De graça, não!

De graça, não!

Atualizado: Terça-feira, 8 Outubro de 2013 as 7:45

pratp- Por favor, eu já sei o que vou pedir.
 
- Pois não, senhor.
 
- Quero esse combinado especial, com entrada, principal e sobremesa, pra dois, por favor.
 
- Ótimo pedido, senhor, já levaremos para o senhor, este é seu número de pedido.
 
- E quanto é?
 
- Não é nada, senhor.
 
- Como assim? Quanto eu devo pagar?
 
- Nada, senhor, é de graça.
 
Olhou como quem não acreditava. Homem justo que era, não admitia ser servido e não poder pagar. De modo algum aceitaria tal descalabro.
 
Desde menino aprendeu em casa que um bom homem não devia nada a ninguém, não pegava nada emprestado, não cogitava, sequer, roubar
alguma coisa. Seu pai era assim, ele também.
 
Preferia pagar tudo o que comprava à vista, nem crediário admitia. Não tinha conta na mercearia do bairro, não pagava nada com carnês, não
comprava se não houvesse dinheiro. Nunca usara o limite do cheque especial e cartão de crédito tinha um, escondido, para uma eventualidade
que nunca ocorreu.
 
- Me desculpe, mas eu não estou entendendo. Como assim, não custa nada?
 
- Não custará nada pro senhor, é de graça hoje.
 
Não conseguiu encontrar razão para aquilo. Será que eles pensam que eu não posso pagar?
 
- Por favor, posso falar com o gerente?
 
- Sim, vou chama-lo.
 
Quem pensam que eu sou? Eles não sabem com quem estão falando.
 
- Pois não, senhor?
 
- Boa tarde, eu fiz meu pedido e quando quis pagar esse moço disse que não preciso pagar. Eu só quero poder comer, nunca me aconteceu
isso, eu só quero sentar e comer em paz.
 
- Entendo, senhor, não queremos causar-lhe qualquer incômodo, o senhor precisava apenas fazer seu pedido …
 
- Já fiz.
 
- Então, após fazer seu pedido, escolha uma mesa de seu agrado e espere que já entregamos.
 
- Mas e quanto eu pago?
 
- Não precisa, senhor, já está pago.
 
- Como assim? Quem pagou?
 
- O dono do restaurante, senhor.
 
- Como assim, com que finalidade? – aos poucos ele perdia o restante da paciência com que tratava a situação e era tomado pelo espanto e a
confusão.
 
Sem entender porque alguém iria oferecer comida de graça, sem conseguir aceitar o fato de receber algo pelo qual não pagaria, seu rosto se
fechou completamente, puxou a esposa pelo braço e atravessou os corredores entre as mesas em direção à porta, esbravejando:
 
- De graça não, de graça não!
 
Preferia não comer, preferia ficar com fome, mas não aceitaria de graça o que passou a vida toda aprendendo que deveria pagar para ter.
 
 
- Alexandre Robles
 

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