Evangélicos ajudam mulheres em situação de gravidez indesejada

Evangélicos ajudam mulheres em situação de gravidez indesejada

Atualizado: Segunda-feira, 5 Setembro de 2011 as 11:22

Aos 12 anos de idade, a jovem Iná descobriu que a sua mãe havia tentado abortar o seu irmão caçula. Soube disso pela própria mãe que, com dois filhos e o marido desempregado na época, foi aconselhada a tirar a criança. Até tentou, o bebê resistiu, mas a saúde dela não. Sofreu sérias complicações, ficou em coma, e, no desespero, a família recorreu às orações de um grupo de evangélicos. Na mesma noite, a criança nasceu, e todos creram no poder de Deus.

Esta história marcou a vida da missionária Iná Sobolewski. Ainda jovenzinha, passou a olhar com compaixão as mulheres que enfrentam uma gravidez indesejada, e hoje ela é ferramenta de Deus para salvar vidas indefesas ainda no ventre de suas mães: “Somente depois que me casei com um americano e nos mudamos para Chicago, descobri que havia mais de três mil centros de ajuda às mulheres que enfrentam uma gravidez indesejada nos Estados Unidos. Eu me voluntariei e por oito anos trabalhei nos centros de Chicago. Em 1999, o Senhor começou a falar em meu coração para abrir centros deste tipo no Brasil. Naquela época, tínhamos duas bebês (Rachel, hoje com 16 anos, e Rebecca, com 13) e eu considerava essa missão algo impossível, mas Deus abriu as portas”.

Foi por meio da organização Life International, sediada em Grand Rapids, Michigan, que Iná trouxe este tipo de ajuda ao Brasil, por meio da Brazil4Life, uma organização cristã que prepara instituições para dar suporte e apoio às mulheres que enfrentam uma gravidez indesejada. Em maio de 2000, nascia a primeira das cinco associações, que se estabeleceram com o respaldo da Brazil4Life. Só em São Paulo já foram atendidas mais de nove mil mulheres em onze anos. Se avaliarmos as estatísticas este número, apesar de significativo, é uma gota no oceano. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), metade das gestações é indesejada e uma a cada nove mulheres recorre ao aborto. No Brasil, os cálculos do Ministério da Saúde mostram que o índice de abortamento é de 31%. Ou seja, ocorrem aproximadamente 1,44 milhão de abortos espontâneos e inseguros.

Um estudo recente, realizado em 2010, estimou que o aborto é tão comum que, ao completar 40 anos, uma em cada cinco mulheres já interrompeu a gravidez, segundo a Pesquisa Nacional de Aborto realizada pela Universidade de Brasília e pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Instituto Anis).

Aos evangélicos e católicos que durante as eleições presidenciais esbravejaram contra a proposta de descriminalização do aborto, diante destes números tão alarmantes, não há motivos para considerar que a luta em defesa de vidas indefesas está ganha. Ainda há o outro lado desta moeda: o drama das mulheres que praticam o aborto: “Elas precisam de ajuda psicológica, de alguém para ouvi-las e, acima de tudo, aceitar o perdão de Deus. Ele nos perdoa, mas precisamos aprender a aceitar o Seu perdão e vivermos livres”, destaca Iná.

Fora do âmbito religioso, o aborto é tratado como um problema de saúde pública, mas o governo ainda não traçou uma estratégia eficaz para combater a prática que tem custado a vida de muitas mulheres que se submentem à procedimentos abortivos de alto risco.

As ideias lançadas para amenizar este problema, geralmente são envoltas de polêmica. Uma das mais recentes refere-se ao projeto de lei 1618/11, do deputado federal Roberto Britto (PP-BA), que pretende criar um serviço telefônico que oferece informações sobre métodos contraceptivos e aborto.

A medida, segundo o deputado, possibilitaria às mulheres que já recorreram a abortos clandestinos receber a devida orientação por parte de profissionais preparados.

