Evento discute a comunicação e Religião em tempos de cibermídia

Evento discute a comunicação e Religião em tempos de cibermídia

Atualizado: Terça-feira, 23 Agosto de 2011 as 9:46

O tema da sexta edição do Eclesiocom – Conferência Brasileira de Comunicação Eclesial nasceu a partir das sugestões dos próprios participantes dessa rede de profissionais e pesquisadores de comunicação que, anualmente, se reúne para refletir sobre as relações entre comunicação e religião. Comunicação e religião em tempos de cibermídia foi o tema que nasceu das trocas de e-mails, a partir do desejo comum de analisar a crescente participação de grupos religiosos no ciberespaço. Para conduzir a reflexão, os/as comunicadores/as tiveram a ajuda de um profissional de outra área do conhecimento: o antropólogo Airton Luiz Jungblut (foto à direita), professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-RS e um pesquisador que se especializou  no estudo do uso religioso da Internet no Brasil.

  A interdisciplinaridade do VI Eclesiocom foi característica ressaltada pela coordenação geral do evento e representantes das instituições que o apoiaram (veja na foto abaixo, da esquerda para a direita): Magali Nascimento Cunha, professora na Faculdade de Teologia e na Pós Graduação da Faculdade de Comunicação da Umesp; o professor José Marques de Melo,  da Cátedra Unesco da Universidade Metodista; Prof. Paulo Tarsitano, diretor da Faculdade de Comunicação;  Prof. Paulo Garcia, diretor da Faculdade de Teologia e Prof. Laan Mendes de Barros, coordenador da Pós Graduação em Comunicação.  Para o professor Paulo Garcia, o Eclesiocom reflete exatamente a essência da Universidade: o diálogo entre os saberes, visando à construção do conhecimento.  

    A investigação antropológica do uso de  redes sociais, direcionada ao campo religioso, resultou na tese “Nos chats do Senhor: um estudo antropológico sobre a presença evangélica no ciberespaço brasileiro”, que conferiu ao professor Airton o título de Doutor em Antropologia Social, no ano de 2000. No Eclesiocom, o professor compartilhou um pouco do que tem descoberto nos últimos dez anos de pesquisas na área.  Ele lembrou que, quando iniciou sua pesquisa de doutorado, encontrou o espaço religioso da Internet praticamente dominado pela participação evangélica. A valorização dada pelo protestante à cultura escrita desde os tempos da Reforma, associada à criação da Imprensa, foi,  na opinião do professor, a motivação para a grande presença evangélica na Web, sobretudo nos chats, listas de discussão e fóruns. Os espíritas, que, tradicionalmente também valorizam a cultura escrita, também estão entre os grupos religiosos pioneiros da Internet, embora com uma participação bem menos expressiva em seus primórdios. Já os grupos católicos, esotéricos e afrobrasileiros tinham uma participação muito modesta (as religiões de matriz africana praticamente ausentes).

  “Hoje a situação é bem diferente”, afirmou o pesquisador. Diversos grupos religiosos conquistaram o ciberespaço e cresceram também os portais comerciais explorando o mercado religioso. De maneira geral, são mais bem sucedidas as páginas pessoais do que institucionais, confirmando a vocação da Web à autonomia: “As pessoas não gostam de ter sua voz limitada pelas instituições”. Segundo Jungblut, a energia da Web vem das pessoas que tem informações, não das pessoas que buscam,  numa verdadeira “tecnologia do eu”: “hoje qualquer pessoa pode publicar uma página. Talvez haja mais bocas do que orelhas na Internet”.

  O professor lembrou que, hoje, existe uma propensão a se “crer sem pertencer”. “Se o próprio indivíduo produz sentido de maneira autônoma, a pertença se torna secundária”. Bastaria ler uma revista, frequentar um progrma de TV, acessar um ou outro site para se obter o necessário alimento espiritual. Na Internet, é comum a presença de usuários que escolhem elementos de distintas religiões para compor uma crença própria, como se retirassem peças de um depósito, sem a necessidade de se utilizar o “kit completo” composto de toda a tradição e arcabouço doutrinário de uma religião, comparou o professor. Essa mistura doutrinária seria resultante da crise de autoridade pela qual passam as instituições religiosas, do esvaziamento do poder institucional, gerando a figura que já foi denominada “beija-flor eclesiástico”, já identificada por pesquisa do IBGE.  Matéria do dia 15 de agosto da Folha de São Paulo informa que o subiu o número de evangélicos sem vínculos com igrejas.

  Para as instituições religiosas, a comunicação com o internauta, sobretudo o jovem, é um desafio. A Internet segue como um campo privilegiado da individualidade e da autonomia, com todos os benefícios e riscos que essas qualidades trazem.  Apesar da presença religiosa cada vez maior no ciberespaço, segundo o pesquisador Airton Jungblut a competência já demonstrada pelas religiões institucionalizadas nos veículos de comunicação de massa (imprensa, rádio e TV) ainda não chegou à Internet.    

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