro que os negros chegam a tornar-se grandes líderes, homens e mulheres de oração, diáconos e presbíteros excelentes e respeitados, grandes evangelistas, etc. No entanto, não vemos os negros na liderança máxima da igreja pentecostal. O que muitos negros conseguem é, no máximo, tornarem-se bons líderes de congregações subalternas àquelas orientadas por uma liderança branca. Não é muito trabalhoso chegar a essa conclusão. Basta que façamos um simples e rápido exercício: dentre as maiores denominações evangélicas, desde as históricas, passando pelas pentecostais até as neo-pentecostais, quantos negros exercem ou já exerceram a liderança máxima?

O Deus a quem servimos é um Deus bom, de justiça que ama igualmente a todos os seus filhos. Nele não encontramos nenhum tipo de discriminação. Segundo Tiago 2: 1-9, um Deus que não faz "acepção de pessoas". Paulo escrevendo aos Gálatas afirmou: Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gl. 3:28). Após a queda do homem, Deus cuidou para que houvesse uma restauração. E um dia apresentar-se-á diante dele uma nação constituída de um número incontável de pessoas de todas as nações, tribos, povos e línguas (Ap 7:9). Então, a inquestionável verdade teológica da igualdade entre os povos se converterá em efetiva realidade encarnada.

Bibliografia

Identidade! Boletim nº 05 (janeiro/junho de 2004) do Grupo de Negros e Negras da EST/IECLB - São Leopoldo/RS;

Bíblia e Negritude - Pistas para uma leitura afro-descendente - Grupo Identidade - 2006 e Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) - São Leopoldo/RS;

A Religião Mais Negra do Brasil - Marco Davi de Oliveira - Editora Mundo Cristão/ São Paulo - 2004;

Os Negros da Bíblia e os do Brasil - Paulo de Sousa Oliveira - Edições SETE - São Paulo - 2004;

Negritude e Fé - O Resgate da Auto-Estima - Edilson Marques da Silva -  FFCLCQ - Santa Cruz do Rio Pardo/SP - 1.998

José Guido dos Santos é diácono evangélico e profissional de Relações Públicas com pós-graduação em Marketing Institucional. Especialista em Planejamento e Organização de Eventos e atua como Mestre de Cerimônias. Interessado em questões do terceiro setor, já presidiu entidades sociais, é Consultor em Assistência Social e atualmente é Conselheiro da AACD. Também atua como secretário parlamentar da Câmara Federal.

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