No meio evangélico, já houve manifestações contrárias à proposta. No site da igreja Sara Nossa Terra, conduzida pelo deputado federal bispo Robson Rodovalho, havia a seguinte chamada para o assunto: “Deputado quer que o SUS auxilie abortos por telefone”. Em conversa com a reportagem da Exibir Gospel, Britto nega que essa seja a intenção do projeto: “É precisamente o contrário. Queremos dissuadi-las de fazer o aborto. Isso não é uma questão religiosa, é solidariedade com a vida humana”. Sobre os esclarecimentos dados a quem já abortou, o autor do projeto é firme. “Claro que se a mulher já fez o aborto, o objetivo será orientá-la para que ela procure um médico o mais rápido possível, para evitar infecções, sangramentos ou outros problemas graves de saúde”.

Complicações derivadas de um aborto clandestino são mais comuns do que se pode imaginar: entre 1995 e 2007, a curetagem depois do procedimento de aborto foi a cirurgia mais realizada pelo SUS: 3,1 milhões de registros, segundo pesquisa do Instituto do Coração da Universidade de São Paulo.

  Brazil4Life: veja o que as igrejas podem fazer Limitar-se à mera oposição à liberação do aborto é pouco diante da dimensão que o problema tomou no Brasil. Mas o que as igrejas evangélicas podem fazer a respeito? A Brazil4Life tem essa resposta. Ela prepara instituições para prestar apoio às mulheres que enfrentam uma gravidez indesejada.

O propósito é dar todas as ferramentas para que núcleos de apoio possam ajudar essas mulheres a experimentar uma nova vida em Cristo, salvar vidas em gestação das consequências do aborto e dar a elas o apoio necessário para manter o bebê. Na prática, o trabalho Brazil4Life passa por abrir os centros, organizar os voluntários, dar treinamento e acompanhamento. Todavia, cada centro é independente e se encarrega de arrecadar os seus próprios recursos, recrutar voluntários e estabelecer a diretoria.

Toda vez que alguma igreja ou entidade evangélica demonstra interesse em abrir um centro de ajuda à mulher, a Brazil4Life vai ao local gratuitamente, dá o curso inicial de aconselhamento, instruções sobre como proceder e retorna várias vezes para dar mais cursos ou o que for preciso.

O primeiro centro aberto com a ajuda da organização foi em 1999, na cidade de São Paulo. Belo Horizonte, Niterói, Rio de Janeiro e João Pessoa também possuem organizações que foram treinadas pela Brazil4Life.

  Só polêmicas Nem sempre os evangélicos falam a mesma língua quando o assunto em pauta é o aborto. Várias declarações lançadas na mídia só criaram polêmica e em nada contribuíram para um debate cristão. Teve até pastor que se mostrou a favor da legalização da prática. Foi o caso do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, que polemizou em um texto no seu blog ao se afirmar favorável à descriminalização do aborto. “Tenho esta opinião principalmente porque a fé que eu professo me impede de exaltar a hipocrisia. O aborto não é a causa do problema, é o efeito. O problema começa antes, na falta de informação, principalmente nas camadas financeiramente menos favorecidas”, escreveu.

Em contrapartida, o pastor Silas Malafaia, presidente da Associação Vitória em Cristo, durante participação de um programa televisivo em outubro de 2010, reiterou que permitir aborto em casos que a mãe comprove que não tem condições para criar a criança é dúbio. Sem citar o nome de Edir Macedo, disse que é perigoso “um pastor cristão falar essa bobagem, porque assim estamos dizendo que o pobre não pode ter filhos. Como se ser bandido, pilantra ou safado fosse apenas coisa de pobre”. Ele afirmou que, “em 99,9% dos casos, o aborto é fruto de promiscuidade e irresponsabilidade”, acrescentando que “o procedimento é, na maior parte das casas, imposição da família e do macho”.

