Defensoras da ordenação de mulheres contestam doutrina vaticana

Defensoras da ordenação de mulheres contestam doutrina vaticana

Atualizado: Sexta-feira, 23 Abril de 2010 as 12

No title "No outro dia fui a Fátima ver a basílica nova. Cada porta é um apóstolo e tem uma citação bíblica referente. Em relação a alguns tiveram muita dificuldade porque não há quase nada. E em relação a Maria Madalena há tanta coisa. Mas ela não está lá, porque é mulher. Causou-me choque, porque é uma coisa construída para ficar, não é? Com a marca desta exclusão." Teresa Toldy, 48 anos, autora de uma tese de doutoramento, apresentada em 1996 na Escola Superior de Filosofia e Teologia de S. Jorge, em Frankfurt, sobre Deus e a palavra de Deus na teoria feminista, é uma das mais vocais defensoras portuguesas da ordenação de mulheres.

O rosto liso desenha um sorriso sereno ao enumerar os argumentos oficiais: "O primeiro é o da tradição, a ideia de que os apóstolos eram só homens, que só havia homens na última ceia, e que os padres têm sido sempre homens; o segundo é 'ontológico' e insultuoso: as mulheres não podem ser padres porque Jesus era homem e portanto não pode ser representado por uma mulher no altar." A pausa reforça a perplexidade. "Mas se a relevância da masculinidade é assim tão grande se calhar temos de pôr a hipótese de Jesus não ter salvo as mulheres, não? E assim pôr em causa os próprios fundamentos do cristianismo."

Lembrando que já há rabis mulheres na religião judaica, que já há mulheres monges no budismo e confissões cristãs a ordenar mulheres - caso da protestante e anglicana -, Toldy ecoa o teólogo alemão Hans Kung, uma das mais autorizadas vozes da Igreja Católica na contestação à doutrina vaticana e que em Outubro de 2009 questionava: "Jesus e a Igreja primitiva não estiveram à frente de seu tempo na valorização das mulheres, de modo que as igrejas que mantêm a proibição da ordenação de mulheres estão muito aquém do Evangelho(...)? Não estaria na hora de as igrejas católica e ortodoxa admitirem que as igrejas protestante, anglicana e católica antiga na questão do ministério e da mulher estão mais próximas do Evangelho do que elas próprias?"

Kung considera que "não há razões teológicas sérias contra as mulheres como sacerdotisas" e que a composição "exclusivamente masculina do colégio dos 12 apóstolos deve ser entendida a partir da situação sociocultural da época". Mas a teóloga Julieta Dias, 65 anos, freira do Instituto do Sagrado Coração de Maria há mais de 40, vai mais longe na denúncia do que Kung apelida de "difamação fundamental das mulheres":"Vinte séculos nos separam do texto do Novo Testamento. Ligar o número 12 a 12 pessoas e a 12 apóstolos é não perceber nada da mentalidade semita. O 12 é um número de valor simbólico, que designa a totalidade do povo por causa das 12 tribos de Israel. É o número suficiente para fazer chegar a todo o mundo a mensagem de Jesus."

Citando a carta de Paulo aos Gálatas - "Em Cristo não há homem nem mulher, senhor nem servo..." - e a mensagem revolucionária de igualdade "de abertura de acesso a Deus a todas as pessoas do Novo Testamento, que afirma que todos os baptizados são sacerdotes, anunciadores da palavra divina", a irmã Julieta confessa que estudou durante muito tempo as narrativas da última ceia. "Chegava ali e só via homens. Até que estava a ler Mateus e a multiplicação dos pães e encontrei isto: 'foram saciados cinco mil homens sem contar com mulheres e crianças e ainda sobraram cinco cestos'. E percebi: eles não contavam as mulheres." Ora, explica, sabe-se que havia mulheres com Jesus e que este tinha com elas uma relação privilegiada. "É impensável que, dadas as características da ceia pascal, uma festa judaica em que participa toda a família, Ele tivesse dito: 'Minhas senhoras, agora arranjem-se que eu tenho de ir celebrar a Páscoa com os homens."

Teresa Toldy tem uma visão semelhante e releva a importância dada por Jesus às mulheres que o acompanhavam, com destaque para Maria Madalena, aliás denominada, desde Santo Agostinho, como "a apóstola dos apóstolos". E pergunta: se apóstolo é o que segue, o que é enviado e o que anuncia, que é Maria Madalena senão uma apóstola? "Ele contemplou-a com a coisa mais importante, assistir à ressurreição. Escolheu-a. Há aliás, num dos textos apócrifos [os textos que, na selecção para a colectânea que é a Bíblia, foram deixados de fora], o Evangelho de Maria, um diálogo entre Pedro e Maria Madalena em que este não percebe por que é que Jesus lhe apareceu a ela e não a ele". Além disso, lembra, foram as mulheres que ficaram com Jesus na crucificação. "Os homens desapareceram."

Independentemente destas interpretações, porém, Toldy considera que também se coloca a questão de saber "se tudo o que se faz na igreja tem de se radicar no que era no princípio".

Julieta Dias, que atribui a posição do Vaticano a um primordial "medo das mulheres, à ideia da mulher como um mal" e lhe sublinha a contradição - "João Paulo II fala das mulheres como sendo muito melhores que os homens em tudo, para concluir que não podem ser ordenadas; é um total contrasenso" -, adverte: "Levar tudo à letra é por vezes a melhor maneira de não ser fiel."

Se pudesse falar com o papa sobre isto, a irmã do Sagrado Coração de Maria sabe o que lhe diria. "Olhando para o Evangelho de São João, para a carta de Paulo aos Gálatas, para a Epístola de Pedro, para a Carta aos Hebreus e para a atitude de Jesus com as mulheres, tendo feito delas apóstolas da ressurreição, dir-lhe-ia: 'Pense. As coisas mudam, e é tempo de na igreja voltarmos à mensagem trazida por Jesus. Não faz sentido excluir as mulheres da ordenação para qualquer lugar dentro da igreja."

Acha que vai ver o fim dessa exclusão? Alegre, a voz de Julieta não vacila: "Sim, acho. Mas não com este Papa."

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