Dor em retrospectiva

Dor em retrospectiva

Atualizado: Sexta-feira, 10 Janeiro de 2014 as 7:46

Dor em retrospectivaNão guardo mágoas de nada do que já passei. Eu sou co-responsável por dores que me afligem hoje.
 
No espaço da vanglória, também ostentei vaidade.
 
Na pretensiosa afirmação de saber tudo sobre Deus, também fui intolerante.
 
No silêncio oportuno dos venais, também calei.
 
Na empresa megalomaníaca de conquistar o mundo, também fui impetuoso.
 
Na absurda incoerência de não saber eleger prioridades, também violentei pessoas.
 
Há alguns tormentos graves e difíceis que, depois de tudo, pesam em minha alma. Sou ferido pela dor do nunca mais.
Nunca mais verei o meu pai no seu aniversário e eu deixei de visitá-lo para fazer companhia a pessoas que não eram amigas de verdade.
 
Nunca mais poderei ler poesia com minha mãe; só depois que ela morreu descobri sua verve poeta. Enquanto mamãe recitava Pessoa em algum sarau, eu participava de estudos sobre algum assunto que hoje desprezo.
 
Nunca mais sentarei numa cadeira de balanço com a avó Maria Cristina; depois de ouvir-me pregar em fita K7, vovó queria conversar comigo e eu, ocupadíssimo, faltava para atender colegas de ministério que depois me esfaquearam pelas costas.
 
Tudo pode ser perdoado.
 
Nunca mais jaz como granito em alguma vala do passado.
 
Desgostoso, lamento, igualmente, não ter chorado os meus mortos como deveria. Pressões de estranhos, cobranças religiosas e vozes masmorrentas roubaram a atenção que eu deveria dar ao trágico e necessário momento de vivenciar a dor da despedida. Ninguém deveria se interpor ao luto de ninguém. Na perda do Allison, a quem amei, fui obrigado a resolver conflitos, explicar-me e ouvir desaforos. Eu precisava de colo e me vi na arena, carecia de silêncio e me ofereceram tumulto.
 
Se algum fiapo de dor aparece em minha alma, ele não passa de inconformidade a tudo de importante que desprezei e perdi.
 
Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

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