O desafio dos Centros de apoio Cerca de 60 mulheres por mês, incluindo mães solteiras, de todas as classes sociais, entre 16 e 28 anos, passam pelo Centro de Reestruturação para a Vida (Cervi), fundado em 2000 na capital paulista, com a finalidade de estender a mão para mulheres que enfrentam uma gravidez indesejada.

Pessoalmente, por telefone ou pela Internet, o centro dá apoio físico e emocional nesse momento tão delicado. Auxilia no encaminhamento médico, ajuda com a doação de parte do enxoval, para quem é acompanhada desde o início da gestação, oferece aulas de cuidados do bebê e grupos de estudo para o neonatal e sinais de parto, além de palestras sobre planejamento familiar e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Desde sua fundação mais de nove mil mulheres já foram antendidas.

No caso em que o aborto já foi realizado, o Cervi entra com o auxílio psicológico, emocional e, sobretudo, espiritual. “Este acompanhamento leva um tempo, alivia a dor, mas tem cicatrizes que não saram nunca. O mais importante é elas se perdoarem, confessarem o seu pecado e saber que Deus as ama e as perdoa”, diz Rose Santiago, diretora-executiva do Cervi.

Os pais também são envolvidos no programa e recebem um apoio específico. “Trabalhamos com aquilo que chamamos de paternidade responsável. Fazemos o acompanhamento e os conscientizamos da necessidade de apoiarem a gestante e assumirem a criança. É muito importante os pais não ficarem fora”, alerta Rose, que é formada em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo.

No Rio de Janeiro, outra experiência bem-sucedida da Brazil4 Life: a ONG de Apoio a Mulheres com Gravidez Indesejada (AMGI), localizada em Niterói. A organização foi criada em 2009 e conta com o auxílio da Associação Vitória em Cristo. Cerca de 40 mulheres são atendidas no local, dentre elas grávidas e mães que já deram à luz. Elas passam por aconselhamento com a diretora e pastora Andréa Antunes Nascimento, que encaminha, quando necessário, alguns casos para psicólogos. De acordo com a pastora, a maioria delas se sente incapaz de criar um filho, devido à condição financeira. “As mães são muito carentes e algumas pensam em abortar por não terem como criar o filho”, contou. O projeto fornece cestas básicas, fraldas e enxoval, e coloca à disposição acompanhamento com uma médica obstetra.

  O que diz a lei brasileira No Brasil, o Código Penal descreve que o aborto é crime contra a vida, com prisão de um a dez anos. Porém, dois tipos de abortos são passíveis de não-punição: quando não há outro meio de salvar a mãe e resultado de estupro. Nesses dois casos, a não-punição vale somente quando o aborto é realizado em clínica médica especializada. Dois artigos merecem destaque dentro do Código Penal, o 124 e o 125. O art. 124 diz que provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque, a pena é de um a três anos de detenção. Já o art. 125 prevê prisão de 3 a 10 anos quando o aborto é provocado por terceiros sem consentimento da gestante.

  O que dizer para uma mulher que pensa em aborto Em Mateus 18:10, Jesus diz para não desprezar nenhum destes pequeninos. O mais irônico é que de todos os pequeninos, aqueles que ainda estão no útero são os mais indefesos, portanto, os mais fáceis de serem desprezados e destruídos. A vida começa no útero (Jó 31:15, Salmo 22:9-10, Salmo 139:13-16, Isaías 44:2, Isaías 44:24). Todos nós somos planejados por Deus, não importa a forma que fomos concebidos.

Profetas escolhidos desde o ventre: Juízes 13:6-7, Juízes 16:17, Isaías 49:1, Isaías 49:5, Salmos 22:9-10, Jeremias 1:5, Lucas 1:15, Gálatas 1:15.

Para a mulher que já fez aborto, ela precisa aceitar o perdão de Deus, mas primeiro é necessário confessar a Deus. Leia Salmos 32:3-5 e Salmo 51, para ver exemplos de como pedir perdão a Deus.

