Ex-drogado, pastor defende conversão para a cura do dependente químico

Ex-drogado, pastor defende conversão para a cura do dependente químico

Atualizado: Quarta-feira, 13 Maio de 2009 as 12

Por Felipe Pinheiro

David Mitrovi, 22, tinha sete anos quando, influenciado pelo pai, fumou crack pela primeira vez. Na adolescência manteve o vício com roubos e o tráfico de drogas na região de Osasco (SP). Respeitado pelos colegas do mundo do crime e possuidor de bens materiais como carro e moto, David resolveu, orientado pelo pastor da Igreja Resgate de Vida, pedir ajuda especializada da casa de apoio evangélica que abriga o Projeto Restituição, no centro de Barueri (SP). "Eu estava usando muita droga e minha mãe estava muito decepcionada comigo. Eu quis entrar na casa para me ajudar. A minha mulher está grávida e eu preciso dar o exemplo para o meu filho", garante o jovem que está internado há 48 dias no Projeto Restituição, um centro evangélico de tratamento de dependentes químicos.

Além de David, mais 14 pessoas são auxiliadas pelo projeto de internação voluntária. Segundo Edimilson dos Santos, o pastor Edi, idealizador da casa de apoio e ex-usuário de drogas, "quando a pessoa pede ajuda é porque ela está no fundo do poço. Não acreditamos em recuperação. A recuperação poder ter uma regressão. Acreditamos em conversão. Uma vida não recuperada, mas transformada por Cristo não volta atrás".  

No entanto, é muito comum que recaídas aconteçam. Oséias Gonçalves, 34, após três anos distante dos entorpecentes, voltou a se envolver com o vício. "Resolvi procurar ajuda antes que piorasse. Após dois meses saí da casa. Eu tive uma saída mais rápida também porque me entreguei completamente ao Espírito Santo", afirma Gonçalves que sempre retorna para ajudar aqueles que ainda estão em tratamento. "Sou evangélico de berço, mas o amor que é representado aqui eu nunca tinha visto em igreja nenhuma. Através dessa postura, desse amor, é que eu consegui recomeçar a minha vida".

Para o pastor Edi, as recaídas nas drogas fazem parte de um processo de libertação do vício: "Cair e levantar não é bom, mas muitas vezes faz com que venhamos a aprender a falar menos. Quando achamos que somos super homens e dizemos nunca mais, caímos na nossa própria contradição. Hoje eu entendo que eu não sou forte, eu não consigo, mas o Espírito Santo é quem me faz ser forte. A força vem de Deus".

O próprio pastor conta que passou por quatro casas de recuperação antes de se manter distante das drogas. "Numa casa de recuperação em Cabreúva (SP), Deus começou a falar no meu coração para começar a fazer essa obra. Eu saí de lá e seis meses depois dei início ao projeto Restituição numa salinha".  

Evangelismo

As atividades do Projeto Restituição consistem em palestras com pessoas que passaram por problemas de dependência química, discipulados entre os próprios internos; terapia ocupacional; e laborterapia - divisão de atividades como limpeza do ambiente ou elaboração do almoço. Os internos ainda saem duas vezes por semana para jogar futebol e realizar cultos ao ar livre. "Nas dinâmicas um ajuda o outro com as experiências. Em grupo eles entram nas drogas e também em grupo eles saem", afirma o pastor.

O ideal é que o interno fique de seis a nove meses na casa de apoio. Após 45 dias ele é liberado para ver a família num período de teste que dura um final de semana. De acordo com o pastor, "muitos retornam felizes, porque foram para a Igreja com a família e evangelizaram. Nós nunca os forçamos a serem crentes, mas mostramos que ser crente é bom. É uma opção deles".

Manuel Pereira, ex-viciado em cocaína, maconha e bebida alcoólica, veio do Rio de Janeiro a São Paulo a -sepé após desesperar com a vida que levava. "Meus sonhos estavam todos na lama. Como não queria aquela vida pra mim, saí de lá com três conhecidos e vim pela Dutra com destino a São Paulo". Hoje obreiro, nome dado aos voluntários do Projeto Restituição, Manuel ajuda os internos. "Temos que pedir sabedoria a Deus para lidar com carinho com essas pessoas para não perder eles para o crime", afirma o obreiro que também atua como diácono na Igreja da Promessa, em Barueri.

Diferente de um centro de recuperação tradicional, o Projeto Restituição propõe um trabalho evangelístico, apoiado por denominações evangélicas e pelas famílias dos internos. "Não visamos somente a recuperação mas sim a transformação. Não adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua salvação. Nós cremos que estamos dando o maior tesouro. Esse trabalho é pura evangelização. Já vieram homens nos pedindo que parassem com o crack, mas nós nunca falamos de crack, sempre falamos de Jesus", aponta o Pr. Edi.

Depois de terem a vida restaurada e compreenderem verdades espirituais contidas na Bíblia, os ex-dependentes químicos naturalmente testemunham aquilo que Deus fez em suas vidas. "O meu propósito de estar aqui é ser um instrumento nas mãos do Senhor, para Ele me erguer. Do mesmo jeito que eu levei almas para o tráfico, eu quero trazer almas para Ele", afirma David, que envangeliza meninos cuja realidade é semelhante a que viveu.

As piores drogas

Ex-usuário de crack principalmente, o pastor Edi ressalta que a abstinência das drogas lícitas são as piores. "A principal é a do tabagismo. A pessoa passa por momentos de crise terríveis, de irritação. Temos que estar prontos para distrair a mente dela com terapia ocupacional, dinâmica, oração e louvor. É a droga mais terrível. Em seguida vem o álcool".

E foi no álcool que Rúbens Tavares viu sua vida ser destruída. Após passar seis meses na filial do projeto Restituição em Itapevi (SP), a cachaça voltou a ser motivo de preocupação para Rúbens dez meses depois de deixar a casa. Ele conta que chegou a perder o emprego de segurança. "Agora estou firme com Deus. Já passei pelas águas (batismo). O Espírito Santo habitou no meu coração e agora estou cheio. Antes eu tinha muita pressa porque estava desempregado, mas tudo tem o seu tempo", expõe Tavares.

Após cinco anos de projeto, o pastor Edi destaca a paciência e o amor como os maiores aprendizados. "Muitas pessoas hoje não usam drogas, não se prostituem, estão na Igreja mas não sabem que dão trabalho para Deus. Não é apenas a droga, mas a desobediência a Deus em todas as áreas. As pessoas hoje discriminam quem usa droga, mas às vezes tem vícios piores por aí como desobedecer os pais, desonestidade, adultério, falsidade. Isso tudo é pecado. Não é pecado usar somente drogas. É pecado desagradar ao Espírito Santo de Deus. Eu tenho aprendido que Deus tem muita paciência e amor".

Projeto Restituição - Casa de Apoio Evangélica

Local:   Rua Oceano Pacífico, 236, Jardim Regina Alice. Barueri - SP

Telefone: 2851-1451

Cultos: Quinta-feira e domingo às 19h30

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