“Deus nos dá oportunidade de sermos voz dEle”, diz delegado da PF

“Deus nos dá oportunidade de sermos voz dEle”, diz delegado da PF

Atualizado: Terça-feira, 30 Julho de 2013 as 3:01

“Deus nos dá oportunidade de sermos voz dEle”, diz delegado da PFEle participou da ação que apreendeu o maior carregamento de narcóticos de 2013 no Brasil (até o momento). Mais de 11 toneladas de maconha e 201 kg de pasta base de cocaína foram encontradas na caçamba de um caminhão, que aparentemente transportava madeira, em Caarapó (MS). A voz de prisão foi dada pelo delegado da Polícia Federal, Natan Vasconcelos.
 
Cristão e atuante na Polícia Federal há oito anos, o delegado falou, em entrevista exclusiva ao Portal Guiame, mais sobre esta ação que faz parte da operação Fronteira Integrada – buscando inibir o tráfico de drogas e outras práticas ilegais na região –, o papel do cristão em áreas de grande responsabilidade como esta e fatores que lhe dão força para continuar firme nesta luta contra o crime.
 
Confira a entrevista na íntegra:
 
Portal Guiame:  A droga apreendida estava escondida em meio a um carregamento de madeira, em um caminhão. Imagina-se que essa prática (de camuflar a droga em meio a cargas como trigo, soja e outras) seja muito comum. Existe um critério para que a Polícia Federal aborde um ou outro veículo? Por quê?
 
Natan Vasconcelos: A Polícia Federal investiga de forma bastante diversificada. Desde trabalhos de campo, vigilância (acompanhar os “alvos”, segui-los, fotografá-los, escutá-los), até infiltração, como também arregimenta informantes, colhe comunicações (inclusive diversas anônimas), além de contar com tecnologia avançada para mapear e rastrear a prática criminosa. No entanto, em relação às mais de 11 toneladas de maconha e cocaína aprrendidas dentro de um caminhão de madeira, foi um misto de trabalho preventivo (aconteceu durante a fiscalização em uma barreira fixa em uma rodovia estadual) e de tato/sensibilidade dos policiais federais que perceberam as “entrelinhas”. Explico: há o costume de “batedores” precederem o veículo que vem com a droga, ocupando e entretendo a fiscalização, levantando suspeitas que vão terminar infrutíferas, ao passo que o outro caminhão passa livre. No entanto, os policiais federais abordaram o veículo batedor e o veículo carregado com a droga. Ouvidos separadamente, os motoristas falaram coisas contraditórias: um afirmou que não conhecia o outro, ao passo de que o segundo disse que eram da mesma cidade e conhecidos. Por que a mentira em algo tão pouco relevante? Assim, após uma entrevista (termo policial para interrogatório de rua), ficou evidente que havia algo errado com os cidadãos ou com a carga, ou com ambos. Quando ao critério, não existe uma fórmula. Muitos são parados e estão tranquilos e regulares. No entanto, os fora-da-lei geralmente apresentam nervosismo, ansiedade e contam relatos pouco coerentes e contraditórios.
 
Guiame: Você foi o oficial que deu a voz de prisão, porém não estava "em campo", no momento em que o veículo foi abordado. Qual é o "caminho" que se faz neste caso, desde a abordagem até a voz de prisão?


Natan: Como os caminhões estavam carregados com toneladas de madeira, e havia suspeita de prática de crime, porém não havia estrutura para descarregar toda a mercadoria no meio do nada, os motoristas foram convidados a acompanhar a equipe policial até a Delegacia da Polícia Federal. Ali, a PF, com verbas já reservadas a isso, contrata trabalhadores braçais (os conhecidos “chapas”), que procedem ao descarregamento (e no caso de não haver nenhuma ilegalidade, ao posterior recarregamento). Quando a droga foi localizada, a Autoridade Policial Federal, que de acordo com a lei federal é o Delegado de Policia Federal, dá a voz de prisão ao infrator da lei, conservando-lhe a integridade física e moral e o deixando ciente de seus direitos, inclusive de permancer calado, de contar com o auxilio de defensor (advogado particular ou defensor público) e de comunicar sua prisão à família. O Poder Judiciário e o Ministério Público também são imediatamente comunicados através de ofícios, e o preso é submetido a exame de corpo de delito por um médico legista do IML.
 
 
Guiame: Qual será o precidimento adotado a partir desta apreensão?
 
