Entrevista - Gerson Freire

Entrevista - Gerson Freire

Atualizado: Sexta-feira, 10 Outubro de 2008 as 12

"Minha mensagem tem que ser relevante"

Por Adriana Amorim

Gerson Freire é pastor da igreja Presbiteriana de Buritis, em Belo Horizonte (MG), ministro de louvor e líder no Brasil do projeto americano "Anel de Prata", uma aliança de santidade que propõe a pureza sexual aos jovens, em prol do compromisso com Deus.

Do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP), Freire estava a caminho de Santos (SP) para um evento de jovens. Do litoral de São Paulo, o pastor voltaria a Belo Horizonte para embarcar para o Japão e participar da "Conferência de Louvor e Adoração Tocando a Trobeta".

Em um café do aeroporto, de bermuda e boné, Gerson Freire, que é paulista de nascimento, tomou um café-com-leite, comeu pão de queijo e falou ao Guia-me , com o sotaque característico dos mineiros, o que pensa sobre seu ministério e como o Evangelho tem sido pregado no Brasil.

Portal Guia-me: Pastor, em seu blog você fala em relevância, que seu desejo é ser sempre relevante. O que significa isso para você?

Gerson Freire: Ser relevante para mim é a mensagem que eu prego fazer sentido na vida da pessoa que estiver ouvindo. Minha mensagem tem que ser relevante. Por exemplo, se eu prego uma mensagem que faz sentido só para mim e não tem propósito para quem está ouvindo, ela não é relevante. É apenas uma boa mensagem. Uma mensagem moralmente interessante, que vai deixar orientações morais e até éticas, mas a relevância é quando essa mensagem serve para aplicação na vida de quem está ouvindo.

Portal Guia-me: Que tipo de mensagem pode ser relevante somente para quem está pregando?

Gerson Freire: Por exemplo, o evangelho da prosperidade, essa doutrina que nasceu no Brasil a partir dos anos 80. Essa mensagem é relevante para quem está pregando. Porque o cara fica contando como Deus abençoa e ele geralmente está dando testemunhos pessoais, seja de ministério, seja dele pessoalmente. Contando como Deus o abençoou, por isso as pessoas devem fazer a mesma coisa. Só que para uma pessoa que ganha R$ 420,00 por mês, essa mensagem não faz sentido algum. Prosperidade para esse trabalhador é uma outra coisa, é ter uma boa família, emprego. Prosperidade para o cara que está vivendo dessa mensagem de prosperidade é ganhar cada vez mais, é acumular cada vez mais. Então, essa mensagem, o evangelho da prosperidade, é uma mensagem irrelevante, só faz sentido para quem prega, não para o Reino e para quem está fora do Reino. As pessoas que estão ouvindo estão falando: Meu Deus, que loucura! Esse negócio faz bem para o cara, mas só para ele, para mais ninguém. O reino não colhe com isso, quem colhe com isso são o que eu chamo de "mini-reinos" pessoais, que acabam beneficiando-se disso. Para o reino de Deus isso não faz sentido e para a vida cotidiana do cara também não. Por quê? Porque Deus nos abençoa "apesar de". A benção de Deus não é negociada, não é comprada no cash. Ela é vivenciada, experimentada pela fé e pela graça. Está provado historicamente, os EUA já viveram isso, as igrejas já passaram por esse momento dos televangelistas na década de 70 e 80 e, para o Brasil, isso está chegando agora, pregando a mesma mensagem, então é uma repetição. Lá não deu certo e aqui também não está dando, é apenas um movimento que para mim traz mais constrangimento para o evangelho do que abençoa. Agora educação, por exemplo, quem ministra e prega os princípios da palavra para educar a pessoa numa visão integral, isso é relevante. Porque aí vai ensinar a pessoa a viver aqui e agora e para o Reino.

Portal Guia-me: No seu blog o senhor também fala em "destruir toda construção de fé plastificada". Que tipo de fé é essa?

