Evangélica tenta provar na justiça que está viva

Evangélica tenta provar na justiça que está viva

Atualizado: Segunda-feira, 24 Janeiro de 2011 as 3:36

"Sou uma morta-viva." É assim que a comerciante Sandra Américo de Oliveira, 57, de Ribeirão Preto, se autodenomina desde 2007.

Foi naquele ano que ela descobriu que Antônio Leodoro da Silva, seu ex-marido, estava morto.

Por engano, na certidão de óbito foi escrito que ele era "viúvo", o que tornou Sandra oficialmente morta.

"Ele morreu e me levou junto. Só que eu estou vivinha da silva e até hoje não consegui provar isso para a Justiça", disse.

Toda a confusão na vida de Sandra começou em 1997, quando se casou com Silva, em Foz do Iguaçu (PR).

Evangélica, ela conheceu o ex-marido por indicação da igreja e só o viu uma única vez antes do casamento.

A cerimônia aconteceu do jeito que ela sempre sonhou: vestida de branco, com direito a véu, grinalda e na igreja a qual pertencia. Mas o matrimônio durou pouco --apenas um mês e 15 dias.

"Eu o flagrei tendo relações sexuais com uma cabra. Fiquei horrorizada e fui até a igreja falar com o pastor."

Com a revelação, Silva passou mal. Sandra aproveitou para voltar na mesma noite para Ribeirão Preto.

Na sequência, ela procurou um advogado para se separar oficialmente, mas não conseguiu localizar Silva. Só dez anos depois, em 2007, soube da sua morte.

Ainda naquele ano, Sandra tentou receber a pensão do ex-marido no INSS e veio uma surpresa ainda maior: "A atendente falou que eu não poderia receber nada porque eu estava morta".

Para consertar o problema, ela pediu a retificação do registro de óbito do ex-marido já naquele ano --o que foi aceito pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, no ano passado.

O problema persiste até hoje porque o cartório de Medianeira, no Paraná, diz que ainda não recebeu os documentos.

Assim, Sandra não consegue abrir conta em bancos nem fazer crediários, perdeu a chance de conseguir uma casa pela CDHU e não pode colocar o carro que comprou em seu nome.

Apesar de viver há sete anos com outro companheiro hoje, Sandra também não consegue o direito de se separar legalmente.

"Sem contar que sou descriminada na minha igreja. Eles não aceitam esse tipo de união que tenho. Fico triste, porque a religião é muito importante para mim."

"NEM NASCI"

No dia em que a reportagem da reportagem conversou com Sandra, na sexta-feira passada, ela soube que nem mesmo sua certidão de nascimento pode ser encontrada. A original, ela diz ter deixado em Foz do Iguaçu, durante o casamento.

Já no cartório de Presidente Prudente, cidade onde nasceu, ninguém acha seu registro.

"Era só o que me faltava. Agora além de morta, nem nasci. Mas eu estou viva. Quer me beliscar para ter certeza?"

O caso de Sandra não é o primeiro registrado em Ribeirão Preto. Em outubro de 2010, o pintor Cícero Rodrigues dos Santos, 43, descobriu que havia sido declarado morto quando foi transferir o documento do carro.

O problema, segundo Santos, foi que um homem que morreu em Luiziana (PR) tinha o mesmo nome e o número de CPF que ele.

"Foi um transtorno conseguir provar que eu era real e não um morto".

O pintor conta que gastou --entre honorários de advogados, documentação e dias perdidos de trabalho-- cerca de R$ 5.000 e agora vai entrar na Justiça para tentar sair do prejuízo.

"Também vou pedir indenização pelo constrangimento que passei durante este período. Não foi fácil aguentar as gozações", disse ele, hoje legalizado.

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