De braços dados contra a pedofilia

De braços dados contra a pedofilia

Atualizado: Quinta-feira, 27 Agosto de 2009 as 12

Antes que prossiga na leitura, pare por um instante e conte conosco: 1 - 2 - 3 - 4. Nesse exato momento, uma criança acabou de ser sexualmente abusada no mundo. Só no Brasil, 165 crianças ou adolescentes sofrem abuso sexual por dia, ou 7 a cada hora. E embora isso não justifique o fato, num futuro não tão distante como se imagina, as chances de cada uma dessas crianças se tornarem um abusador em potencial são enormes: 50%. Os dados que acabou de ler não foram inventados. Foram extraídos do manual Abuso Sexual - Manual sobre crimes de abuso sexual infantil para promotores de justiça, elaborado pela Procuradoria Geral da Justiça do Rio de Janeiro, de 2004, e de um relatório de 2002 da então ONG (Organização Não Governamental) ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e a Adolescência). Ainda que os dados não pareçam tão recentes (e hoje, a situação pode estar ainda pior), tais números mostram uma nua, crua e terrível realidade: estão acabando com nossas crianças e nossos adolescentes.

Numa iniciativa de somar esforços com todos que têm lutado para erradicar de vez a praga da pedofilia, nesse mês de agosto, a Igreja Batista da Lagoinha sediou um encontro só para discutir o tema. E mais que um encontro apenas, o evento (promovido pelo Ministério Centuriões do Templo, nos dias 7 e 8/8) foi um treinamento, em que estiveram presentes não só pastores, líderes, obreiros e demais envolvidos, como também o Procurador da República Dr. Guilherme Schelb, a assessora jurídica da Frente Parlamentar da Família e Apoio à Vida e conselheira do movimento ATINI-Voz pela Vida, Damares Alves, e a Promotora da Vara da Infância e Juventude de Belo Horizonte e também escrivã e delegada de polícia, Maria de Lourdes Santa Gema.

Em pauta um único tema: a exploração e o abuso sexual infanto-juvenil. Em específico, a pedofilia. Do conceito aos dados e estatísticas, até a formas de enfrentamento, tudo foi abordado de forma clara e precisa, com um único objetivo: a conscientização para a  mobilização.

Mais do que o alarme, o que se pretende é o alerta, para que se faça algo contra a pedofilia, tida como "a mãe do crime hediondo" pelo próprio senador Magno Malta, Presidente da CPI da Pedofilia no Brasil. "Meu sonho é ver as crianças e jovens livres da violência, sendo preservados", afirma o Dr. Guilherme Schelb. "Temos que entender que a pedofilia é uma doença, um pecado e também um crime", diz Damares, que finaliza: "Se cumprirmos com o nosso papel, promoveremos a transformação, pois ações geram mudanças".

Depoimentos

Guilherme Schelb - Procurador da República, Mestre em Direit o Constitucional e especialista em segurança pública.

"É uma alegria imensa estar na Lagoinha. Percebi um interesse grande das lideranças, dos pastores e das pessoas em geral em relação à prevenção da violência. Fiquei muito feliz em saber que há pessoas preocupadas com a situação da violência contra a criança, e que a igreja mostra o interesse pela sociedade. Creio que muitas pessoas aqui vão se dedicar e se instruir, para cuidarem das crianças e famílias. Creio que Belo Horizonte seja a capital espiritual de Cristo, do Reino no Brasil, pelas grandes lideranças, pelo grande  avivamento, e quem sabe é uma oportunidade de também outras igrejas e lideranças serem tocadas e isso se estender como fruto para além dos eventos. O evangelho tem de ser pregado no culto, mas tem que ser visto fora dele. Que as igrejas saiam dos limites de suas paredes e sigam para as favelas, para as escolas, para as famílias, e que não fiquemos somente na nossa função de servos como adoradores, pessoas de oração, mas que sejamos um ombro amigo para aquela família que esteja em desespero, ou para uma criança que está ameaçada ou em situação de violência. Quem sabe a Lagoinha não será o modelo? Vale ressaltar que muitas vezes não percebemos que podemos ser agentes de violência, sem saber, fazendo piadas, comentários, palavras, ou até mesmo humilhações etc. Às vezes, sem querer, colocamos nossos filhos em situações de humilhação pública. Quando você for corrigir seu filho, corrigir alguém, que seja em particular, nunca em público. A única coisa que devemos fazer em público é elogiar as pessoas. Tome atitudes dentro de sua mente, mas também em seu comportamento. Meu sonho é ver as crianças e jovens livres da violência, sendo preservados. Que sejamos certos de que a violência vai passar e que não seremos servos para ela. Gostaria de agradecer ao Pr. Márcio Valadão por tudo. Agradeço a oportunidade! Não percam a esperança. Venceremos em Cristo!"  

Damares Regina Alves - Advogada, Assessora jurídica da Frente Parlam entar da Fam ília e Apoio à Vida e conselheira do movimento ATINI-Voz pela Vida.

"Temos que entender que a pedofilia é uma doença, um pecado e também um crime, temos que abordá-la também dessa forma, mas é importante ressaltar ainda que o trabalho que fizemos na Lagoinha não é apenas contra a pedofilia. Trata-se também sobre o abuso contra a criança como um todo. É preciso entender a diferença entre o abuso sexual e a pedofilia. O abuso sexual engloba uma série de situações. Há crianças, por exemplo, que são abusadas sem nunca terem sido tocadas, mas com palavras, fotografias, brincadeiras. Como a Lagoinha poderia contribuir na luta contra tudo isso? Capacitando os ministérios infantis locais, e os do Brasil e do mundo, a gente sabe que tudo vira referência. Vejo que os ministérios têm de estar preparados para o enfrentamento e tudo vem pela qualificação. Tenho visto dentro do meio evangélico pessoas chaves no lugar certo e no momento certo. Temos encontrado juízes evangélicos que estavam sozinhos fazendo um trabalho de enfrentamento isolado, assim como promotores, conselheiros tutelares, médicos, pessoas dentro do exército. Uma rede de pessoas evangélicas que também desenvolvem cidadania. Qual é a instituição que está mais próxima do povo no país? É a Igreja. Às vezes o local não tem agência de correio, uma escola, mas tem uma igreja. Estamos trabalhando muito com missões, mas e a missão do lado? Cresce o número de evangélicos no Brasil, e cresce o número da desigualdade, da violência, do abuso sexual. O que está de errado? Nós estamos no mundo para mudar a sociedade,e porque não estamos mudando? Que essa reflexão fique. O que adianta termos 50% de evangélicos no Brasil, termos um presidente da república evangélico, sem fazer diferença? O nosso papel é influenciar a transformação na sociedade. É preciso refletir. Estique a sua mão. Observe que há um espaço o qual você pode alcançar ao seu redor. Não queira alcançar onde você não consegue. É o teu filho, o seu sobrinho. Professor, é o seu aluno, médico, é o seu paciente. Policial, é quem você atende. Se cumprirmos o nosso papel, promoveremos a transformação. Alcance a quem está próximo de você, quem está do seu lado. Ações para quem está mais perto de você irão gerar mudanças".

Postado por: Felipe Pinheiro

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