Gerson Freire: A fé plastificada são as fórmulas. Você entra hoje em qualquer livraria e vê que nós vivemos hoje uma crise da auto-ajuda. Todo mundo tem os seus sete passos para isso, seja feliz fazendo isso, emagreça com Jesus (risos), como ficar rico sem trabalhar. Os assuntos são até perversos. E isso eu chamo de fé plastificada, mas tem a ver com o momento que estamos vivendo, consumista. A fé ela hoje, e agora eu falo até a partir da minha pesquisa, a fé protestante, neopentecostal, começou a caminhar muito próximo do consumismo, então, você tem os "fast-foods da fé". Você entra, grandes conferências e tal, e ali vai acontecer algo que é fast-food, são quatro dias, um spa e a vida muda. Isso entrou para o contexto da fé e também não é relevante, não tem nada a ver com a mensagem original, a que Jesus pregava. Nada a ver, mas é uma resposta e aqui eu não quero emitir juízo de valor, do momento social que o Brasil vive. Faz bem para a grande massa se sentir ajudada em duas semanas, quatro semanas, sei lá, em três dias de conferência.

Portal Guia-me: No seu blog eu encontrei opiniões contundentes, essas avaliações estão nas suas ministrações?

Gerson Freire: Nas ministrações, nas palestras, eu parei de emitir. Eu percebi em um auditório com 300, 400, 500 pessoas, você não consegue perceber quem está, mesmo que seja para um grupo específico. Mesmo em uma palestra para universidades, por exemplo, vem gente que de repente não é do grupo, não vai entender e eu só tenho aquele momento para comunicar algo, então, eu tenho que ser mais objetivo. Eu falava, mas me arrependi. Às vezes, eu dizia algumas coisas publicamente e não dava tempo de explicar. No blog, eu falo porque ali eu tenho todo espaço do mundo para explicar, inclusive se alguém fizer alguma pergunta, eu respondo. E no meu site, eu também tenho um lugar com perguntas e respstas. A pessoa perguntam e eu respondo e aquilo ali está legal, está rodando, cheio de perguntas, um canal de comunicação.

Eu sou polêmico, isso faz parte da minha natureza, mas eu também sou ensinável, também faz parte. Quando a gente vai andando com Jesus, aprendemos que ele era polêmico, mas ao mesmo tempo prestava atenção na necessidade dos outros. Ficar calado é a melhor maneira de ser polêmico, não falar nada. Eu percebi isso também, vamos amadurecendo na vida, mas eu falo o que eu penso. Até para eu mesmo guardar meu coração, não ficar com o coração fechado, endurecido, mas existem formas de falar e eu estou me educando para falar de forma mais tranqüila. Mas, nas ministrações, eu tento não entrar em assuntos polêmicos, em auditórios abertos, porque não vai valer a pena. Mas eu falo objetivamente, dentro da palavra, dentro daquele objetivo, agora se me chamarem para um debate eu mando bronca (risos).

Portal Guia-me: Expressar-se de maneira livre e se expor faz com que algumas pessoas deixem de confiar em seu ministério?

Gerson Freire: Acontece isso. Muito legal a sua análise! Eu já gostei da análise jornalística! Porque acontece exatamente isso. Quando as pessoas vão me conhecendo, falam: 'Cara, é impressionante, você sofre, eu li lá no seu blog que você está com raiva de fulano'. Eu falo é, e você, não fica não? 'Mas você é um líder de ministério'. Mas sou gente, eu luto pela humanização do ministério, sério mesmo, porque aí a glória fica sendo só de Deus. Se acontece alguma coisa na minha  vida e por meio da minha vida, eu tenho certeza que não é a minha capacidade de persuasão ou de conquistar alguma coisa, é única e exclusivamente a graça de Deus. E pela misericórdia de Deus, sou usado como instrumento, eu ponho-me à disposição. É Deus, não tem nada a ver comigo.

Portal Guia-me: Mas, no momento em que você está escrevendo, está assumindo que a raiva vai dominá-lo?

Gerson Freire: Não, no momento em que eu estou escrevendo eu estou com raiva, por isso eu escrevo coisas ali, como: 'Eu não gostei do que esse cara fez comigo, tal, tal, tal'. Escrever para mim é terapêutico, eu escrevo para eu ler, por acaso está em um blog, outras pessoas lêem. Depois eu fico relendo e falo poxa, olha só, esse dia eu estava sentindo isso, isso e isso. Graças a Deus, Ele já tratou no meu coração e não estou mais com esse sentimento. Agostinho tem uma frase assim: "Para ser homem assim, só sendo Deus", ele estava falando de Jesus. Como que Jesus assumiu a sua humanidade e viveu isso numa perspectiva divina. Eu busco isso para minha vida.

Portal Guia-me: É como Davi, que pecou mas foi um homem segundo o coração de Deus?

