Dos mistérios da vida, da morte e do céu

Dos mistérios da vida, da morte e do céu

Atualizado: Quarta-feira, 6 Outubro de 2010 as 8

Hoje em dia é difícil falar a respeito do céu como destino final do crente em Jesus Cristo. Em tempos de física quântica e universo em expansão, a crença no céu se aproxima da ignorância própria da cosmogonia medieval, que fracionava a realidade em três camadas, com a terra no meio e o inferno abaixo. Faz lembrar a postura das religiões que manipulam seus fiéis mediante a promessa do paraíso pós morte para os que obedeceram sempre e a ameaça do inferno que infunde culpa e medo nos rebeldes e fracos. Sugere a possibilidade de alienação, quando o crente menospreza este mundo em virtude de sua esperança do gozo eterno no mundo porvir.

Mas o fato é que não existe Cristianismo sem céu. Qualquer que seja a definição de céu e onde quer que seja ele, a promessa de um ambiente de harmonia, justiça e beleza, possível mediante a realização plena da perfeita vontade de Deus, é inerente à trama da fé cristã. O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é invocado desde os céus: Pai nosso que estás nos céus; a suportabilidade deste mundo se fundamenta na promessa de outro mundo: temos por certo que os sofrimentos do tempo presente não se comparam com a glória que em nós será revelada; o fim - encerramento e finalidade - da história se consuma no novo céu e na nova terra, quando dos nossos olhos "Deus limpará toda a lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas", e onde todas as nações receberão a cura proveniente das folhas da "árvore da vida, que produz seu fruto de mês em mês", pois "ali nunca mais haverá maldição contra alguém".

A promessa do céu é a resposta cristã para o sentido da vida, que não está neste mundo, mas em outro, pois se tudo quanto se pode esperar da vida é o que experimentamos hoje, Deus é um grande sádico. Caso o presente estado de coisas tenha sido criado por Deus, então ele é um péssimo criador, pois a vida neste mundo é não apenas patética como também uma piada de mal gosto. A promessa do céu é também a resposta cristã para o sentido na vida, que funciona como utopia ali e além, que ensina a viver aqui e agora.

A esperança do céu explica o coração humano, que bate ansioso até que possa descansar em Deus, conforme se expressou Santo Agostinho, pois convive com o vazio que resulta do fato de carregar em si mesmo a eternidade nele semeada por deus, conforme ensinou o Eclesiastes. Finalmente, a esperança do céu é a única garantia de vitória sobre a morte, o último inimigo a ser vencido por Jesus quando da nossa ressurreição, pois "de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem. Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo".

Desde a minha juventude carrego a esperança do céu e da ressurreição, pois aprendi e cri que "quando o selo do absoluto romano foi rompido do túmulo de Jesus Cristo no domingo da ressurreição, ficou estabelecido para todo o sempre que não apenas a morte como também todos os agentes promotores e mantenedores da morte haviam sido vencidos pela erupção da vida".

Ed René Kivitz   é mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, escritor, conferencista e pastor da Igreja Batista de Água Branca, na Zona Oeste de São Paulo, tendo obras e pastorais publicados neste site:   www.ibab.com.br   .  

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