"Está faltando bom senso", afirma pastor sobre questão do aborto

"Está faltando bom senso", afirma pastor sobre questão do aborto

Atualizado: Quarta-feira, 20 Outubro de 2010 as 10:20

Desde o fim do primeiro turno os discursos oferecidos aos eleitores pelos dois candidatos à presidência da República passam pelos púlpitos e altares das igrejas antes de chegar aos palanques. A influência da visão religiosa sobre os programas de governo foi tamanha que os dois postulantes ao Palácio do Planalto adotaram símbolos e palavras cristãs para se dirigir aos eleitores/fiéis e começaram a angariar apoios de líderes religiosos para atrair esse eleitorado. No Rio Grande do Norte, representantes de diversas instituições declaram estar cautelosos acerca desse fenômeno.

Dom Matias diz que a discussão do aborto não deve ser políticaEntre todas as questões polêmicas, o aborto foi a que despertou maior interesse. Descriminalizar ou não descriminalizar? Os religiosos são contra descriminalizar e se mostraram dispostos a expressar essa contrariedade através do voto. Com isso, líderes influentes passaram a declarar apoio a candidatos específicos e a visão religiosa pautou o debate. Silas Malafaia, pastor da Igreja Assembleia de Deus, declarou apoio ao candidato do PSDB, José Serra, enquanto o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, se manifestou em favor da candidata do PT, Dilma Roussef. Esses são apenas dois exemplos no plano nacional.

Em terras potiguares, pastores, padres e outros líderes afirmam evitar a entrada de "comícios" em cerimônias religiosas. Entre os procurados pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, nenhum citou apologia a candidatos e partidos dentro das igrejas e demais templos religiosos. Contudo, com relação ao aborto, todos se manifestam contra e acreditam que a discussão acerca desse tema é tão válida quanto qualquer outra. A liberdade de voto de cada eleitor deve ser assegurada, dizem.

O arcebispo de Natal, dom Matias Patrício, afirmou não ser permitido que padres façam menção a candidatos e partidos durante a missa e que nenhum vigário tem o poder de falar pela Igreja Católica a respeito de política. "A Igreja não tem partido", diz, ecoando cartilha distribuída pela Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB). Contudo, o tema "eleições" não é proibido dentro das igrejas. "O padre pode e deve orientar o eleitor no sentido de votar com consciência e participar do processo, mas nunca partidarizando o sermão. Essa não é a função dele", diz dom Matias. Casos de padres "fazendo campanha" fora da igreja precisam ser analisados "caso a caso".

Entre os evangélicos, a rejeição por levar o debate político-partidário da campanha presidencial para os púlpitos é quase unanimidade. "Está faltando bom senso, o que todos devem ter para discutir assuntos como estes que estão sendo abordados pelos partidários dos candidatos Serra e Dilma", avalia o reverendo Mardes Pereira da Silva, da Igreja Betesda de Natal.

Para ele, a discussão sobre temas como o aborto a partir das visões religiosas no âmbito de uma campanha "é inapropriada". Para o reverendo, "isso tudo tem sido manipulado com fins eleitoreiros. Nós sabemos que não há, de nenhum lado, um interesse real para se trabalhar a questão do aborto, dos direitos humanos, do casamento homossexual e outros".

Apesar de fazer ressalvas à prática do aborto - "a Bíblia é clara, quando diz não matarás!" - o reverendo da Igreja Betesda lembra que "não será uma lei regularizando ou proibindo o aborto que vai impedir a prática". Ele chama a atenção para o fato de que o aborto é praticado tanto por quem tem dinheiro como por mulheres carentes. "A diferença é que estas últimas acabam na rede pública, direto das clínicas clandestinas onde foram mal atendidas". E ainda considera "um absurdo" que grupos religiosos se apropriem desses temas para tentar  impedir uma discussão séria sobre direitos que ele considera legítimos.

Sandra Borba, vice-presidente da Federação Espírita do Rio Grande do Norte, e Luís Martins da Silva, representante da Maçonaria, vão na mesma linha do arcebispo metropolitano. Eles preferem desvincular totalmente a instituição religiosa do processo eleitoral. "A Federação Espírita do RN não toma posição em favor de candidatos e nem permite que nenhum de seus membros faça esse tipo de vinculação em seu nome. Mas também não podemos criticar ou julgar os representantes de outras crenças que façam isso", diz Sandra Borba. Eis a opinião de Luiz Martins: "A Maçonaria nunca interferiu no processo eleitoral e nem fez campanha para qualquer candidato. O trabalho que a instituição faz é social, sem vinculação com políticos. Mantemos distância".

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