Gerson Freire: Olha, você chegou no meu personagem preferido, é o "Dádá", eu o chamo de "Dádá". Ele é meu personagem preferido, porque as mazelas da alma não intereferiram no propósito que Deus tinha para a vida dele. Ele sofreu por causa de suas mazelas, das escolhas erradas, ele sofreu e eu acho que a gente é assim. Por isso que eu falo: "Diante dele não existem grandes nem sobrenaturais", essa frase nem é minha, é do João Alexandre.

Davi mesmo falou: "Eu não pedi para ser rei. Eu estou aqui porque eu fui entregar uns queijos e uns grãos e voltei coroado rei". Ele disse: "Foi Deus quem me colocou aqui". E ele viveu a sua humanidade e ao mesmo tempo a esperança, viveu pela fé. Essa contradição, na verdade, esse paradoxo, porque um precisa do outro mostra que o ser humano só vive a fé se ele for homem. Um cachorro não vive a fé. Ele precisa da humanidade para viver o divino e o divino precisa da humanidade. Anjo não se arrepende, anjo pecou, dançou. Só o ser humano vive a experiência da reconciliação.

Portal Guia-me: Esse é o evangelho simples, como você fala em seu blog?

Gerson Freire: O evangelho simples é buscar viver simples, apesar de que nossa vida moderna, pós-moderna e hiper-moderna, não é nada simples. Quantas senhas você tem que decorar hoje? Pelo amor de Deus! Que coisa absurda! Nós vivemos hoje dependentes de carregador, carregador de celular, de pilhas, de notebook, carregador de não sei o quê. O que era para simplificar a nossa vida, complicou. E-mails, msn,orkut... eram para simplificar. Então, a idéia do evangelho simples já é um desafio por vivermos essa época. Vivemos uma vida corrida, todo mundo tem que trabalhar. Trêns, principalmente aqui em São Paulo, meu Deus do céu! Eu não moraria aqui em São Paulo. A pessoa diz: 'Saí 5h30 cheguei às 7h , estou feliz!' Feliz? Eu saio cinco e meia, quinze para às sete eu estou em casa. Hoje, principalmente para a classe média, classe média ascendente, é difícil viver uma vida simples. O pessoal quer estudar, são muitas exigências de mercado. Então, achar a vida simples por si só já é difícil. Dentro disso, achar a vida simples no Evangelho torna-se um desafio. Eu creio que nós vamos voltar para as pequenas comunidades de vida. Vai chegar uma hora que o povo vai falar assim: 'Vamos comprar uns lotes junto aí, vamos ver se a gente cria os nossos filhos na mesma região, coloca na mesma escola, eu te ajudo, você me ajuda, a 'gente vai a mesma igreja'.

Portal Guia-me: Isso se der tempo, não? Se Jesus não voltar antes.

Gerson Freire: É, pode ser que volte até lá, mas alguns teólogos que eu estou lendo também pensam a mesma coisa, como Mcdowell, ele também fala isso. Não sabe quanto tempo as pessoas vão conseguir sobreviver a esse ritmo. Agora, dentro disso, dá para viver uma vida simples, de perdão, de recomeço, de reconciliação, de adoração? É difícil. Que engraçado, viver o simples hoje tornou-se um grande desafio.

Portal Guia-me: Estudar o "simples" não deixa o evangelho mais complicado também?

Gerson Freire: É [...]. Até para estudar o simples você precisa estudar o teórico, o cara que fez o doutorado em vida simples (risos). É isso mesmo. Eu fui tradutor do  Mcdowell no Brasil e a palestra dele foi extremamente complicada, falava de vida simples. Todos os termos sociológicos, meu Deus! E falando de vida simples. Agora, eu tento viver com a minha família, a igreja onde eu pastoreio, alguns amigos, eu tento viver essa realidade. Uma vida simples, sem frescura, sem barreira. Reconhecendo o que Deus fez, sem ter medo um do outro. Porque eu não quero, olha eu tenho uma frase, e essa frase é minha (risos), fui eu que criei: "O que eu sou não me impede de pregar o que eu sei. E o que eu sei não me faz mais do que eu realmente sou". Porque a revelação de Deus e a busca do conhecimento, do estudo, vai te levar a ter conclusões fantásticas e, às vezes, completamente absurdas. O próprio apóstolo Paulo disse: 'Tem coisas que eu sei, que eu não posso nem falar'. Não dá para falar, ningém vai entender, mas isso não faz mais do que eu realmente sou, pecador arrependido que precisa da graça de Deus para viver.

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