Em Provérbios 28:13 diz: o que encobre as suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia. I João 1:9 diz que se confessarmos nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.

“Este é o trabalho que Cristo nos ensinou” Quando Jesus conversou com a mulher no poço e perdoou a outra mulher que estava prestes a ser apedrejada, Ele deu um grande exemplo para a igreja dele. Nós não devemos apoiar o erro das pessoas, mas precisamos dizer a elas que Jesus salva, perdoa e dá uma nova chance. O mundo precisa saber que a igreja não está lá somente para os "corretos e santos". Muitos de nós temos a tendência de criticar as mulheres que fazem aborto e até mesmo evitá-las, mas este não foi o exemplo que Jesus nos deu. Devemos nos lembrar que somos todos feitos à imagem de Deus e que a jovem que engravidou antes do casamento é amada por Jesus da mesma forma.

Todo político consegue ser eleito ao apoiá-las porque eles demonstram compaixão e solidariedade à pessoa que deseja fazer o aborto. Nós, evangélicos, podemos fazer o mesmo ou ainda melhor, mesmo depois que as "eleições" terminam, nós continuaremos a apoiar a mulher, se ela está enfrentando uma gravidez indesejada, queremos ouvi-la, queremos saber porque ela deseja abortar, o que podemos fazer para que ela escolha vida para o bebê, este é o trabalho que Cristo nos ensinou.  

Leia  alguns depoimentos de mulheres assistidas pelo Cervi

“Deus colocou luz na minha vida” Tenho 17 anos, fui vítima de violência sexual e engravidei. Com medo de contar para meus pais, entrei em contato com o monstro que causou meu problema. Quando ele soube, disse para eu abortar e que o filho não era dele. Desesperada e desinformada, tomei vários chás caseiros, mas não consegui abortar. Entrei em depressão, tentei suicídio. Até que, em uma manhã abençoada, uma colega de trabalho me emprestou uma revista, onde uma moça contava a sobre sua gravidez e sobre ajuda do Cervi. Então eu decidi procurá-los. Quando cheguei ao Cervi senti que Deus havia colocado uma luz na minha vida. Eu me emocionei muito ao contar minha história e senti um alívio enorme quando vi que teria ajuda. Comecei a terapia, decidi não abortar e contei aos meus pais, mas decidi encaminhar o bebê para adoção. Quando minha filha nasceu, eu e meus pais nos emocionamos muito e foi impossível não ficar com ela. Hoje, apesar das dificuldades, sou uma mãe feliz graças a Deus e ao Cervi. Agradeço muito e oro para que Deus abençoe os voluntários para que eles continuem ajudando outras mulheres. D.

  “O Cervi me deu todo o apoio que precisava”

Uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida foi o Cervi. Fiquei desesperada quando soube que estava grávida. O meu relacionamento não estava bem e, com a gravidez, tudo acabou. Foi o Cervi que me deu todo o apoio psicológico e material que precisava. Agradeço a Deus por essas casas que apóiam mães solteiras. Meu eterno agradecimento ao Cervi. V., 23 anos, São Paulo, SP

Maria agradeceu por Deus levá-la até o Cervi Após terminar um casamento de seis anos, sem filhos, Maria começou a namorar e engravidou meses depois. Decidida a abortar, foi ao Cervi e falei sobre as conseqüências do aborto, o valor da vida e o amor de Deus. Oramos e ela chorou muito, mas não desistiu. Continuamos orando pela vida de mãe e filho. Na semana seguinte, ligamos e Maria disse que tinha desistido! Ela foi a uma clínica, mas achou o lugar horrível e saiu de lá decidida a ter seu filho. Maria agradeceu e reconheceu que foi Deus quem a encaminhou ao Cervi e até a clínica para mostrar que ela não queria o aborto. História da Maria*, relatada por uma das voluntárias do Cervi. * O nome foi alterado para divulgação.

veja também