Natan: Conforme dito acima, as autoridades judiciárias, do MP, da Defensoria são comunicadas, inclusive se comunica a família do preso. A droga é recolhida ao depósito da PF, assim como os veículos apreendidos. A perícia técnica e papiloscópica é acionada, onde se procede ao exame preliminar de constatação da substância entorpecente, e à coleta de digitais para se identificar eventuais outros envolvidos. Após preservada amostra da droga, a totalidade é incinerada, após autorização judicial. O preso, após realizado o exame de corpo de delito, é encaminhado à penitenciária, onde fica à disposição do Juiz Criminal a quem for distribuido o auto de prisão em flagrante. O preso, conforme já afirmado, tem direito constitucional à integridade física e moral, inclusive é algemado apenas se houver fundados receios de fuga ou prática de violência.
 
Guiame: Em sua opinião, o fato de você ser cristão e atuar nesta área aumenta a sua responsabilidade ou só reafirma a necessidade exercer este trabalho com integridade?
 
Natan: O  cristão foi chamado para se parecer com Cristo. Para ser um pequeno “Cristo”, uma filial ambulante do Mestre. Foi convocado a ser sal, a ser luz – a ser diferente e a fazer diferença. A Bíblia também ensina que as autoridades e magistrados são constituídos por Deus para o bem daqueles que praticam a justiça, e apenas os que não procedem bem é que devem temer tais autoridades, afirmando, ainda (vide Romanos 13), que a autoridade é instituída por Deus, e é vingador usado por Deus para punir quem pratica o mal. Desta forma, se este trabalho é necessário, se é útil à sociedade, se visa o bem comum, e se, acima de tudo, é constituído por vontade de Deus... Bom, que seja feito por um cristão! Por que não? É evidente que o cristão é vitrine, porque mais do que “dar testemunho”, ele precisar SER testemunha de Cristo. E o incrédulo só ouvirá a Palavra de Deus se ela for falada, mas também mostrada com a vida. A responsabilidade é maior! Porque não precisamos, neste trabalho, agradar apenas aos chefes, à Instituição e à sociedade, mas principalmente agradar a Deus. O trabalho requer integridade, e Deus seja louvado, porque mesmo entre os que não conhecem a Cristo ainda (e aqui falo do ambiente da Polícia Federal), as palavras de ordem são honestidade, integridade, hombridade e dignidade. Os índices de desvios de conduta são ínfimos, e são considerados apenas a exceção da regra, que é: a Polícia Federal, hoje, é uma Instituição seríssima, possivelmente a mais reconhecida pela população, sem desmerecer tantos outros órgãos que desempenham trabalho sério e dedicado, como MP, Receita Federal etc.
 
Guiame: Esta grande quantidade de droga foi apreendida – a maior de 2013, inclusive –, mas sabemos que, logicamente, ainda há muito a ser feito - até mesmo porque este mercado clandestino ainda movimenta muito dinheiro. Quando você pensa em todo este trabalho que ainda precisa ser feito, o que te anima ao invés de te desanimar?
 
Natan: Anima-me saber que o mundo é transformado do micro para o macro, e não o contrário. Que não se muda um país mudando uma pessoa lá na presidência, mas se muda o mundo mudando uma pessoa, que muda uma casa, que muda uma rua, que muda um bairro, que muda uma cidade, que muda um país. É assim que a Bíblia diz... o Reino de Deus é dentro de nós. É pequenino, como uma semente de mostarda... Mas ele se multiplica, e dá a 30, 60 e 100 por 1. Anima-me saber que uma apreensão como esta não salvou o mundo, mas possivelmente salvou vidas. Atrasou a morte de muitos dependentes de drogas, dando-lhes sobrevida e uma chance para mudar suas histórias. Anima-me saber que pode não ter mudado o mundo, mas mudou a realidade de algumas vidas e famílias. Anima-me saber que há uma guerra a ser vencida, mas enquanto esse momento não chega, pequenas vitórias nas batalhas do dia a dia reforçam a nossa fé de que o trabalho não é em vão. Há muito trabalho ainda a ser feito – e como sou grato por isso! O próprio preso com as 11 toneladas não foi dormir ontem sem antes ouvir que a vida dele tinha jeito, que Deus poderia mudar a história dele. Quem vai dizer se ele não precisava ouvir isso, e o que o dia era aquele? Jesus mandou que a Igreja fosse até os perdidos, e não o contrário. E Deus nos dá uma oportunidade tremenda de sermos a voz Dele, mesmo nas situações menos prováveis. Cabe a nós estarmos sensíveis a esse momento. E ter a chance de ser usado por Deus, sem dúvida, é o que mais me encoraja a prosseguir.
 
Perfil: Natan Vasconcelos é delegado da Polícia Federal há 8 anos, sediado em Fortaleza (CE). Já serviu no Amapá, Maranhão e em diversas localidades em trabalhos temporários (em missão), como agora em Dourados/MS, onde permanece até o mês de setembro deste ano (2013).

Por João Neto - www.guiame.com.br  
 
Imagens: divulgação - PF

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