Escolhidos por Jesus, discriminados por cristãos

Escolhidos por Jesus, discriminados por cristãos

Atualizado: Terça-feira, 2 Março de 2010 as 12

Camuflada em sermões, a discriminação tem criado um contingente cada vez maior de pessoas que se depara com uma realidade aquém da pregada nos púlpitos. Sob pseudos argumentos bíblicos ou preconceitos enraizados, líderes e membros criam a camada dos preteridos de Deus. "Achar que o mero aumento quantitativo de evangélicos no Brasil vai diminuir a discriminação é ingenuidade", observa o sociólogo Gedeon Freire de Alencar, diretor do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos.

"Atualmente sinto vergonha, remorso e também arrependimento. Anos se passaram até que Deus quebrasse a fortaleza do racismo descarado que havia dentro de mim". A afirmação, do jornalista americano Phlip Yancey, demonstra a formação do indivíduo atrelada à aversão pelo outro de pele negra. O racismo, segundo Hernani Francisco da Silva, perpassa por todos os segmentos eclesiásticos - teológico, doutrinário, nos ensinos e cânticos. "Muitos pregadores ainda usam ilustrações nos púlpitos para falar do pecado e usam a cor negra associando ao mal. As revelações  são cheias de vultos pretos e o homem negro para mostrar a presença do diabo", exemplifica Hernani, criador do Afrokut - rede social que debate assuntos relacionados aos negros nas igrejas - e do Selo Editorial Negritude Cristã.   

Denunciado na sociedade por líderes como Martin Luther King na década de 1960, à frente da luta pelos direitos iguais nos EUA, o racismo, previsto sob pena de prisão inafiançável no Brasil, ganha uma nova aparência quando inserido no cristianismo, sob a ótica de que "todos são iguais perante a Deus". No entanto, a própria teologia discriminatória demonstra o contrário, quando justifica a escravidão e a inferioridade do negro baseada na maldição de Cam, registrada no livro de Gênesis.

"Em nossas igrejas existem dois tipos de discriminação racial: o que vem da sociedade e o que a própria igreja criou. E a forma mais comum da manifestação desse racismo criado na igreja  aparece  na demonização de tudo que é negro e africano", analisa Hernani.    

Vítima da discriminação étnica por parte de um pastor, pai de sua então namorada branca, Hernani conta que o próprio pregador sentiu um golpe, quando sua mãe ficou viúva e se casou com um negro. "Esse pastor quase que morria de desgosto se revelando um tremendo racista", relembra o ativista que se solidariza com àqueles que compartilham o mesmo sentimento. "É uma dor lá de dentro, uma ferida muito difícil de ser sarada. Não sofra calado, denuncie, fale, lute.  Não deixe que esse mal destrua sua autoestima", aconselha.

O sentimento de (auto)rejeição é intensificado na medida em que o cristão encarna mais papeis discriminados. "Um gay rico, vip, celebridade (sic) é alvo de discriminação onde? Um gay pobre, negro, favelado é discriminado em todos os lugares e por todos", aponta o sociólogo Alencar.

Existe ex-gay?

Da difícil aceitação na sociedade, por ainda carregar trejeitos ou ter praticado a homossexualidade, o ex-gay é questionado quando se converte ao cristianismo no próprio ambiente eclesiástico. "O pastor oficial da igreja em que eu congregava disse-me que não acreditava que homossexuais poderiam se libertar. Em outras palavras, ele disse que não acreditava na minha transformação", afirma Claudemiro Soares, autor do livro "Homossexualidade Masculina: Escolha ou Destino?".

Às semelhanças com uma sociedade referida como secular, em que é apresentado um modelo apartado do mundanismo, é acrescentado a força da militância LGBT (Lésgbicas, gays, bissexuais e transexuais) na própria comunidade evangélica. "Entre os cristãos, muitos dizem amar os pecadores, mas a verdade é muito diferente disso. Mas é importante deixar claro que há pessoas hipócritas em todo lugar. (...) Além de desconhecerem as escrituras, muitas pessoas acreditam na mentira que o movimento gay propaga aos quatro ventos, segundo a qual as pessoas já nasceriam gays e de que não existem ex-homossexuais", analisa Claudemiro.

Segundo ele, "a igreja deve mudar para tornar-se mais próxima dos ensinos de Jesus. Isso não tem nada a ver com aceitar a homossexualidade como algo natural, afinal, as escrituras deixam claríssimo que isso é totalmente antinatural".

Cadê o milagre?

Na medida em que igrejas propagam a chamada teologia da prosperidade, algo que destoa do ser abençoado denuncia a ineficiência de um sistema religioso adotado por denominações em que determinações de cura, "em nome de Jesus", são confundidas com "faça-se a minha vontade", e não a de Deus.

Ainda não convertido ao cristianismo, Luiz de Jesus, formado em administração, viveu o drama de ver seu primeiro filho recém-nascido na UTI, com uma hemorragia intracraniana com posterior hidrocefalia, meningite, crises convulsivas, quatro cirurgias, duas válvulas de Hakin e três meses em coma. "Fui à igreja buscar a cura de Deus e encontrei o Deus da cura. Cura da alma, da amargura e da decepção... Não havia nenhuma esperança da medicina, porém lutava para crer contra a esperança", disse Luiz que passou a cobrar de Deus uma cura que não viria.

"Quando levei o meu filho no altar o pastor disse: '- Meus irmãos! Deus quando faz a obra, não faz pela metade, Ele a faz completa'. Ao olhar o meu filho todo torto, sem sustentação na cabeça, sem movimento do lado esquerdo, não esboçando nenhuma expressão facial como choro, riso, não sabia se ele ouvia ou se enxergava, (...), confesso que tinha dificuldade tremenda para ver ali uma 'obra completa'. Mas anos depois, entendi que ali era apenas uma moldura de um quadro, cuja obra Deus começara a pintar na minha vida", recorda.

Entendendo que a Igreja não discrimina de forma proposital os deficientes, Luiz de Jesus acredita que a comunidade evangélica "não está preparada para trabalhar nem com os iguais, quem dirá com os diferentes".

A invisibilidade dos deficientes nas praças, feiras e shoppings é quase que uma exigência oculta numa instituição em que "os deficientes físicos e mentais 'estragam' a festa. Doentes só servem para ser curados", como ressalta o sociólogo Gedeon. "No meio tradicional calvinista, é um incomodo contra um 'desígnio divino' (?) que condenou um ser humano a esta vida. Daí, a melhor coisa é não falar no problema", explica ao Guia-me o sociólogo.

A angústia para um cristão que tem um filho especial se intensifica por uma promessa de cura que não vem.  "Estava sendo egoísta, exigindo uma cura, como se eu dependesse dela para amar o meu filho. (...) A cura passou a ser secundária".

A favor capacitação dos professores das escolas dominicais e da reformulação do próprio espaço físico do templo, de maneira que facilite a circulação dos cadeirantes, Luiz não defende a segmentação na defesa pela inclusão social.

"Essa inclusão da criança especial na Escola Bíblica Domincal, vai fazer com que as outras crianças aprendam desde cedo a conviver e a respeitar as diferenças", analisa o pai do jovem André de Jesus que em 2001 participou do Teleton com a crônica "Excepcionalmente Falando".

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